sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Fidel e as Clepsidras

Nessa quinta-feira, 28, George W. Bush, o folclórico presidente norte-americano, declarou, a despeito das colocações de Barak Obama, que não se sentaria numa mesa de entendimento com o novo mandatário da ilha da utopia, mais comumente denominada de Cuba. Que sentar-se numa mesa com Raúl Castro, oficializado desde o final de semana no cargo que outrora fora do irmão Fidel, era legar a este “tirano”, em suas próprias palavras, o prestígio da nação estadounidense. E que mais, pretenderia manter intacto o bloqueio que seu país aplica à ilhota desde 1962, que inclusive já havia sido reforçado pelo mesmo há quatro anos atrás.
Bom, ainda que esse bloqueio pareça uma anacronia, e seja, concordemos que a transição mandrake de Cuba também não levou muito em consideração o efeito Cartier. Mas que efeito seria esse, se pergunta o leitor atento desta coluna. Simples. O efeito relógio. Por que Raulzito também não tem muito tempo como mandatário pela frente? Isso até que é uma vantagem. Mas a pura substituição de Fidel por Raúl não representou, e nem quis representar, um avanço para Cuba rumo ao novo século, ainda que no caso específico de Cuba, ainda reste terminar 50 anos do século passado.
Ainda assim, Raúl Castro já deu passos importantes. Passos grandes para um homem, mas pequenininhos para a humanidade, e que Neil Armstrong me perdoe. Já se reuniu com o segundo homem mais poderoso do Vaticano no domingo, como documenta a SIR, agência de notícias do clero; sancionou nesta quinta-feira última dois acordos internacionais sobre os direitos humanos, como a própria ONU anunciou. Um sobre direitos econômicos, sociais e culturais, e outro sobre direitos políticos e cívicos. Raúl Castro ainda disse que isso apenas formalizava aquilo com o qual seu país já houvera se comprometido desde 1959. A própria declaração do chefe é anacrônica. Achar que após todos esses anos, alguém ainda acredita que os ideais da revolução permaneceram intactos sempre na defesa da liberdade política de sua população, é no mínimo, produto raro de antiquário.
Fidel não resistiu ao tempo. Nem os americanos, nem a doença, o que definhou e condenou o eterno líder cubano foi o tempo. Não teve condições de abandonar muita da essência da revolução, como seus colegas chineses, e adentrar de forma prudente no século XXI. Bastou essa renúncia para vermos Raúl tentar recuperar algumas coisas. Mas se Raúl é apenas o irmão caçula, que já declarou ter Fidel por mentor, então, o que faltava para Fidel, era uma forma de fazer as coisas que agora seu irmão vai fazer.
Fidel, como um romântico da política, entrou nessa era insensível, da tecnopolítica, dos computadores fazendo e traçando nossos rumos, como um dinossauro indo ao shopping center fazer compras. Fidel era de outro tempo. Fidel era do tempo do Neruda. E Pablo Neruda não foi importante porque era comunista, mas porque era um poeta de alma elevada. Seus Cem Sonetos de Amor são ainda a leitura que mais me emociona. Hoje, entretanto, estamos no mundo em que nosso grande escritor é a J. K. Rowling, a autora do Harry Potter. Foi demais para o Fidel.
As FARC então são do tempo em que não se mediam as horas. Acreditando e seguindo o exemplo de Mao, eles seguiram lutando e adentrando eras e mais eras. E passaram, pelas intempéries do tempo, evoluindo, de uma organização miliciana defensora do comunismo da mudança e da igualdade, para uma organização criminosa com PhD nos mais variados crimes. De guerrilha da salvação, para primeiro, leão-de-chácara do narcotráfico, e depois, seqüestradores impiedosos. Suas vítimas, permanecem 4, 5, 6 anos em cativeiro. Lutando pela liberdade, privemos as liberdades alheias! Sugestão de lema para a FARC. Apenas sugestivo, claro.
O tempo é, e sempre será, a grande força transformadora do mundo e das Relações Internacionais. As FARC, por exemplo, continuam mutantes, e agora adquiriram uma nova conotação: promoção política de Hugo Chaves. Enquanto negocia a libertação dos reféns em nome dos Direitos Humanos, se promove e força uma liderança competitiva com o Brasil.
Assim, nem os revolucionários escapam à sanha do tempo. Sarkozy mesmo deve ter aspirado e defendido muito aos ideais do Maio de 68 na sua vida política estudantil. O mal de Fidel, então, foi certamente o tempo. Passou de um herói, a um ditador exótico, a um tirano ultrapassado, e a um velhinho estranho ao mundo da tecnologia. Como as FARC, que passaram de movimento revolucionário, para protetores do narcotráfico, seqüestradores políticos, e por fim, terreno de promoção chavista. Para Fidel bastava uma compatibilidade com uma simples clepsidra, primeiro relógio do mundo, ainda um relógio de água. E um bom presente para Bush pelos anos de mandato seria a construção de uma, no quintal de sua casa no Texas.
Odair J. de Araújo Junior, graduado em RelaçõesInternacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário, realizando de maneiraindependente estudos de como as manifestações artísticas podem se relacionar eser retratos de suas épocas, com ênfase na produção Shakespeareana.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O mundo em questão


