segunda-feira, 31 de março de 2008

Cheney afirma ser possível a criação do Estado da Palestina

Rinaud Linhares de Gucci
Bem, caros leitores do mundo em questão, já fazem uns dias me deparei com uma reportagem feita pela BBC Brasil em 23/03/2008 sobre uma declaração do vice-presidente dos EUA Dick Cheney. O título da reportagem era: "Cheney: Criação de Estado Palestino é possível". Destarte de minha vontade, que era a de colocar o texto aqui e ir discutindo trecho por trecho, o que me foi desaconselhado a fazer por questões autorais e de autorização, vou me ater e discutir essa declaração do vice americano. (Reportagem presente no link: http://noticias.br.msn.com/artigo_bbc.aspx?cp-documentid=6576400).
Dick Cheney, em primeiro de tudo, deu essa declaração durante uma viagem oficial que passou por Iraque, Afeganistão, Arábia Saudita e Turquia. O importante com isso é observar que, mais do que uma visita regional, essa visita teve sua região escolhida cuidadosamente. Coube, claramente, o objetivo de visitar os países reconstruídos pela nação mais poderosa do mundo, além de cortejar dois aliados estratégicos.
A criação do Estado Palestino, entretanto, foco central da reportagem, é viável do mesmo nível que o Estado de Israel foi em 1948. Não há terra disponível, desabitada, ou pelo menos não mais do que havia há sessenta anos atrás. Tudo passa, como sempre, por uma questão de vontade política. Se fosse a ONU quem apregoasse a criação do Estado da Palestina, poderíamos dizer que era uma medida compensatória, talvez até quem saiba, com o intuito de fomentar uma balança de poder. Mas não é. A iniciativa central é norte-americana, que apenas agora parece ter dado ouvidos aos anseios do povo palestino. Logo, a questão parece passível de uma análise mais profunda.
Seria a velha tática do bater e assoprar? Ou, seria uma forma de legitimando um Estado Palestino, poder atribuir a este o ônus e as responsabilidades internacionais que todo Estado deve ter? Porque assim, qualquer ação na região, fosse israelita, fosse palestina, resultaria mais ou menos no que aconteceu recentemente na crise entre Colômbia e Equador.
Dois Estados de fato e de direito, mudariam em muito a forma como as coisas caminham na região. Seria mesmo? A declaração de Cheney surge após um encontro com Mahmoud Abbas. Parece mesmo a velha tática do bater e assoprar. Após assolar o mundo muçulmano, uma promessa de criação de um Estado Palestino é como uma brisa suave após uma batalha sangrenta.
O detalhe curioso que pode indicar mais do que estamos pensando surge no trecho da reportagem no qual é mencionado que Bush e Cheney esperam um acordo de paz até janeiro de 2009, ou em outras palavras, até o final do mandato de George W. Bush. Parece que, no fim das contas, o objetivo de Bush pode ser se tornar maior do que parece que será. Destituir Saddam, missão incompleta por seu pai, caçar os resquícios terroristas de vários atentados terroristas até anteriores ao 11 de setembro, e pacificar o Oriente Médio com certeza glorificariam e eternizariam o nome de ambos para a posteridade.
E por fim, Cheney alerta que os ataques com foguete contra Israel pode dificultar, retardar e até mesmo impossibilitar a criação do Estado Palestino. Mais uma forma de, diante das possibilidades, agradar a gregos e troianos.
Rinaud Linhares de Gucci, convidado, é aluno de Relações Internacionais, pretendendo seguir a carreira diplomática após o curso.

domingo, 30 de março de 2008

MELHORES DE DOMINGO: O G-8 e a política do espetáculo

Republicação
Leonardo Queiroz Leite

O último encontro do G8 na Alemanha e toda a repercussão das polêmicas posições dos EUA acerca das questões de aquecimento global fizeram com que essa organização internacional do mais alto nível se tornasse ainda mais conhecida. Seleto grupo composto pelos principais países mandatários das maiores economias capitalistas da atualidade, o G8 é um fórum permanente de discussões de alcance global que concebe os interesses de um poderoso e restrito grupo: os sete países mais industrializados do mundo (EUA, Alemanha, França, Itália, Canadá, Japão e Reino Unido) e a Rússia. Esse último país foi convidado a integrar ao G7 no começo da década de 1990, em um momento histórico após o fim da Guerra Fria, por seu peso geopolítico e por razões estratégico-militares.
Embora considerado uma organização internacional, o G8 não está estruturado com base em um secretariado nem em uma sede fixa com um corpo burocrático permanente, como estão as organizações internacionais de moldes formais como a ONU e a OMC, sendo classificado, assim, como um caso sui generis de organismo internacional. Assim, mesmo com uma agenda cada vez mais ampla e complexa, o G8 conseguiu manter um caráter informal e evitar uma ampla burocratização das suas atividades.
Inicialmente focado nos debates em torno de questões econômicas internacionais, atualmente o G8 vem atribuindo progressiva importância aos temas relacionados ao desenvolvimento e às preocupações com o aquecimento global. Esse novo enfoque mais "democrático" e menos elitista é evidenciado pelo convite para participação na Cúpula de 2007 estendido às economias emergentes como Brasil, China, Índia, México e África do Sul e a alguns países da África, como Nigéria, Egito, Argélia, Senegal e Gana. O convite a esses países tem pôr objetivo estreitar as relações do G8 com o mundo em desenvolvimento, incluindo as vozes do Sul nas discussões das mais relevantes questões políticas e econômicas de abrangência internacional e intensificando a ajuda internacional ao desenvolvimento da África. Além disso, o G8 ganha uma dimensão mais universal com a participação dos países em desenvolvimento, na tentativa de agregar mais legitimidade às suas decisões marcadamente elitistas.
Entretanto, o G8 ainda é um espaço de natureza fundamentalmente política, já que são os próprios chefes de Estado e de Governo dos países mais influentes do mundo que vão às cúpulas para tomar parte nas reuniões como negociadores. A influência político-diplomática, o esmagador peso militar-tecnológico e a hegemonia econômico-financeira dos países que compõem o G8 são incontrastáveis. Desse modo, a imperiosa vontade desses países que compõem o núcleo duro do poder mundial se faz presente nas decisões finais das Cúpulas, caracterizadas por pura retórica e por um enorme receio de comprometimento com metas e objetivos mais altruístas que por ventura venham a arranhar as suas tão pujantes economias.
Enfim, as badaladas reuniões de Cúpula do G8 "glamourizam" o poder através da política do espetáculo difundida pela imprensa internacional, atingindo grande parcela da opinião pública mundial. A influência das decisões políticas mais relevantes do G8 é irresistível e de certo modo coercitiva, fato que confere a esse restrito clube de nações o cobiçado poder de alterar decisivamente a arquitetura das relações internacionais contemporâneas.


Leonardo Queiroz Leite, convidado, é graduado em Relações Internacionais pela UNESP-Franca e membro da ADESG desde 2005. Atualmente, dedica-se aos estudos para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Queres Liberdade? Então defeques de porta aberta.

Hélio Afonso Filho

Antes de qualquer coisa, gostaria de falar que este momento é parte de um sonho realizado. Esse Blog está virando referência para mim e para alguns companheiros que compartilharam da idéia de fomentar os estudos e produção das Relações Internacionais. Por coincidência, hoje é meu aniversário e poderei escrever algo que gosto, ler os artigos interessantes dos meus amigos e amigos dos meus amigos. Por isso que vai ficar gravado na memória esse dia e por isso só tenho a agradecer pela boa vontade do meu amigo Odair Júnior e a colaboração do meu grande amigo André Pitaluga, que junto comigo iniciaram essa caminhada através do Mundo em Questão, mostrando acima de tudo, qualidade.
Partindo para as reflexões de um jovem, agora com 23 anos, resolvi optar por um artigo diferente, uma visão mais filosófica e nem por isso tão menos internacionalista. Algo que me incomoda bastante e que sou obrigado a pensar sempre que vejo a estapafúrdia comoção nacional sobre o programa Big Brother Brasil, vulgo BBB, que é a questão da liberdade. Não vou ater-me sobre o tal "show", pois não é merecedor de sequer a menção dentro deste âmbito saudável de discussão sobre temas mais relevantes para o mundo, mas vale a intenção e o esforço de tirar de lá uma reflexão saudável sobre os caminhos da humanidade.
Busquei a fundo as informações necessárias para escrever sobre o tema, estava até agora tentando decifrar as idéias de Kant; procurei encontrar-me nas palavras liberais de Tocqueville; cheguei até a me aventurar no universo Hegeliano, mas escorreguei ali entre a hermenêutica e a síntese. Enfim, para ligar a "Priori" e a "Antítese", gastei um dicionário de insinuações frustradas atadas com as minhas críticas à "Crítica" kantiana. Foi um processo custoso que só ficou mais claro com a intervenção da Santa História que acabou abraçando-me para confortar meus pensamentos errantes. Eu que não sou um cavaleiro, montei no jegue do tempo e acabei gastando algumas horas, perdido no caminho de volta para as linhas que dão forma a vossa santidade.
Sem sombras de dúvida o período mais fértil foi o Iluminismo, onde a ruptura é constante e o ideal de liberdade é fator primordial para a quebra com os valores do Antigo Regime. Não faltam autores e idéias que derivam da racionalização do pensamento oferecido pelos iluministas, acima citei os mais importantes na minha visão, mas evidentemente há vários outros de níveis semelhantes. A liberdade política é a vertente temática e a relação indivíduo-Estado é a ponta de lança do tridente governamental democrático. A liberdade acabou por ficar condicionada às leis que regem o Estado e ela tem fim a partir do momento em que você agride a liberdade alheia. Se somente só os Estados iriam garantir a verdadeira liberdade, dessa eu não quero participar, pois estamos vendo o reflexo da falha estatal nos dias atuais, onde as regras já não são feitas de acordo com a vontade popular, mas sim para beneficiar algumas minorias mais favorecidas, destruindo assim todo aquele ciclo utópico de liberdade pensada, elaborada por Kant. Que me desculpe os idealistas, mas fico com Thomas Hobbes quando ele diz que “o homem só é livre quando se encontra no estado de natureza”.
Mas em uma coisa ainda eu ainda preciso concordar com o sábio prussiano “o homem é o fim em si mesmo”. E ainda sentado no meu jegue, percorrendo as assim as linhas do meu entendimento, foi entender que a linha tênue que separa a liberdade de escolha entre um milhão ou um pedaço de pão é o simples fato de você conhecer ou não um diretor da GLOBO. Esse é o reflexo da política da liberdade vigiada imposta pelos americanos desde o “Big Stick” chegando até os nossos dias através e seu eufemismo midiático e de seus micos adestrados. E assim vamos vivendo entre uma câmera e outra através do eterno “zapping” entre um enlatado e outro.
A história da liberdade tem muitos capítulos, impossível de se encontrar o início ou fim dela, mas pode-se ver que ela sofreu muitas alterações e que sofrerá ainda mais com o passar das novas eras. Mas antes que a liberdade torne-se um mero devaneio, experimente, sem ninguém em casa, defecar de portas abertas e sinta-se no completo e mais perfeito estado de natureza. Amarro por aqui o meu jegue.


Hélio Afonso Filho, da equipe do Mundo em Questão, graduado em Relações Internacionais pela UCG, pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV. Atualmente trabalha na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, onde desenvolve trabalhos de Marketing e Relações com Investidores. Também se dedica aos estudos sobre processos de Integralização no caso Europeu e Latino Americano e desenvolve também trabalhos na área Futebol-Relações Internacionais.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Godos, Visigodos, Ostrogodos e Romanos

Odair J. de Araújo Junior
A epidemia de dengue no Rio de Janeiro me faz lembrar, curiosamente, Relações Internacionais.
Quando a dengue era a bola da vez, há quase cinqüenta anos atrás, ocupando o lugar que hoje então é ocupado internacionalmente pela gripe do frango, mas que já foi igualmente ocupado pelo mal da vaca louca e pelo ebola, um plano de erradicação da doença se pôs em funcionamento. Ou pelo menos, um plano coerente de erradicação da doença na América, apostando talvez naquela altura, que o mosquitinho não viajava de avião, e tampouco tinha energias suficientes para voar sobre o oceano.
Com a participação de diversos países latino americanos, a iniciativa partida daqui do sul, conseguiu a eliminação da doença em quase toda a América Latina. Da hermana Argentina ao México. Faltou que o plano fosse aplicado nos EUA e no Canadá. Naturalmente, o plano de erradicação não fora adotado pelas respectivas nações, tão superiores para terem problemas com uma doença tropical de país subdesenvolvido. Agiram com arrogância e prepotência, como é ocasional em qualquer grande potência que se preze.
É, impossível mesmo seria imaginar uma epidemia de dengue no Canadá ou nos EUA, o que não impede que a doença existente lá, migre em alguns anos para cá novamente e irrompa aqui, onde os cuidados não são tão bem planejados e executados assim, e os mosquitos, esses ainda são abundantes.
E lá se vão os bons anos 50, de Chuck Berry, do rabo-de-peixe, da dengue. Se o mosquito possuísse claras orientações marxistas, os EUA teriam, então, lhe dado a atenção devida.
Ao longo dos anos o mosquitinho voltou, com seu parasita a tira colo, país a país, destruindo ao longo dos anos o processo de "quase" erradicação de uma década.
É verdade que faltam atitudes concretas por parte dos governos estaduais e municipais para evitar um surto de dengue. É verdade que falta consciência na população para evitar o acúmulo das condições para a proliferação do hospedeiro, apesar das campanhas heróicas e oportunas de nosso papa local, a TV Globo. É verdade, também, que falta ao mosquito da dengue um pouco de bom senso e compreensão para entender que não é bem quisto, bem-vindo, e que sua picadinha inocente nos causa mal. É, é verdade que faltam muitas coisas.
E uma delas não poderia deixar de ser um plano político sério e compromissado para a América em comum. Não nos entendemos em relação às FARC, em parte porque alguns pensam que são comunistas (e que comunistas eles são!). Não nos entendemos em relação à economia e o crescimento econômico. Não nos entendemos culturalmente. Adicione agora, apesar de caduca já essa idéia, não nos entendemos sanitariamente.
Os EUA e o seu quintalzinho, o Canadá, sempre acharam que haviam duas Américas: a sua e a nossa. Nesses países, as criancinhas de quarta série aprendem bem a geografia do continente. A diferença é que lá existe uma matéria que aqui nos falta: O Estreito do México! Sim, porque quem não sabe da existência do Estreito do México? A América possui, geograficamente dois estreitos: o de Bering, que nos separa da Rússia e o do México, que separa a banda boa da laranja da banda ruim, ou em outros termos, a banda rica da banda pobre. Por que não dizer, a banda civilizada da banda bossal? É, essa matéria é rica em noção de unidade continental.
Quando os americanos se vêem diante de um problema oriundo da parte bastarda da América, tendem a lidar com ele como se todo o problema fosse um cisma tribal. Se é político, uga-uga. Se é sanitário, uga-uga. Se é econômico, mais uga-uga. Bastaria uma clava, uma pedra, e uma tanga, do tipo Tarzã, e todos os problemas genuínos da parte diabólica da América se resolveriam.
Nossas doenças só existem porque somos atrasados, não nos cuidamos, não investimos em medidas sanitárias. Nossas disputas políticas existem quando falta alguém que ponha ordem na tribo e decida quem vai ficar com a mulher mais fértil. Nossa economia se resolveria se a teoria de Machado de Assis da Humanitas não se aplicasse e o campo de batatas desse para as duas tribos comerem.
Uga-uga total. Na verdade, a América inferior é um grande self-service no qual é só chegar e ir se servindo. As mulheres, servem é pra isso mesmo. As riquezas naturais, servem é pra isso mesmo. Nossas idéias, servem é pra isso mesmo. Temos todos os problemas do mundo, e ao mesmo tempo só um, que sintetiza nossa inferioridade: somos latinos! É claro, ser latino explica em muito nossa mediocridade, ao menos para alguns no globo, especificamente, na terra do Tio Sam.
Se uma mulher latina quer um Green Card, e otária ela que o quer, permita-me dizer, então que ela sirva um sexo oral no fiscal da imigração. Se um latino quer enriquecer na América, bom, temos milhares de mesas para serem limpas e servidas. Quando um americano deseja conhecer o Brasil basta comprar uma passagem para Buenos Aires, no fundo, é tudo a mesma coisa.
E aí, vemos estudantes da nossa elite nacional, pagando caro para fazerem esse tal de Work'n'travel. Em palavras portuguesas mais compreensíveis e cheias de significado: indo trabalhar de garçom, babá, hostess de cassino, carregador de bagagem de hotel, etc. Os mesmos que quando estão aqui no Brasil, muitas vezes humilham e se sentem superiores a quem dignamente faz essas atividades no país canarinho, mas que aceitam humildemente, fazerem isso em terra alheia. Os mesmo que um dia serão nossos médicos, advogados, doutores pós-doutores. Nossa elite, em outras palavras.
Um hábito romano esse. As tribos dominadas enviavam sua elite, os flihos de seus reis e de seus nobres, para servirem nos palácios do César e dos nobres romanos. Não fazemos nada muito diferente. No fundo, nos amam. O Brasil é a terra do Carnaval (leia-se devassidão), mulher bonita (leia-se sexo fácil e barato) e do soccer (leia-se futebol. O mesmo que o mundo inteiro chama de futebol, mas só o americano se dá o luxo de denominar de soccer).
Assim, percebemos que falta à América duas coisas: unidade na parte dos bárbaros, e respeito na parte civilizada. Mas o que se esperar? Normalmente é difícil a unidade tribal em regiões atrasadas, não é mesmo, Hommer Simpson?
E o Canadá? O que dizer do Canadá? A terra do esquilo e do guarda florestal na verdade se comporta como o irmão mais novo, que repete tudo que o irmão mais velho faz, e ainda jura, no fim, ter personalidade. A questão é que, se os EUA enxergam o Canadá como seu quintal, e enxergam, a América Latina é aquela parte dos fundos, no qual criamos os porcos e as galinhas.

Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.

terça-feira, 25 de março de 2008

A globalização é uma expressão sem sentido?

Juliano Mendes Ceccatti
Desde sempre, as Relações Internacionais teve seu leque amplo, não se limitando só às relações entre Estados, sejam políticas ou militares, ainda que para alguns, o militar será um dos extremos da política. Se não me engano, um autor de nome Clausevitz falava algo sobre isso.
Com o aumento da velocidade dos meios de comunicações, além do advento de novas tecnologias, as regras e a forma como essas relações se dão em muito se modificaram, além de em muito se intensificarem.
A globalização, fenômeno amplamente comentado apesar de um total esvaziamento de sentido que muitas vezes incorrem, não é um acontecimento novo. Antigo, eu me ousaria relacioná-lo totalmente com o fenômeno da mundialização, presente desde que as relações financeiras se dão na forma de um mercado supranacional.
Marcas e produtos se internacionalizaram sempre. Além de hábitos. O que dizer da importação constante que os romanos faziam de vários hábitos dos povos conquistados. Importaram a cultura grega, estratégias e aprendizados militares, hábitos domésticos bárbaros. As classes abastadas, ou as elites, geralmente mercadores ou ricos proprietários de terra, sempre se deram o luxo de usufruir do que havia de melhor em outras regiões. Ao longo dos anos, com o advento de novas tecnologias nos transportes, esse costume se intensificou. Conversando a idéia desse artigo com o editor Odair, este me advertiu entretanto para uma obra de Fernand Braudel que parece aludir para o fato de que, ao menos em importâncias alimentícias, esse tráfego de importações não se intensificou de maneira significativa antes do século XIX. Mas vá lá. Ainda que em pequenas porções destinadas para o consumo das elites, o caviar russo, a seda italiana e outras iguarias intensificariam esse processo.
Hoje, entretanto, produtos são sinais de hábitos, e importá-los, muitas vezes, ou quase sempre, coincide em importar um estilo de vida. E em alguns casos recentes, os produtos nada mais são que abstrações. O que dizer da internet e de suas tão declamadas vantagens?
Mas o que mais me detém a atenção nesse mercado global, e o que mais acho que intimamente se relaciona com o espírito das Relações Internacionais, são os produtos de luxo. Um produto de luxo, verdadeiramente, é a mais genuína incorporação de hábitos estilizados. O que dizer de uma bolsa Louis Vitton, um relógio Rolex ou uma Maserati?
Vamos ao caso da Maserati. Dirigir um carro veloz, que mais que um meio de condução, se torna num meio de vida e de expressão. Dirigir uma Maserati não fará sentido se não tiver um Omega no braço, uma camisa Hugo Boss, e ao seu lado, uma mulher trajando alta costura, talvez Channell, uma bolsa Vitton e um sapato Prada. Longe de mim o esnobismo, mas observem que isso tudo se constitui num verdadeiro estilo de vida. Caro, mas acessível a quem dele puder usufruir, cuja única limitação seria financeira, salvo nacionalidade, cor ou credo.
O capitalismo então cria regras próprias para como as relações interpessoais e as Relações Internacionais se dão. No fundo, cria categorias universais de produtores e consumidores, situa as pessoas numa universal divisão societal. Muito parelho isso, aliás, com o que Marx discutia n'O Capital.
Independentemente de ser em Wall Street, ou na Alameda Santos, um homem de negócio parecerá e disfrutará dos mesmos mimos e aparência. E os privilégios de uma classe social transcenderão fronteiras, e serão usufruídos na China comunista, assim bem como nos Alpes suíços. Não só nas altas classes sociais, mas na chamada classe média também, numa americanização genuína e forte de nossos hábitos e costumes. Em Cuba existem lojas para as elites comprarem seus tênis Adidas, assim bem como seu principal produto, o Charuto, terá suas edições mais caras destinadas à exportação e consumo das pessoas mais abastadas do regime. Logo, globalização me parece mais do que uma expressão sem sentido.