Brasil, Fevereiro de 2008, com certo deslumbre a sociedade internacional observa transformações significativas em uma “ordem” já consolidada a algumas décadas no panorama da política. Cuba sem seu General, a tradicional e branca sociedade estadunidense na eminência de eleger, para seu máximo posto político, uma mulher ou um negro e a América Latina observando tais rearranjos de maneira a tentar compreender a ruptura ou a continuidade que tais transformações podem acarretar par a sua realidade.
È nesse panorama que se dá o nascimento do blog Mundo em Questão, este que tem como objetivo principal trazer interpretações desse mundo e dos fenômenos de abrangência internacional, e que de certa forma possui impacto no cotidiano de nossos leitores. Neste texto de abertura, procuro, ao invés de tocar em específico à algum tema da agenda intencional, explicitar as idéias que nos acompanharam no desenrolar das nossas explanações, nossas idéias do que de fato constitui as Relações Internacionais.
Estudar as Relações Internacionais ao longo da história da produção do conhecimento, tradicionalmente possui como eixo principal a análise das temáticas recorrentes às ações dos Estados e as implicações que os fenômenos das mesmas causam na realidade interna ou externa dos envolvidos na quentão pensada. Assuntos ligados a Política, Economia e Segurança sempre estiveram em maior evidencia nos estudos de Relações Internacionais, garantiu às Relações Internacionais o status formal que o tradicional meio científico, calcado no conceito moderno de ciência, sempre exigiram.
Respeitar e considerar todos os aspectos formais que os séculos de teoria do conhecimento construíram é logicamente uma preocupação dos estudiosos do Mundo em Questão, porém pesaremos nós em temas que extrapolam as esferas tradicionalmente abordadas quando se pensa em Relações Internacionais enquanto ciência. Desde que pensamos a História por um ponto de vista global, observamos que uma gama enorme de temáticas de abrangência internacional obteve importância significativa para o debate cientifico.
Cada vez mais vemos temas recorrentes à cultura, tanto erudita quanto cotidiana, sutilmente impregnando de forma profunda na realidade internacional. E a partir destes elementos que temas paralelos aparecem, e se apresentam tão próximos à vida comum de nossos leitores. As Relações Intencionais são bem mais próximas à sociedade do que se pode se explicitar as questões tradicionais do panorama Internacional.
Esporte, música e até mesmo aqueles programas que desde muito cedo acostumamos assistir na televisão são de extrema relevância para compreendermos aspectos da realidade internacional, alguns tão próximos de nós. Atualmente existe algo mais internacional do que o Rock and Rool? E o bom e velho futebol? Cada vez mais é de uma importância internacional considerável, basta saber que a FIFA possui mais membros afiliados do que a própria ONU. Isto sem contar na abrangência internacional da mídia, que impulsionada pela modernidade possuiu um alcance o qual a alguns anos fora completamente inimaginável. Nesta semana mesmo observamos uma apresentação conjunta das orquestras filarmônicas da Coréia do Norte e de Nova York. A arte aproximando partes que anos de diplomacia tradicional afastou.
Justamente por procurar considerar temáticas paralelas para o estudo das Relações Internacionais não nos prenderemos teoricamente a esse ou aquele paradigma em específico. Ao observar a enormidade de teorias e paradigmas que se debatem nas Relações Internacionais se nota que além da pretensão se explicar, analisar ou compreender o real existe uma ferrenha rede de relações de poder, o que resulta e uma forte produção de discursos que acaba por se deslocar da “cientificidade” que se pretende para tal disciplina. Teoria, portanto será tratada como instrumento de compreensão e não como “camisa de força” pelos estudiosos do Mundo em Questão.
Desta forma se inicia a proposta de se pensar as Relações Internacionais como de maneira mais livre criativa, procurando abordar temas que estejam próximos da vida de todos sem se amarrar nas estruturas de modelos teóricos que mais se parecem manuais do que realmente produções pensadas e fato.


André Luiz Oliveira Guimarães Pitaluga, Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Goiás, realizou pesquisas de História e Teoria das Relações Internacionais. Atualmente realiza pesquisas independentes sobre Teoria, História e Cultura aplicados às Relações Internacionais.