Juliano Mendes Ceccatti, convidado, é leitor dedicado do blog, além de curioso e ávido por novas informações e novas áreas de conhecimento. Cursou até o quinto período de Direito, mas se formou mesmo em Administração. Atualmente faz MBA, tem cursos de especialização em Comércio Exterior, e trabalha na área empresarial.

segunda-feira, 24 de março de 2008

A ocupação americana no Iraque

Tayla de Campos Rocha
Bom, gostaria antes de tudo de agradecer aos meninos do Mundo em Questão por me convidarem a escrever para esse blog que desde o início me encantou pela proposta e pelas idéias aqui presentes. Espero poder discutir as questões das Relações Internacionais com o mesmo espírito dinâmico que tenho visto e acompanhado os outros escritores fazerem, apesar dessa não ser minha formação específica. Assim, torço para que esse seja o primeiro artigo de muitos e que no fim os leitores gostem do meu jeito de escrever como gosto do que vejo aqui quase diariamente. Vamos lá!
Quando os reis europeus, através do papado, organizaram e selaram a criação de Ordens militares e religiosas como a dos cavaleiros templários e hospitalários com o objetivo de reconquistar e controlar a terra santa, nessa já haviam séculos que sua política oscilava entre a estabilidade e a instabilidade.
Terra de ninguém, o povo de Israel que por lá vivia, a abandonou em busca de terras cultiváveis e férteis e seguiu para o Egito, como a própria bíblia relata. A História sustenta o êxodo com provas aceitáveis e justifica a ação como fruto provável de uma grande seca na região. Quando os judeus regressaram ao seu pedaço de paraíso na terra, este já era ocupado por outras etnias. Reconquistá-lo foi um processo árduo. A páscoa judaica comemora justamente essa volta.
Desde então, a região foi assolada por diversas guerras e conquistas. Os romanos estiveram lá, e por fim, os muçulmanos. O povo de Alá chegou lentamente à região e em meados da baixa idade média tomou em definitivo a terra santa. Destruiu uma série de castelos e fortificações cristãs-ocidentais naquela localidade, e consolidou um domínio próprio, além de desarticular muitas das organizações católicas criadas para a questão.
Mais do que organização interna, os muçulmanos de Saladino e de outros tempos, provaram que sabiam se organizar, perseverar e se unir no combate a um inimigo externo. Uma lição que às vezes é esquecida por nós até hoje.
Um secretário do governo iraquiano afirmou que a segurança no Iraque está cada vez melhor. De fato, as fontes de notícias internacionais não negam isso, mas os 30 mil soldados a mais enviados pelos EUA para o país com o intuito de atuar nas áreas mais perigosas pode ser a resposta para essa afirmação.
A questão principal parece ser que a retirada das tropas americanas do Iraque pode estar bem longe e de que o sucesso da missão norte-americana nem tão certo assim. Manter a democracia do Iraque e pacificar o país pode ser um trunfo se não houver envolvimento político e social de toda a população nacional?
Mais uma vez, os descendentes de Saladino se mostram eficazes quando o objetivo é destruir ou vencer um inimigo externo, apesar de internamente não se entenderem muito bem. Parece às vezes que o recado do islão para nós do ocidente é: deixem-nos em paz para resolvermos nossas próprias diferenças ao nosso modo.
Membros do Fatah e do Hamas conversaram e selaram no Iêmen um acordo para o início das negociações de paz na Palestina. Mas poucas horas depois o acordo parece já estar ruindo por divergências entre eles. Assim, da mesma forma, o domingo de páscoa deixou mais de 30 mortos no Iraque, resultados direto principalmente do conflito entre sunitas e xiitas. Mais uma vez, os muçulmanos não parecem internamente homogêneos. Mas e externamente?
Será que o resultado da incursão no Iraque não terminará por ser um longo tempo desperdiçado, sem falar em vidas, dinheiro e armamentos? Será que ao fim da ocupação norte-americana vamos ver a história da terra santa dos templários se repetir? Após pacientemente esperar, lutar e perseverar, o islão provará ao ocidente que não poderá simplesmente influenciar diretamente seu mundo? Só o tempo nos dirá.

Tayla de Campos Rocha, convidada, é formada em jornalismo, estudiosa e interessada nas questões internacionais e no movimento feminista. Atualmente, atua no terceiro setor trabalhando junto à ONG's que observam a participação feminina na política e nos movimentos sociais.

quinta-feira, 20 de março de 2008

A guerra nos tempos do cólera

Odair j. de Araújo Junior
Fazem cinco anos que a guerra no Iraque teve seu início. Cinco longos anos, que atravessaram dois mandatos de Geroge W. Bush e provavelmente vão irromper sem reservas pelo mandato do próximo presidente, seja McCain, Obama ou Clinton.
Em dados oficiais, 90 mil civis iraquianos foram vitimados e 4 mil soldados americanos também. Em termos analíticos, a guerra do Iraque é apenas uma extensão à oeste do plano anti-terrorismo do governo da Casa Branca, ou em suas próprias palavras, a desestruturação do eixo do mal. O Iraque não seria o último, e o Irã pareceu por diversas vezes estar na fila de ação norte-americana. O que pode ter salvado Ahmadinejad além da ousadia de uma intervenção também em solo iraniano, certamente é a ainda funcional democracia americana. Bush filho não teria apoio, tempo, nem dinheiro para fazê-lo antes do fim de seu mandato. Mas o que dizer de seus possíveis sucessores? Obama atacou um pastor e discursou favorável à união de gays. Clinton e McCain são bolhas de mistérios suspensas em suas próprias considerações.
Essa guerra contra o terror já teve suas melhores fases. Um Rambo televisionado e real, com impresionantes brinquedinhos de matar em ação. Um show espetacular de como se construir, e o principal, impor unilateralmente uma democracia. Vimos embates no Conselho de Segurança da ONU, vimos mísseis acertarem o alvo como num jogo de PlayStation. Vimos o príncipe da Inglaterra mostrar valor e servir à Rainha, sua avó, por sinal, como um cavaleiro medieval cheio de boas intenções. Quase um príncipe encantado. Faltou-lhe o cavalo branco, a espada na cintura, e um dragão à tira-colo. Seria por sinal, acaso tivesse isso tudo, ótimo partido para Mia Termópolis, e seria protagonista de O Diário de uma Princesa III. Mas os sábios conhecedores de RI não veriam este filme, claro.
Mas em matéria de Oscar, o que dizer da pena de Saddam Hussein. Não chegou nem à beira de Coração Valente, de Mel Gibson e sua atuação como William Wallace, mas deu para o gasto. O próprio Saddam, que Deus o tenha, ou o diabo, não tinha muito em comum com Wallace. O importante é que, nessa guerra contra o terror, ou contra o mal, nem sempre há vencedores, nem sempre há mocinhos, e quase sempre há lados e perspectivas para contar. Pensando assim, me lembro de uma aula na faculdade e da inquietação de uma sagaz e observadora colega. E o que é o Mal? Um bicho que vive nas profundezas do Castelo Rátimbum? George W. Bush deve ter se perguntado disso algumas vezes. Os afegãos e iraquianos, muitas.
Diferente de guerras como a II Guerra Mundial, dessa vez, o "mal" tem quem conte sua versão dos fatos: os próprios americanos. Claro, a parte não alienada que ainda se utiliza de seu cérebro para fazer seus próprios julgamentos. Talvez, nesse caso, ou esses americanos sofram da Síndrome de Estocolmo, ou o mal não seja tão mal assim.
Na era da guerra televisionada, os números ganham unidade e as estatísticas ganham em emoção. Os 94 mil mortos aproximados do conflito no Iraque, sem contar os envolvidos no Afeganistão, pareceram bem mais nas nossas telas de LCD ao redor do mundo. Bem mais do que foram os milhões de mortos em outros tempos.
Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O G-8 e a política do espetáculo

Leonardo Queiroz Leite
O último encontro do G8 na Alemanha e toda a repercussão das polêmicas posições dos EUA acerca das questões de aquecimento global fizeram com que essa organização internacional do mais alto nível se tornasse ainda mais conhecida. Seleto grupo composto pelos principais países mandatários das maiores economias capitalistas da atualidade, o G8 é um fórum permanente de discussões de alcance global que concebe os interesses de um poderoso e restrito grupo: os sete países mais industrializados do mundo (EUA, Alemanha, França, Itália, Canadá, Japão e Reino Unido) e a Rússia. Esse último país foi convidado a integrar ao G7 no começo da década de 1990, em um momento histórico após o fim da Guerra Fria, por seu peso geopolítico e por razões estratégico-militares.
Embora considerado uma organização internacional, o G8 não está estruturado com base em um secretariado nem em uma sede fixa com um corpo burocrático permanente, como estão as organizações internacionais de moldes formais como a ONU e a OMC, sendo classificado, assim, como um caso sui generis de organismo internacional. Assim, mesmo com uma agenda cada vez mais ampla e complexa, o G8 conseguiu manter um caráter informal e evitar uma ampla burocratização das suas atividades.
Inicialmente focado nos debates em torno de questões econômicas internacionais, atualmente o G8 vem atribuindo progressiva importância aos temas relacionados ao desenvolvimento e às preocupações com o aquecimento global. Esse novo enfoque mais "democrático" e menos elitista é evidenciado pelo convite para participação na Cúpula de 2007 estendido às economias emergentes como Brasil, China, Índia, México e África do Sul e a alguns países da África, como Nigéria, Egito, Argélia, Senegal e Gana. O convite a esses países tem pôr objetivo estreitar as relações do G8 com o mundo em desenvolvimento, incluindo as vozes do Sul nas discussões das mais relevantes questões políticas e econômicas de abrangência internacional e intensificando a ajuda internacional ao desenvolvimento da África. Além disso, o G8 ganha uma dimensão mais universal com a participação dos países em desenvolvimento, na tentativa de agregar mais legitimidade às suas decisões marcadamente elitistas.
Entretanto, o G8 ainda é um espaço de natureza fundamentalmente política, já que são os próprios chefes de Estado e de Governo dos países mais influentes do mundo que vão às cúpulas para tomar parte nas reuniões como negociadores. A influência político-diplomática, o esmagador peso militar-tecnológico e a hegemonia econômico-financeira dos países que compõem o G8 são incontrastáveis. Desse modo, a imperiosa vontade desses países que compõem o núcleo duro do poder mundial se faz presente nas decisões finais das Cúpulas, caracterizadas por pura retórica e por um enorme receio de comprometimento com metas e objetivos mais altruístas que por ventura venham a arranhar as suas tão pujantes economias.
Enfim, as badaladas reuniões de Cúpula do G8 "glamourizam" o poder através da política do espetáculo difundida pela imprensa internacional, atingindo grande parcela da opinião pública mundial. A influência das decisões políticas mais relevantes do G8 é irresistível e de certo modo coercitiva, fato que confere a esse restrito clube de nações o cobiçado poder de alterar decisivamente a arquitetura das relações internacionais contemporâneas.
Leonardo Queiroz Leite, convidado, é graduado em Relações Internacionais pela UNESP-Franca e membro da ADESG desde 2005. Atualmente, dedica-se aos estudos para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática.

terça-feira, 18 de março de 2008

Futebol como rato de laboratório

Hélio Afonso Filho
Com o passar dos anos, pudemos ver evolução e desenvolvimento dos esportes como um todo. Na verdade, a vida esportiva mundial tem nos mostrado que não podemos tratá-los como simples atividades em grupos ou individualmente. Eles se tornaram parte importante dos fenômenos que mexem com as nações ao redor do mundo e se analisarmos bem esse tema, veremos que os acontecimentos esportivos são retratos em miniatura da vida destas sociedades, uma interação que a cada dia mais se torna importante tanto para sociólogos quanto para administradores ou políticos.
Fenômenos de massa como os esportes produzem, antecipadamente, efeitos que sentiremos em nosso cotidiano político, econômico, social e por que não, também dentro das Relações Internacionais. Dentro dessas ramificações, transformações interessantes acontecem o tempo todo e estão intimamente ligadas entre si, formando uma rede densa de informações e ações que, dentro desta nova era tecnológica, migram em uma velocidade incrível, transpassando limites físicos e geográficos.
Uma das molas propulsoras destes fenômenos, com certeza é o futebol. Dentro dele podemos ver todos esses processos atuando ao mesmo tempo, desde a administração até os pontos mais obscuros da política internacional. Em termos econômicos, não podemos mais ignorar o orçamento do maior esporte do mundo: são mais de US$ 200 bilhões. O que faz com que a FIFA, em um mundo onde o mercado financeiro fala mais alto, seja reconhecida como um organismo importante dentro do esquema global, atuando conjuntamente com a ONU em vários trabalhos humanitários e servindo até de modelo organizacional. Sem falar nas empresas que tem uma relação comensalista-parasitismo para com esse esporte e se aproveitam das outras áreas ao redor, como é o caso da Adidas, Nike e outras que só cresceram acompanhando e participando da evolução do futebol e dos outros esportes.
O que mais impressiona, além dos balanços financeiros, é a capacidade do futebol em antecipar tendências e indicar problemas que podem gerar atritos entre os vários atores dentro do cenário internacional. Por exemplo, o problema de imigração já está sendo sentida dentro do futebol desde a Lei Bosman, que abriu as portas para a “invasão” estrangeira no futebol europeu. Como resultados, podemos encontrar entre outros fatores, o enfraquecimento das seleções nacionais, já que é mais barato procurar talentos pelo mundo inteiro, principalmente na América do Sul e África. Formar um jogador nacional tornou-se menos economicamente viável pelos custos de vida nestes países e também por que encontram jogadores bem mais formados, habilidosos e o melhor de tudo, bem mais baratos, espalhados aos montes pelas periferias do mundo; Também é possível perceber dentro do futebol, em decorrência dessa importação/exportação da mão-de-obra, uma nova divisão do trabalho, orquestrada ainda pelas perenes leis do capitalismo. E assim os times de futebol, desde meados da década de 90, transformaram-se em Torres de Babel, com pessoas de várias nacionalidades, credos e religiões, mas custando bem menos que um mesmo jogador nacional, mostrando ao mundo a nova tendência trabalhista. Assim como no futebol, no cotidiano dos países, os imigrantes estão ocupando cada vez mais os postos de trabalho, tudo em nome do menor custo, sem pensar nas conseqüências desta política.
O que acontece em decorrência da novíssima ordem econômica mundial é o aumento nos casos de violência, em todas as suas formas, cada qual mais insana e covarde. Os reflexos que víamos pela televisão, alguns casos esporádicos de insultos racistas e xenófobos direcionados para jogadores negros ou estrangeiros, perderam sua característica de fenômeno de curta duração e assumiram uma face que leva medo e perseguição para as ruas de países como França e Espanha, onde políticas internas enfraquecidas pelo crescimento da União Européia e a conseqüente falta de sanções rígidas para quem pratica esses atos intempéries, faz com que tanto os espetáculos esportivos quanto o cotidiano das pessoas sejam alterados pelo temor de retaliações radicais de alguns grupos que não aceitam o “outro”, o ser “diferente”.
Portanto, quando ouvimos falar que a FIFA é mais importante que a ONU, vale ao menos um momento de reflexão. Apesar de ser um esporte de massa, este fenômeno é uma importante ferramenta para análise e ainda assim pode ser considerada uma experiência em pequena escala, definitivamente muito mais fácil de encontrar resultados eficazes para essas necessidades e problemas da sociedade internacional. Assistir hoje a uma partida de futebol é mais que uma agradável opção de lazer, na verdade, é ver as diversas interações e relações econômicas, políticas e sociais ao vivo, a cores e em constante movimento.
Hélio Afonso Filho, da equipe do Mundo em Questão, graduado em Relações Internacionais pela UCG, pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV. Atualmente trabalha na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, onde desenvolve trabalhos de Marketing e Relações com Investidores. Também se dedica aos estudos sobre processos de Integralização no caso Europeu e Latino Americano e desenvolve também trabalhos na área Futebol-Relações Internacionais.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Independência kosovar: um direito, uma precipitação ou um indigesto precedente?

Muriel Brenna Völz
Há mais ou menos um mês atrás, a sociedade internacional assistiu o nascimento, ou sendo mais realista, a auto-proclamação da existência de um novo Estado. Soberano? Ainda é cedo pra afirmar isso!
A independência de Kôsovo gerou grande polêmica no sistema internacional. Além de ser uma região extremamente conturbada e instável, dada a presença de diversas etnias e a constante disputa territorial e de poder; existem apoios de peso tanto para os albaneses quanto para os sérvios.
Como era de esperar, a Sérvia esbravejou o quanto pode ao constatar, de fato, a perda do controle político da situação. Como aliado, conta com a Rússia, que além de antiga amiga dos eslavos, teme que esta situação abra precedentes para que os chechenos tomem o mesmo rumo, o que, por sinal, a faria perder muitos barris de petróleo!!!
A este lado da balança soma-se ainda o apoio da China, preocupada com as tendências separatistas de Taiwan; da Indonésia, Sri Lanka e alguns desgarrados da União Européia, sendo eles: Espanha, Grécia, Chipre, Romênia e Eslováquia.
Em contrapartida, declararam expressamente seu apoio a Kôsovo grande parte da UE destacando-se França, Reino Unido, Itália e Alemanha, e ainda os Estados Unidos.
Com o “fim” da guerra de Kôsovo, desde 1999 a região esta sob a administração da ONU. O curioso desta situação é que apesar deste cisma europeu, será a Europa quem irá substituir a ONU nesta função de controle da região. Além da considerável ajuda financeira, ela enviará uma missão policial, administrativa e judicial, composta por 2000 pessoas, para ajudar na organização do novo país. Soma-se a isso, o explícito desejo Sérvio de integrar a União Européia!
Em se tratando de política externa brasileira, o chanceler Celso Amorim declarou que a independência de Kôsovo só será reconhecida pelo Brasil se o Conselho de Segurança também a aprovar. Sendo assim, podemos ainda esperar muito tempo pra que isto aconteça, visto que tanto a Rússia quanto a China não vão ceder tão fácil assim nas suas deliberações no CS.
Em aspectos formais, houve sim o exercício do princípio da autodeterminação dos povos e a conseqüente proclamação unilateral da independência de uma região composta majoritariamente (90%) por albaneses. Mas, na prática, será que toda essa solenidade muda concretamente o status quo?
É importante relembrar que Kosovo é uma região economicamente pobre, cheia de desempregados, com carência de energia elétrica e água, com a rede ferroviária destruída pela guerra, extremamente dependente das importações e sem condições de se auto-gerir, de se auto-administrar. Não é por menos que os soldados da OTAN permanecerão no país e a UE enviará policiais, juristas e administradores a região.
Além disso, é conveniente ressaltar que em termos jurídicos, um Estado é considerado internamente soberano pelo monopólio legítimo da força; e externamente, pelo reconhecimento dos outros Estados soberanos.
No caso em questão, parece precipitado e incoerente afirmar que há qualquer tipo de soberania de fato. Em termos práticos, Kôsovo não tem exército, polícia e sistema judiciário próprio; sua moeda é o Euro; seu sistema de postagem é controlado pela ONU; seu sistema de telefonia internacional é feito com DDI sérvio e esloveno; o seu reconhecimento por parte de outros países, em termos númericos, ainda é pequeno; seu corpo diplomático ainda não foi instaurado; não faz parte de nenhum organismo ou organização internacional, etc.
Alguns poderiam criticar afirmando que ainda é cedo pra exigir tantas providências de uma região que acabou de se proclamar independente! Sem menosprezar os conflitos étnicos lá existentes, o direito de autodeterminação dos povos, e todo o sofrimento causado aos albaneses pelo gentil Slobodan Milosevic, há que se ter em mente que teoria e prática são dimensões bem diferentes. Sim, formalmente a independência foi feita, mas e na prática? Por quanto tempo os kosovares vão brincar de ser um novo país? Até quando a União Européia vai manter sua missão e sua ajuda financeira?
Longe de criticar a vontade de ser independente do domínio sérvio, talvez fosse mais apropriado que antes de se auto proclamar um novo Estado, Kôsovo primeiro se ajustasse material, física e logisticamente as condições que são necessárias para que se seja de fato soberano.
Muriel Brenna Volz, convidada, é graduada em Relações Internacionais pela UNESP-Franca. Atualmente é aluna do 4 ano de Direito na Faculdade Municipal de Franca e Mestranda em História pela Unesp-Franca, com pesquisa sobre o processo de criação do Tribunal Penal Internacional e sua consolidação no pós Guerra Fria.

sábado, 15 de março de 2008

Um dragão adormecido

Odair J. de Araújo Junior
Pode um dragão se transformar numa simples lagartixa? Não. Ou ao menos é isso que a gigante China pode estar provando ao mundo com sua atuação no Tibet.
Está longe de nosso interesse pessoal promover a causa tibetana ou escrever artigos independentistas. Porém, é fato que o Tibet foi anexado à China na década de 1950, o que pode mudar em muito qualquer interpretação que façamos sobre a questão. Quando o Tibet fala em ser livre, fala em recuperar um pouco uma condição a qual já teve no passado.
Tão logo a repulsa ao governo central de Pequin aumentou nos últimos dias, tão logo o governo de Hun Jintao reagiu duramente, se utilizando da polícia anti-motim e da supressão do movimento pela via armada. A China argumenta que tem provas que indicam a participação do círculo de pessoas próximas do Dalai Lama, exilado atualmente na Índia, na premeditação e execução dos protestos recentes, os piores nas últimas duas décadas, que foram desencadeados agora que as atenções se tornam para a China devido às olimpíadas com o claro intuito de mostrar ao mundo desordem e instabilidade no país. Bom, essa é a argumentação do governo central, que também acha que todas as pessoas justas do mundo tendem a concordar consigo.
É, me considero justo e não interpreto a questão bem assim. O Tibet foi anexado há quase cinqüenta anos, e desde sempre mostrou descontentamento com a orientação política chinesa para a região, agravada desde 1989 quando foi declarada lei marcial para o Tibet pelo governo comunista central. A China, como seu vizinho russo, massacra e suprime qualquer tentativa de oposição tibetana em seu território. Mas o Tibet, diferente da Chechênia, se utiliza de expedientes bem menos coerentes com a proporção da reação. Bem, basta percebermos que a China tem uma polícia anti-motim. Motim na designação correta do termo é subversão da ordem e da hierarquia, normalmente decorrente em ambientes de estrita hierarquia e ordem, como as forças armadas, a polícia, ou a tripulação de um navio. Parece injustificável considerar uma manifestação política como motim. Daí incorre dois pontos chaves: ou traduzimos mal do chinês, ou o governo de Hun Jintao considera sua população como soldados aquartelados e sob estritas ordem e códigos hierárquicos disciplinares. Isso de modo algum combina com a imagem progressista que Pequin quer mostrar ao mundo.
Tentar parecer uma inofensiva lagartixa voltada para a economia, o progresso, e a nova era é fácil no papel, mas a China tem provado que no fundo é o mesmo dragão de sempre. O Tibet não é o único problema territorial Chinês. Taiwan é um outro bom exemplo. A China continua por chamá-lo de Formosa, e a considerar território litigante e rebelde. O mundo reconhece o direito de Taiwan em coordenar a si próprio e existir, menos o pouco democrático governo de Pequin. O mesmo ocorre com o Tibet. E agora, a China quer transformar o Dalai Lama num conspirador internacional perigoso e maquiavélico, que deve ser banido pela comunidade internacional e evitado pelas criancinhas. Logo o Dalai Lama, que ao mundo inteiro se apresenta como um líder espiritual elevado, com mensagens de paz e compreensão. Seu pedido recente sobre a questão foi que a China pare com as ações armadas e inicie um diálogo, idéia bem plausível aliás no plano cooperativo das Relações Internacionais contemporâneas nas quais a China tanto quer ser líder. Hun Jintao agora nos tentará convencer que o Budismo na verdade não é uma filosofia que tenta promover a paz de espírito e a evolução pessoal através do auto-controle, do respeito, do diálogo e da compreensão, e sim uma diabólica ceita do mal que articula globalmente a dominação total além da destruição da democrática e bem consolidada sociedade chinesa, promovendo a desigualdade social, o estritamento cultural e a anarquia política. E acreditem, encontrará platéia.
Talvez seu colega anacrônico Chávez lhe dê ouvidos. Talvez o líder das FARC. Assim como os radicais palestinos, os terroristas do antigo bloco soviético, o catatau cubano e o presidente Bush. Todos cavalheiros medievais numa era futurista.
Richard Gere sugeriu que se a situação permanecer assim, e as autoridades chinesas não conseguirem melhorar a forma como lidam com a questão, as olimpíadas deveriam ser boicotadas. Sou contra o esporte pagar por isso, mas termino concordando com a posição do ator americano, budista há 25 anos. E ainda que nem goste tanto de olimpíadas assim, devo ficar alegre, pois parece-me impossível que algo assim aconteça. A comunidade internacional fecha os olhos para os absurdos de nossa era. Polícia anti-motim, homens-bombas, uma quase guerra na América só porque o Chávez se ofendeu com a morte do amiguinho revolucionário.
Há três curiosidades peculiares nesse assunto. Primeira: fontes não identificadas da população local afirmam que dois cidadãos que protestavam foram assassinados pela polícia. A Reuters é uma das agências que noticiam isso. Segundo: Hun Jintao, atual premiê chinês, foi líder do Partido Comunista do Tibet, justamente na época da promulgação da lei marcial. Talvez isso explique um pouco a baixa empolgação tibetana com o atual chefe supremo da nação mais populosa do planeta. Terceiro: a China ficou desgostosa com o prêmio oferecido pelos EUA ao Dalai Lama, homem certamente merecedor de qualquer prêmio de assunto relevante que lhe seja ofertado, e ameaçou que situações como essas podem abalar a relação entre as duas nações. É, a China certamente está "preparada" para ser grande no cenário internacional.
Por fim, a cantora islandesa Bjork, de trabalho duvidoso, mas atuante, em show recente em Xangai, gritou ao microfone após um barulho que denomina de música entitulado "Declare independence": "Tibet! Tibet!". A China está revoltada com isso, ou melhor, o governo democrático de Jintao. Tanto que promete que a partir de agora, irá fiscalizar os artistas estrangeiros que forem se apresentar em seu país, numa atitude extremamente democrática. Milionário e José Rico, dupla sertaneja antiga e hoje quase desconhecida entre as elites brasileiras, são celebridades na China devido a uma música que tinham numa novela da década de 70 da Globo que foi transmitida recentemente na China. Será que eles merecem uma atenção especial? Imagino os dois, protestando desde já contra a violência no Tibet.
Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Sorte Grande

Muriel Brenna Völz
Há pelo menos duas semanas temos acompanhado a ascensão constante do preço do barril de petróleo, que nessa quinta atingiu os 110,33 dólares! Mera coincidência ou estamos relembrando momentos da década de 70??
Não obstante as conseqüências econômicas mundiais que este fenômeno pode gerar, impõe-se também refletir como isso afeta as relações internacionais.
Num primeiro momento, para o Brasil está crise não traz grandes preocupações econômicas, visto que praticamente somos auto-suficientes na produção de petróleo e ainda estamos em processo de expansão da utilização do gás natural.
Aliás, poderíamos dizer que esta crise internacional do preço deste ouro negro muito nos favorece, visto que já algum tempo os grandes importadores de petróleo têm buscado fontes alternativas de energia. Soma-se a isso o movimento global de proteção ambiental e busca de fontes limpas de energia, e o Brasil surge em destaque no cenário internacional, ao apresentar o etanol e os bio-combustíveis. Está ai uma grande possibilidade de exportarmos nossa tecnologia, incluindo também os carros bi-combustíveis.
Com relação ao seleto grupo de países exportadores de petróleo, eles agradecem pela sorte de acordarem todos os dias sentados em cima desta mina. Não só suas arrecadações aumentam, mas também sua esfera de poder e influência no cenário internacional.
Este ponto é preocupante, por exemplo, com relação ao nosso companheiro Chavez, que a cada dia pensa que pode mais e cria novas formas de se fazer aparecer na mídia internacional.
Com arrecadações cada vez maiores, ele vislumbra também alçar vôos ainda mais altos. Vende petróleo a preço mais baixo para certos amiguinhos, doa montantes consideráveis para escola de samba brasileira, em troca da homenagem ao mitológico Simon Bolívar; compra títulos da dívida externa argentina, diz que intensifica os programas sociais em seu país, nega que tenha patrocinado as FARC!
Até aí tudo bem, mas lembre-se que esse dinheiro também foi/é usado na compra de armamentos, aviões, helicópteros, navios militares. Uma inocente modernização do arsenal bélico venezuelano e uma atitude muito coerente pra quem acusa os EUA de incitarem uma nova corrida armamentista!!! A Guiana e a Colômbia que se cuidem!!
O curioso e intrigante desta história toda é que apesar de criticar constantemente o capitalismo, a massa de excluídos e exploração dos trabalhadores, Chavéz não se aborrece com a real constatação da lei da oferta e da procura, com a especulação em torno do preço do petróleo. Pelo contrário, ele deve é morrer de rir com as exportações venezuelanas e com as vendas aos EUA!! É isso mesmo!!
Se ele se mostra tão impaciente e insatisfeito com a hegemonia e o autoritarismo americano, porque não começa a não mais vender petróleo pro amigo Bush? Se ele se mostra tão adepto assim do socialismo, comunismo, bolivarianismo, porque não coletiviza suas reservas de petróleo??? Tenho certeza que muitos países pobres, dependente de petróleo, poderiam utilizar o dinheiro gasto nestas importações com programas sociais, educacionais, de melhorias na saúde!
Aí já é pedir demais pro nosso militar, que com certeza deve se esbaldar com seus petrodólares, com a pose de bom moço que faz ao ajudar seus amigos, com o poder de barganha que adquire com tantos barris de petróleo em seu poder, e ainda na influência geopolítica e geoeconômica que exerce!
Para os próximos capítulos, teremos grandes chances do preço continuar a subir, já que além das reservas americanas de petróleo terem diminuído e do dólar ter de desvalorizado, a OPEP já avisou que não pretende aumentar sua produção diária. Enquanto isso, as economias querem mais é produzir, e vender, é claro!!!!
Muriel Brenna Volz, convidada, é graduada em Relações Internacionais pela UNESP-Franca. Atualmente é aluna do 4 ano de Direito na Faculdade Municipal de Franca e Mestranda em História pela Unesp-Franca, com pesquisa sobre o processo de criação do Tribunal Penal Internacional e sua consolidação no pós Guerra Fria.

quinta-feira, 13 de março de 2008

O Mundo em Questão

Esse texto já foi publicado no dia 28/02.
André Luiz Oliveira Guimarães Pitaluga
Brasil, Fevereiro de 2008, com certo deslumbre a sociedade internacional observa transformações significativas em uma “ordem” já consolidada a algumas décadas no panorama da política. Cuba sem seu General, a tradicional e branca sociedade estadunidense na eminência de eleger, para seu máximo posto político, uma mulher ou um negro e a América Latina observando tais rearranjos de maneira a tentar compreender a ruptura ou a continuidade que tais transformações podem acarretar par a sua realidade.È nesse panorama que se dá o nascimento do blog Mundo em Questão, este que tem como objetivo principal trazer interpretações desse mundo e dos fenômenos de abrangência internacional, e que de certa forma possui impacto no cotidiano de nossos leitores. Neste texto de abertura, procuro, ao invés de tocar em específico à algum tema da agenda intencional, explicitar as idéias que nos acompanharam no desenrolar das nossas explanações, nossas idéias do que de fato constitui as Relações Internacionais.Estudar as Relações Internacionais ao longo da história da produção do conhecimento, tradicionalmente possui como eixo principal a análise das temáticas recorrentes às ações dos Estados e as implicações que os fenômenos das mesmas causam na realidade interna ou externa dos envolvidos na quentão pensada. Assuntos ligados a Política, Economia e Segurança sempre estiveram em maior evidencia nos estudos de Relações Internacionais, garantiu às Relações Internacionais o status formal que o tradicional meio científico, calcado no conceito moderno de ciência, sempre exigiram.Respeitar e considerar todos os aspectos formais que os séculos de teoria do conhecimento construíram é logicamente uma preocupação dos estudiosos do Mundo em Questão, porém pesaremos nós em temas que extrapolam as esferas tradicionalmente abordadas quando se pensa em Relações Internacionais enquanto ciência. Desde que pensamos a História por um ponto de vista global, observamos que uma gama enorme de temáticas de abrangência internacional obteve importância significativa para o debate cientifico.Cada vez mais vemos temas recorrentes à cultura, tanto erudita quanto cotidiana, sutilmente impregnando de forma profunda na realidade internacional. E a partir destes elementos que temas paralelos aparecem, e se apresentam tão próximos à vida comum de nossos leitores. As Relações Intencionais são bem mais próximas à sociedade do que se pode se explicitar as questões tradicionais do panorama Internacional.Esporte, música e até mesmo aqueles programas que desde muito cedo acostumamos assistir na televisão são de extrema relevância para compreendermos aspectos da realidade internacional, alguns tão próximos de nós. Atualmente existe algo mais internacional do que o Rock and Rool? E o bom e velho futebol? Cada vez mais é de uma importância internacional considerável, basta saber que a FIFA possui mais membros afiliados do que a própria ONU. Isto sem contar na abrangência internacional da mídia, que impulsionada pela modernidade possuiu um alcance o qual a alguns anos fora completamente inimaginável. Nesta semana mesmo observamos uma apresentação conjunta das orquestras filarmônicas da Coréia do Norte e de Nova York. A arte aproximando partes que anos de diplomacia tradicional afastou.Justamente por procurar considerar temáticas paralelas para o estudo das Relações Internacionais não nos prenderemos teoricamente a esse ou aquele paradigma em específico. Ao observar a enormidade de teorias e paradigmas que se debatem nas Relações Internacionais se nota que além da pretensão se explicar, analisar ou compreender o real existe uma ferrenha rede de relações de poder, o que resulta e uma forte produção de discursos que acaba por se deslocar da “cientificidade” que se pretende para tal disciplina. Teoria, portanto será tratada como instrumento de compreensão e não como “camisa de força” pelos estudiosos do Mundo em Questão.Desta forma se inicia a proposta de se pensar as Relações Internacionais como de maneira mais livre criativa, procurando abordar temas que estejam próximos da vida de todos sem se amarrar nas estruturas de modelos teóricos que mais se parecem manuais do que realmente produções pensadas e fato.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Mundo em Questão - uma proposta ousada. RI com qualidade

Editorial Mundo em Questão
O editorial Mundo em Questão se utiliza desse espaço de postagens para aumentar sua proximidade com você, caro leitor.
Uma iniciativa ousada, este blog aspira alcançar números cada vez maiores de leitores apostando sempre numa abordagem prática, capaz e direta, sobre os assuntos mais relevantes no contexto internacional. Nesse sentido, temos trabalhado arduamente para que você, leitor, tenha sempre acesso ao mais atual e melhor conteúdo o possível.
Ao lado direito, você sempre encontrará uma enquete que tenta ouvir sua opinião sobre os assuntos gerais das Relações Internacionais que acreditamos mais chamar sua atenção. Sua participação nesse espaço é importantíssima para nós. É sua oportunidade de ser ouvido.
Falar e escutar é a meta permanente de nossa equipe. Para tal, o espaço para comentários, presente ao final de cada artigo, estará sempre aberto para qualquer um que queira colocar sua posição sobre o tema discutido e os argumentos utilizados. Se você quiser ainda tirar dúvidas, enviar artigos, fazer queixas, solicitar material, ou apenas dispor suas opiniões de forma mais pessoal e privativa, temos à sua disposição um e-mail: mundoemquestao@gmail.com. Os e-mails serão encaminhados para nossos autores, e respondidos por esse editorial.
Após o índice de artigos arquivados, o leitor poderá encontrar uma relação atualizada das próximas postagens. Assim, ao gostar especificamente de um autor, você pode, leitor, descobrir quando ele escreverá novamente e acompanhar seu trabalho.
No site de relacionamentos mais utilizado, o Orkut, o Mundo em Questão também possui uma comunidade, na qual fóruns, reportagens e outras comunidades relevantes estão postos. Mais um espaço para você, leitor, aproveitar e entender o universo das Relações Internacionais.
Nessas semanas que se passaram desde a fundação desse blog, tivemos bons artigos sobre a crise entre Colômbia e Equador, escritos por autores de formações e áreas de estudos distintas. Tivemos também abordados, seja nas enquetes ou nos artigos, as prévias eleitorais partidárias norte-americanas, a eleição de Dmitri Medvedev na Rússia, além da China, da Coréia e do Brasil, esmiuçados em suas economias e políticas. E até a FIFA, órgão máximo do futebol, esteve presente nas postagens.
Como todo começo enfrentamos ainda as pedras da estrada, num árduo sacrifício diário. Agradecemos imensamente a você, leitor, que entra aqui e nos lê diariamente, e que com paciência, percebe as nossas melhoras semana a semana. Esse blog é feito para você. Sua visita é o que nos enche de ânimo para continuarmos nesse empreitada.
Nas próximas semanas manteremos nossa política: melhores artigos, atuais, simples e diretos; e melhorias constantes em nosso layout.
Visite-nos sempre. Visite nossa comunidade no Orkut. Tudo isso é para você.
Obrigado.

terça-feira, 11 de março de 2008

São Gigantes ou Moinhos de Vento?!

Hélio Afonso Filho
Estivemos por muito discutindo sobre um tema importante da novíssima agenda internacional de nosso país: o conflito gerado pela invasão colombiana no território equatoriano deu o que falar e promete ainda alguns capítulos, talvez com adesão de outros atores no meio deste cenário surreal e inenarrável. Esgotamos nossos estoques de retóricas e questionamento acerca desse tema, o que na gestão de negócios seria um feito admirável, já que abriria espaço para novos e diferentes produtos. Nas Relações Internacionais esse pensamento não é diferente, a gama de acontecimentos e fenômenos a nossa disposição para analisar é enorme e as correntes de pensamento também são diversas, bem como as divergências e discussões geradas por esses grandes debates.
A fim de iniciar um novo debate é que irei abordar uma questão que passou despercebida do grande público nas últimas semanas. Uma outra crise que agride diretamente os direitos humanos e internacional; o Tratado de Roma; fere a constituição da União Européia além de abrir espaços para precedentes mais perigosos, que beiram a insanidade e a intolerância dentro dos países, gerando desgaste na boa relação entre Espanha e Brasil.
A crise diplomática veio à tona em meados do mês passado quando uma estudante brasileira não conseguiu, mesmo com seu visto e toda papelada necessária, entrar no país europeu para exercer um direito adquirido e garantido pelo poder espanhol dentro do território brasileiro. A partir deste fato foram descobrindo, sistematicamente, casos semelhantes e que culminaram com as extradições de centenas de cidadãos brasileiros e acusações de maus-tratos do setor responsável pela imigração daquele país. Esses casos vão gerando indagações que não foram explicadas e talvez só pudessem ser entendidas com uma análise profunda na história das relações interna e externa desses países em litígio diplomático.
A política interna espanhola é historicamente conturbada por graves problemas de ordem geopolítica e nacionalista. O governo central carece de legitimidade, pois seu território é completamente dividido em mini-nações que operam com uma fina e tensa relação com Madri. E foi justamente nesta corda bamba que os brasileiros se dispuseram a andar. Apesar da solidificação da economia nesses últimos anos e de experimentar crescimento a cima da média regional, os problemas sociais ainda assombram a todos e a bola da vez agora é o desemprego. Nesses últimos meses de Governo Zapatero, mais de 8% da população economicamente ativa estava fora do mercado de trabalho. Com isso ressurgiu o fantasma de um nacionalismo extremado e xenófobo. Os imigrantes ficaram com o gume mais afiado desta faca de duas faces e estão sentindo na pele o resultado de anos dessa intolerância velada. E como resposta ao “grande” problema da opinião pública espanhola, o recém-reeleito, Zapatero acha que barrando os imigrantes brasileiros em um ato totalmente hostil e inapropriado, conseguirá contornar a situação, a qual, quase lhe custou o posto de Primeiro-Ministro.
Mas a culpa não reside somente na terra de Cervantes, temos sim nossa parcela de culpa. Parece que o brasileiro herdou aos espanhóis a busca do El Dourado perdido, e muitos de nós acabou por encontrá-lo onde Colombo, Hernán Cortez, dentre outros, esqueceram quando partiram. É claro que, os “Gigantes” como a Telefônica e o banco Santander, além da forte economia européia, fantasiaram em nossas mentes “moinhos de vento” e ficamos a flutuar entre a inocência e a ignorância, assim como Quixote, sem saber o que fazer quando algo assim acontece. E muito me estranha a resposta do Itamaraty de pagar na mesma moeda, utilizando o princípio da reciprocidade. Soa-me como uma briga de criança, completamente estúpida e irracional. Em qualquer um dos casos, fica evidente a necessidade de democratizar os estudos de Relações Internacionais e melhorar, de forma geral, a educação no país, para que não precisemos mais passar por esses constrangimentos diplomáticos e aprendamos, de uma vez por todas, que o mundo é mais que carnaval e futebol.

Hélio Afonso Filho, da equipe do Mundo em Questão, graduado em Relações Internacionais pela UCG, pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV. Atualmente trabalha na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, onde desenvolve trabalhos de Marketing e Relações com Investidores. Também se dedica aos estudos sobre processos de Integralização no caso Europeu e Latino Americano e desenvolve também trabalhos na área Futebol-Relações Internacionais.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Desmaio? Não, senhor, catalepsia.

Odair J. de Araújo Junior
Quando o Japão, no auge de seu crescimento nos anos 70 e 80, antes da cruel estagnação que viria depois e diminuiria sensivelmente a importância do país em detrimento a outros, começou a implantar suas indústrias mais pesadas e poluidoras nos países vizinhos, possuidores de mão-de-obra barata e pouca legislação, tanto ambiental quanto trabalhista, iniciou um fenômeno conhecido como Tigres Asiáticos e deu a oportunidade de alguns países visualizarem um futuro distinto do que previam até então.
A Coréia do Sul soube aproveitar bem essa oportunidade. Percebendo que nem todo o crescimento, na casa dos 7 a 10% seriam eternos, investiu em tecnologia, educação e aperfeiçoamento, conduziu e preparou o país para uma nova era, transformando o crescimento repentino e descontrolado em usufrutos permanentes para a sociedade e sua população. Estava criado um gigante.
A China que hoje apresenta crescimento superior a 10%, superando o anterior ocupante desse cargo de nação produtora mundial, foi exatamente fruto do mesmo raciocínio econômico. Nada é mais cíclico que a economia, seja a economia de inflação e recessão de Keynes ou os ciclos criativos do austríaco Schumpeter. A China, com uma mão-de-obra abundante e barata, com pouca legislação ambiental e trabalhista, passou a receber investimentos externos sempre em forma de uma industrialização pesada e desqualificada. Seu crescimento maior até que sua antecessora Coréia do Sul se deve em muito ao fato que mais que um escoadouro japonês, a China se tornou em um escoadouro produtivo do mundo. A China foi esse fenômeno.
Digo foi porque as tendências mostram que isso é passado. A China se ocidentaliza. Sua economia se torna mais liberal e para atrair mais investimentos e participações destrói parte do sistema que a consagrou, aumentado o rigor legislativo, onerando a mão-de-obra, melhorando a qualidade de vida do trabalhador. Não que um trabalhador chinês possa ser comparado a um alemão, ou que as capacidades produtivas da China estejam esgotadas. Mas outros países se adequam melhor ao requisitado pela economia internacional. Ironicamente, as indústrias que pedem que a China se adapte ao mundo, são as mesmas que direcionam seu parque produtivo para países, digamos, menos adaptados.
A concorrência agora é do Vietnã, por mais que isso cause espanto na geração da Guerra do Vietnã. Não foram os Napalm ou fuzileiros, mas o crescente da economia internacional e o clamor por uma região produtiva que compensasse mais que a China o que pode estar transformando o Vietnã comunista num possível capitalista importante. Não que haja paralelos diretos com a China, tanto territoriais quanto populacionais. Mas há paralelos produtivos. A Adidas, montadora esportiva, já tem boa parte de sua produção no Vietnã.
Porém, a China não parece dar mostras de que vai abandonar seu posto de economia emergente facilmente, e a exemplo de sua vizinha Coréia, se lança numa política de valorização da educação, de investimento sério e planejado em tecnologia e direcionamento dos ganhos de hoje em benefícios urbanos e sociais. A qualidade da vida da população tem melhorado, lentamente, mas tem.
Bem, por mais que a economia seja cíclica, não há razões para pensar que uma chance desperdiçada possa ser facilmente recuperada. Nas décadas de 60 e 70, o Brasil apresentou crescimento na mesma proporção que a Coréia do Sul apresentaria na seqüência, porém, acreditou que esse crescimento seria eterno, uma vez que esse país era maravilhoso, insuperável, insubstituível, e Deus, ator tão concreto quanto efetivo na economia internacional, era brasileiro.
Falando em desperdiçar oportunidades, alguns países só tem uma oportunidade. É o caso da China, gigante adormecido há muito tempo. Não se tem lembrança de crescente importância da China na nossa história dos últimos dois mil anos. Já o Brasil, com o café, com a borracha, com o crescimento das décadas de 60 e 70 pelos mesmos motivos que China e Coréia, e agora pelo álcool combustível, tem oportunidades em demasia para crescer e adentrar de vez o mundo desenvolvido com uma condição mais favorável. De fato, com a quantidade de oportunidades, Deus deve ser brasileiro. Mas o Brasil não aprende e repete erros. Não há investimentos concretos em tecnologia. Os centros tecnológicos mais destacados, aliás, estão abandonados à própria sorte. O orçamento da americana Harvard, por exemplo, é maior do que o montante gasto com todas as faculdades federais brasileiras. Nessa mesma mão, a educação, primária e secundária segue abandonada. Em São Paulo, o prefeito Kassab faz o esforço mais bonito para superar as escolas de latas: transferiu os alunos para salas de madeira. Compreensível. A madeira é mais fresca... e tecnologicamente duradoura e moderna. A madeira é o novo concreto.
Só de desabafo, a própria questão do álcool e dos biocombustíveis. A melhor chance recente do Brasil abandonar de vez sua condição de país subdesenvolvido, porque para mim, essa história de país em desenvolvimento é eufemismo da ONU. Entretanto, o presidente Lula já assinou um acordo de cooperação com o governo americano de Bush para exportar o álcool para que ele receba tratamentos e pesquisas por lá. Daqui há uns anos, estaremos pobres, plantando cana e exportando álcool para nossos vizinhos do norte agregarem valor e manterem seu status quo no sistema.
Ainda falta no Brasil uma agenda séria, que vise investimentos em tecnologia e em educação. Ainda falta valorização do trabalho intelectual e braçal, e não apenas do trabalho parasitário do funcionarismo público. Falta aperfeiçoamento e especialização da mão-de-obra, que vem da implementação e do desenvolvimento de cursos técnicos e tecnológicos, e não do inchaço universitário com faculdades de pouco ou nenhum valor acadêmico a partir do Pro-Uni. A Embraer ainda importa parte de sua tecnologia, e tem problemas de crescimento pela deficiência de profissionais técnicos especializados, que o alto número de engenheiros não supre. E falta, pôr no plano principal, como atração central desse espetáculo, a moral e a decência, transformando todo o crescimento e vantagem em benefícios duradouros para a população e a sociedade brasileira, e não como arma na mão da elite para aumentar as desigualdades sociais nesse gigante cataléptico.
Odair J. de Araújo Junior, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.

sábado, 8 de março de 2008

O adeus ao McDonald's?

Stella Menegucci Nogueira de Freitas
A biologia ensina o ciclo nascer-crescer-reproduzir-morrer. Mas as Relações Internacionais também adotam tal ciclo, mas para um outro tipo de organismo vivo: a hegemonia das grandes potências. Um dia, o Brasil e parte do mundo se viram apaixonados pelo status europeu. O chic entre os nobres brasileiros era estudar na Europa; as roupas da nobreza brasileira, com camadas e mais camadas de tecidos, luvas, rendas e babados, simplesmente européia, em nada condizia ao clima tropical e ao chão de terra batida; o charme de Paris. La Ville De Lumière! A língua falada entre membros da elite era o francês, sendo que o português era usado para falar com os vassalos. Enfim, os descendentes dos colonizadores sofriam de uma infinita saudade daquilo que nunca haviam sido: urbanitas dos grandes centros culturais europeus, e buscavam adotar hábitos de uma cultura que não os pertencia.
Então, chegamos na década de 20. Era o nascimento de uma nova jornada, e a morte do paradigma europeu : o crescimento de nossos “bons” vizinhos do norte, os Estados Unidos. Em meados da IIGM, estava pronta a base aérea americana em Natal-RN. Antes de acionar os motores dos aviões, os pilotos no interior da cabine mostravam a mão fechada, com o polegar para cima, a fim de se comunicarem com os nordestinos. Nascia então, o sinal internacionalizado de positivo, concordância, amizade, bom-dia, boa-tarde, boa-noite, em substituição do aperto da pontinha do lóbulo da orelha. O Brasil estava americanizado!
Apesar da repulsa de importantes setores da sociedade brasileira, que acreditavam que havia “muito mais civilização num beco de Paris do que em toda vasta Nova York (Eça de Queirós)”, compramos os produtos das fábricas de ideologias americanas. Democracia, progresso e o eixo de nossas vidas: trabalhar, ganhar dinheiro e consumir. Nossos bons vizinhos modelaram nossos gostos e nossas fontes de entretenimento através de Hollywood, Walt Disney World, música, tv a cabo, da McDonaldização do mundo. E fizeram com que o mercado global exigisse de seus súditos a fluência do Inglês.
Mas a partir de um tal 11 de setembro de 2001, e de uma guerra declarada ao terror, grande parte daqueles que usavam camisetas da GAP, Ralph Lauren, Levi´s, passaram a usar camisetas com dizeres Bush is stupid. Pesquisas divulgadas pela CNN em abril de 2006, mostram que 32% dos 1.012 entrevistados americanos aprovam o governo Bush, enquanto 60% desaprovam a atual administração. O mundo passou agora, a temer o poder dos EUA. Seria esse o maior sinal do declínio do Império Americano?
Voltando ao ciclo biológico, quem substituirá os EUA? Chamada, no passado, de “gigante adormecido”, a China está acordando. Em 2006, anunciou um crescimento espetacular de 10,7 % de seu PIB, enquanto os EUA apresentaram pífios 3,5%. De acordo com projeções da consultoria PriceWaterHouseCoopers, a China será a maior potência econômica em 2050, seguida pela Índia e pelos EUA. Traduzindo: esse cenário representa não só uma temível ameaça à hegemonia ianque, como também está criando turbulências econômicas e afetando as indústrias de todo o mundo. Um exemplo mais próximo: a indústria calçadista francana.
Se as projeções se concretizarem, será que assistiremos a um novo imperialismo, agora oriental? Será que o frango xadrez e o rolinho primavera passarão a fazer parte de nossa mesa? O mundo do entertainment deverá então promover artistas como a pop star de Hong Kong, conhecida como a Mariah Carey da Ásia, CoCo´s Lee, e também a cantora Wei Wei, que já entrou na lista dos 150 artistas que mais venderam discos na história da música? E vale lembrar que, como disse José Flávio de Sombra Saraiva, “quem aprender mandarim estará rico em dez anos”.
Segundo o francês Jean-Baptiste Duroselle, todo império perecerá. E segundo o ciclo biológico, outro império nascerá e crescerá. E assim sucessivamente. Mas será que, se a China realmente constituir-se num império, este será tão sedutor quanto ao imperialismo ianque?
Stella Menegucci Nogueira de Freitas, convidada, é graduanda do curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista - "Júlio de Mesquita Filho", UNESP.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Pantaleão e a pantonímia da ignorância

Odair J. de Araújo Junior
As prévias eleitorais democráticas nos Estados Unidos, extremamente equilibradas, têm colocado em foco duas ou três parcelas do eleitorado que bem poderiam ser consideradas “minorias”. Os negros, as mulheres, e os latinos. Perceba as aspas em minorias, que aqui adquire mais o sentido de minoria política, do que de minoria factual, haja visto que nem os negros, nem as mulheres, e talvez nem os latinos, sejam tão minorias assim na configuração populacional norte-americana. Hillary tem a seu favor as mulheres e os latinos, esses últimos de quem ganha significativo apoio desde quando era apenas uma ativa participante na campanha de outros candidatos, ainda na década de 70. Esse apoio é incentivado pela falha mais grave no programa de Obama, que vêm a ser exatamente, a questão dos imigrantes e dos latinos. Já Barak, tem forte apoio na parcela negra, parcela discriminada toda vida da composição americana e que, apesar de culturalmente sempre presente, cita-se o jazz, por exemplo, nos últimos anos tomou de vez a cena na cultura ianque, pelo menos na musical.
Os mais jovens também são atraídos por Obama, o que num processo eleitoral de sufrágio não obrigatório, tão diferente do nosso super-democrático processo, é no mínimo fascinante, tendo em vista que nos últimos anos, essa parcela da população esteve quase sempre envolvida em gestos de protestos, como o não-voto.
Assim, para tanto, a campanha eleitoral de setembro, deve ao menos lançar base a um debate sobre uma nova América, e certamente, de forma mais enervada e frutífera do que o fora com Al Gore. A questão a se saber é se essa “América” dirá respeito só aos EUA, ou poderá se estender à toda a América. Os republicanos, nesse sentido, ao menos para nós, brasileiros, sempre assinalaram com políticas mais interessantes.
Entretanto, entender qualquer processo na América passa em muito por uma questão de entendimento histórico-social latino americano. Os países fazem suas opções políticas, e isso, como não poderia ser diferente, interfere terrivelmente na forma como a América caminha.
À despeito, por exemplo, da reunião emergencial da OEA, na qual aparentemente a questão Equador – Colômbia pareceu sanada, o encontro dos países do Grupo do Rio em Santo Domingo parece que servirá uma vez mais ainda de palco para o show pirotécnico da “salvação bolivariana”. Não contente com o clima de animosidade regional, cuja união o governo bolivariano da Venezuela tanto diz aspirar, sua diplomacia agora recorre a outras nações para angariar apoio à suas bravatas.
Veja bem: a Colômbia invadiu o território equatoriano para uma ação militar, feriu a soberania e a territorialidade desse, e na seqüência apresentou um pedido formal de desculpas, justificou a ação e o fez também ainda no fórum aberto para tal na Organização dos Estados Americanos. Não vejo onde mais essa questão possa dar. Não estou com isso justificando a ação colombiana, nem fazendo pouca monta do ocorrido. Mas civilizadamente, uma vez que toda a ação, à luz dos esclarecimentos devidos, já foi constatadamente caracterizada como uma ação contra as FARC, e não como uma intenção velada de anexação, expansão, ou agressão territorial, o pedido de desculpas, além da condenação de toda a comunidade internacional para o ocorrido, parece ser a solução possível e plausível para a questão.
Mas Chávez, e me esforço para não mencionar aqui seu nome, ameaça reduzir as importações da Colômbia, além de nacionalizar suas empresas em território Venezuelano. Bom, o primeiro ponto em discussão, e para isso está aberto o espaço para comentários, é, o que a Venezuela tem a ver com isso?
Bem, mas como essa resposta foge do limite surreal ao qual minha mente pode suportar, vamos ao que interessa. Não percamos de vista o que realmente acontece na América. Nacionalizar empresas não é de fato uma novidade no governo de Chávez, nem no seu aparente mais sensato colega, Morales, que até agora misteriosamente não se manifestou, quase me convencendo de sua sensatez. A Bolívia, assim como a Venezuela, nacionalizaram vários investimentos estrangeiros, e no caso da Bolívia, investimentos brasileiros. Bom, o Brasil não desrespeitou a soberania nem o território boliviano. Nem por isso foi poupado da ação, considerada bela e plausível, acreditem, pela intelectualidade e pelos jovens universitários entediados do Brasil.
Com isso, não parece que Chávez pretenda fazer represália à Colômbia, mas desestruturar através da economia o país vizinho, abertamente de direcionamento ideológico-político diferente do seu. Vejam bem: o jogo aqui, ultrapassa em muito à esfera de questões territoriais e jurídicas. Tanto que a resolução de reprimenda da OEA à Colômbia não satisfez o famigerado Chávez. Agora quer a questão no encontro do Grupo do Rio, e traz à tira-colo outro falido colega, o governo da Nicarágua, que também promete cortar importações do governo de Bogotá.
Nacionalizar ou cortar importações não fere diretamente ao presidente Uribe tanto quanto a reprimenda internacional fere, mas agride as regras de funcionamento do capitalismo, ente nem tão querido na parca compreensão política de Hugo Chávez. E agridir deliberdaamente a Colômbia não só agride ao capitalismo liberal que Uribe tenta representar, como fere também seu principal aliado, os Estados Unidos, inimigo utópico do Chávez que nem com cem anos de governo “democrático” poderia arranhar.
O que passa despercebido até agora é o interesse de Chávez e seu comparsa Corrrea em apoiar às FARC. Ninguém questiona, nem tampouco repreende por isso. Há um espírito de solidariedade e identificação na América esquerdista com os terroristas colombianos que lutam em nome de algo do qual Marx se envergonharia. O Capital, obra central de Marx, foi o primeiro livro proibido do index prohibitorium das FARC. Decência e moralidade no combate político foram o outro item.
Essa é a América esquerdista, que não se une visando o progresso, mas visando a aproximação de pseudo-democracias da pseudo-esquerdas com pseudo-líderes regionais. Dá para se entender por que a América não se desenvolve no ritmo que deveria, nem seus laços se dão da forma que deveriam se dar.
Vale o questionamento então, do posicionamento, diante da questão, de países como Brasil, Argentina e Chile, países com melhores e mais fortes economias na América Latina, junto com o México. Esses, diferente de Chávez, Dona Florinda e Quico, cuidam de seus interesses, e colaboram não no boicote às importações colombianas, mas em ações positivas em torno de algo real e concreto, que busque e leve a cooperação a índices mais elevados em assuntos realmente decisivos e significativos para seus próprios destinos e populações. Chávez perde seu tempo e desperdiça as boas chances da população venezuelana com um sonho pífio e um plano político de araque, se ocupando de tornar nebuloso o cenário e esconder na neblina os resultados de Pirro do seu governo, governo este que não se habilitaria a uma reeleição num processo democrático, acaso houvesse um ainda na Venezuela. Mas Chávez, e seu colega Morales, reescrevem a constituição, refundam seus países, e se perpetuam no poder, com um livro de Maquiavel no criado mudo e a foto de Fidel no porta-retratos.
Há explicação de por que a América não prossegue e ganha espaço. A Venezuela, como um Xamã, nos oferece todas as respostas. A complacência com as FARC e com a ditadura de Chávez, ditadura porque já suprimiu as liberdades de manifestação e de imprensa, caçando concessões de televisão e rádio, com uma perseguição sutil e segredada de seus opositores mais fortes, tal complacência vinda de países como a Nicarágua, com um passado negro de guerrilha e ditadura, não poderia nem assustar. Nem o ridículo show de Correa e Chávez, que desesperados em agredir os Estados Unidos sem ter como, acham que assim, podem e vão desestruturar a América de Obama e Hillary. Doce ilusão.
Deveríamos sempre substituir o acento e o z do Chávez venezuelano por um s, e escrever seu nome como seu homônimo mexicano, o Chaves. E que o criador do Chaves me perdoe por essa comparação desonrosa e agressiva.
Odair J. de Araújo Junior, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Só podia ser o Chávez mesmo!

André Luiz Oliveira Guimarães Pitaluga
Ao iniciar as explanações sobre a minha visão do desenrolar das Relações Americanas durante esta semana, devo ressaltar a maneira tão peculiar como tal realidade se apresentou aos meus olhos, sendo que esses últimos dias deixaram mais expostas tais peculiaridades do que o normal. Vimos de tudo: terroristas barganhando a troca de reféns sob os olhares do sagaz Chavez; exército violando a soberania territorial do vizinho; e por último, a morte de um líder “revolucionário” e na seqüência, uma série de ofensas explícitas. Por fim, um tom conciliatório paira por tal cenário após intervenção de urgência da Organização dos Estados Americanos.
Gabriel Garcia Marques afirmava que produzir literatura voltada ao Realismo Fantástico na América Latina é uma árdua tarefa, já que a própria realidade latino americana se apresenta como mais surreal do que a própria literatura fantástica. Tal afirmação me parece explicar bem a situação pela qual nossa realidade passou nessa semana. Tal situação estava entre fazer parte do um quadro de Dali e de um seriado cômico mexicano, ao mesmo tempo.
Primeiramente, o que devemos contar como uma violação maior dos princípios de manutenção da paz? Violar a soberania territorial de um país ou financiar, às escuras, um grupo que por anos vem atuando como uma “guarda pretoriana” do crime organizado, matando e seqüestrando em nome de uma causa revolucionária irreal? Foi nesse debate que Equador e Colômbia se agarraram durante o processo que resultou na quebra de suas relações diplomáticas e num estado de fortíssima tensão. Está certo que foi “sem querer querendo”, mas a violação do espaço territorial de um país soberano sempre pode ser considerado um ato hostil e que deve ser evitado. Porém, o governo colombiano afirma que tem provas da ligação do estado equatoriano e venezuelano com as FARC, e que apenas agiu contra uma organização criminosa que encontra abrigo em solo desses países. Assim, nesse caos de exigências de desculpas públicas e na sua recusa, vimos a América do Sul cometer um tremendo absurdo, indo às armas.
Uma guerra na América do Sul, principalmente envolvendo atores como Colômbia, Venezuela e Equador, é tão absurda que pode ser considerada surreal, até mesmo para o histórico da América Latina. Em primeiro lugar, não podemos notar nesses países, muitas condições materiais de se bancar um processo oneroso como este. Suas economias são extremamente frágeis e uma guerra nessa altura dos acontecimentos seria um verdadeiro suicídio, pesando fortemente sobre a já penalizada sociedade civil. Uma guerra seria o total avesso do processo de regionalização que atualmente vem acontecendo na América do Sul. Está certo que não há uma identidade latino americana, nem mesmo há verdadeiramente um latino americano, como já afirmava Jorge Luís Borges, mas ainda assim, uma guerra seria um desastre para esse arranjo de Estados que já é tão frágil na América do Sul. E ainda, é mais absurdo um conflito armado pelo desequilíbrio que há na capacidade de combate desses Estados, já que a Colômbia tem muito mais experiência e estrutura que anos de combate com as FARC lhe renderam. Diante disso, podemos afirmar “que burros, dêem zero pra eles!”.
Para finalizar, levando em conta que a vingança nunca é plena, é encaminhada, em uma reunião de emergência da OEA, numa resolução conciliatória para este litígio, com a Colômbia se desculpando e com o Equador com postura mais serena. O Brasil mesmo não sendo o Mediador oficial do conflito adotou uma postura pacifista, e no fim, acabou tendo seus interesses preservados, mesmo não lançando mão de sua tradicional real politik, que habitualmente utiliza para tratar as relações com seus vizinhos.
Mesmo com a promessa de Uribe de não reeditar a operação que pôs fim a vida de Raúl Reyes, ainda percebemos na Venezuela, reforço militar em suas fronteiras, o que significa que Chávez logo criará um incidente novo para a construção de seu “ideal bolivariano”. E cada vez mais observaremos o presidente venezuelano, não tão simpático quanto seu homônimo mexicano, aprontar disparate encima de disparate na tentativa de construir na América do Sul a sua “Chinforínfola”.

André Luiz Oliveira Guimarães Pitaluga, Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Goiás, realizou pesquisas de História e Teoria das Relações Internacionais. Atualmente realiza pesquisas independentes sobre Teoria, História e Cultura aplicados às Relações Internacionais.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Crise entre Colômbia e Venezuela

Muriel Brenna Völz
De um dia para o outro, a América Latina acordou simplesmente em ebulição, e sem qualquer surpresa, sabe-se da grande participação do presidente Chávez nesta pantomima toda!
Sim, de fato, pelo que nos é noticiado, houve realmente a violação territorial do Equador pela Colômbia. Sim, tem-se dessa forma uma violação de uma norma de Direito Internacional, de fundamental importância para uma convivência harmônica entre os Estados soberanos. O detalhe que parece ter sido esquecido é que apesar da existência desta infração legal, é necessário se observar em que condições ela ocorreu.
O presidente Uribe não violou as fronteiras com o Equador com o objetivo de conquista territorial, de ameaçar a instituição do Estado equatoriano ou de combater com o exército deste. Na verdade, o que ocorreu foi uma caça a integrantes de um grupo que é internacionalmente considerado como terrorista. Sendo assim, será que é pertinente toda essa confusão, retirada de embaixadores, deslocamento de tropas, menção a possibilidade de guerra?
Toda esta situação teria um desfecho muito mais simples se não fossem 2 fatores: a muito provável existência de um apoio do Equador as FARC, e a incessante e megalomaníaca vontade do presidente Chávez de se intrometer em tudo, desequilibrando o tênue “equilíbrio” vigente.
O que não é questionado nesta história toda é o apoio de Chávez e de Rafael Correa as FARC, um grupo paramilitar, com objetivos revolucionários, financiada pela venda de drogas e que se utiliza de seqüestros, mais do que longos e desumanos, como forma de pressão na conquista de objetivos políticos. Atacam a população civil com fins meramente políticos, visto que não tem potencial de combater diretamente a instituição do Estado colombiano, ou seja, seu exército. Caso contrário, já teriam tomado ao poder, visto que lutam em prol desta revolução armada desde a década de 60.
Faz se necessário também analisar a situação do ponto de vista colombiano, um país que há décadas enfrenta este conflito com as FARC e que ainda tem que lidar com o apoio, simpatia e condescendência de outros Estados soberanos a esta organização.
Enfim, a Colômbia, pela sua política externa mais próxima dos EUA e por ter uma política interna não inspirada no ideal bolivariano, tornou-se o bode expiatório de Chavéz e todos os seus discípulos. Na verdade, esta violação territorial foi o pretexto esperado pelos venezuelanos para se poder colocar mais lenha nesta fogueira, que já havia sido acendida com a questão da intermediação para libertação dos reféns mantidos pelas FARC.
Além de um pedido formal de desculpas, o que seria mais do que o suficiente para encerrar com toda a situação, visto que esta violação foi um deslize/excesso cometido em prol de um objetivo maior, e nada disso estaria ocorrendo se o Equador/Venezuela também considerasse as FARC como um inimigo terrorista; nos resta esperar qual será o próximo chilique do nosso mui amigo Chávez!!!!

Muriel Brenna Volz, graduada em Relações Internacionais pela UNESP-Franca. Atualmente é aluna do 4 ano de Direito na Faculdade Municipal de Franca e Mestranda em História pela Unesp-Franca, com pesquisa sobre o processo de criação do Tribunal Penal Internacional e sua consolidação no pós Guerra Fria.

terça-feira, 4 de março de 2008

Bobbio, você já sabia!

Hélio Afonso Filho
Para aqueles que não conseguem enxergar a profundidade que as Relações Internacionais e seus estudos podem alcançar, espero que após esse artigo possam repensar a importância devida e a magnitude de seus esforços, que não só sobrevivem da diplomacia estatal ou do saber lhe dar com pessoas de outros países. Há mais coisas entre um paradigma e uma teoria que o vão Henry Kissinger pode explicar.
A complexa rede de informações que formam as Relações Internacionais abre imensos espaços os quais podemos seguir e nos perder nessas “infinitas highways”. Foi numa dessas que percorri um longo caminho de estudos e devaneios até chegar ao ponto de escrever sobre o futebol e seu universo extra-campo. Descobri que dentro deste mundo havia um oceano azul para quem desejasse explorá-lo. E assim fui desenvolvendo comparações e interligações entre o tal esporte e a minha área de estudos, até que alguns dias atrás encontrei o meu camafeu.
Dei-me de olhos numa declaração do soberano presidente da FIFA, entidade máxima que rege o futebol no mundo, Josseph Blatter, o qual afirma categoricamente que o seu micro-universo acarpetado, localizado na pacata Suíça, é mais “popular e importante que a ONU”. Não sei se essa comparação é saudável, já que a finalidade e a razão de ambas são diferentes, apesar de a FIFA fazer vez de ONU e se saindo com resultados talvez muito mais interessantes que o “monstro” idealista que rege a ordem caótica internacional. Entretanto, o que me chamou mais atenção nisso tudo foi o motivo pelo qual essa frase fora expelida com tamanha presunção e ousadia. O direito ou não de intervenção do governo espanhol na federação de futebol do país, ferindo assim além dos direitos de autonomia e soberania de decisões daquela instituição, bem como o ego do pequeno príncipe da entidade máxima do futebol.
Que me perdoe Saint-Exupery, mas para explicar as ações deste príncipe só Norberto Bobbio pode nos dar. Chegamos então em um tema tão controverso quanto quem é melhor Pelé ou Maradona. Apesar de sabermos que Pelé fora muito melhor que o argentino, encontramos pessoas que pensam o contrário, assim acontece também com o conceito e a aplicação da soberania no cenário internacional. Para entender melhor sobre esse assunto, só lendo a obra de Robert Louis Stevenson “O Médico e o Monstro”, que acaba sendo uma perfeita analogia para o binômio Guerra/Paz, o qual é a fonte de explicação de Bobbio para tal fenômeno internacional.
Outro agravante nesse imbróglio é a situação do Estado espanhol. Com certeza, para expelir uma frase tão contundente e a manter uma postura ousada e rígida, a qual prometia excluir a melhor e segunda mais rentável liga do mundo caso prosseguisse com a intervenção governamental, para isso o presidente Blatter levou muito em conta a política interna daquele Estado, que vaga entre o “ser” e o “dever ser”. Como ser soberano em um país que sofre com um território completamente dividido por nações diferentes e com um poder central que carece em muito de legitimidade?
Ao mesmo tempo, com uma estratégia ofensiva/defensiva extremamente bem elaborada, o Bismarck das terras helvéticas consegue evitar uma ação sem precedentes em um de seus braços mais bem desenvolvidos e rentáveis, o que certamente abriria passagem direta aos porões da Casa FIFA onde encontrariam muitos traços que abalariam o maior esporte do mundo. O ataque ainda é a melhor defesa e assim o pequeno príncipe parte para cima dos Estados e de sua representação maior tentando evitar que seu trono avaliado em mais de US$ 200 bilhões pegue uma cauda de cometa e se perca entre os vários mundos galáxia a fora.
Portanto, a questão da soberania estatal ainda nos dá margem a diferentes abordagens e ações e com isso seu princípio de utilidade no meio internacional vai sendo minado. A própria ONU é fruto da abstenção de parte desta soberania de cada Estado-membro em prol de um “ser” maior, mas que acaba em pleno século XXI tendo a sua legitimidade contestada e desprezada por uma organização internacional que resolveu agir por conta própria para garantir seus direitos e sua ordem. Eu ainda fico com o Bobbio, um dos últimos profetas das Relações Internacionais, que já analisava a soberania como um dos fatores que gerava esse caos entre os Estados e enquanto não substituísse esse princípio ou encontrasse algo melhor para substituí-lo acabaríamos sempre em guerras e disputas, já que ninguém se enxerga menos soberano que outro. Acabamos que dentro da comparação FIFA e ONU, a primeira instituição serve de modelo de organização e de regras bem definidas, bem como de legitimidade e de soberania internacional mais efetiva. Será que devemos ver mesmo a floresta e não só a árvore?!

Hélio Afonso Filho, da equipe Mundo em Questão, internacionalista graduado pela Universidade Católica de Goiás; pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV; Trabalha atualmente na Associação Atlética Anapolina e na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, desenvolvendo trabalhos de Marketing e Relações com Investidores.