segunda-feira, 26 de maio de 2008

360°



A semana que passou e a semana que se inicia finalmente viu as catástrofes ambientais ceder espaço para as reações mundiais a esses acontecimentos e ao sempre corrente assunto dos conflitos internacionais. Os ministros do meio ambiente do G-8 propuseram metas a serem cumpridas para a emissão de carbono dos países membros do grupo dos 8 até 2050. A proposta basicamente diz respeito à redução pela metade das taxas de emissão globais que poderia ser adotada na cúpula do G-8 em julho agora. Uma reação clara aos desastres ambientais ocorridos tanto em Mianmar quanto na China. Mais uma, aliás, além dos distintos protocolos existentes e pouco respeitados, como o Protocolo de Kyoto.

A política e as catástrofes ambientais ainda andam de mãos dadas, infelizmente. A região afetada pelo ciclone no Mianmar aprovou com ampla maioria a constituição proposta pela junta militar que governa o país. E na China as autoridades planejam dinamitar escombros deixados pelo terremoto que ajudaram a criar um enorme lago artificial que agora ameaça transbordar causando mais tragédia e comoção popular.

Deixando os desastres ambientais de lado, os conflitos, tônica ainda dominante nas relações internacionais continuam sendo manchete nessa segunda-feira. Na Colômbia, o líder das FARC Manuel Marulanda morreu, de acordo com a guerrilha, vitimado por um enfarte, o que não impediu, de forma alguma, que o governo colombiano comemorasse veladamente o acontecido. A mãe de Ingrid Betancourt perdoou o guerrilheiro, mas o governo de Uribe parece não ter feito o mesmo. É bem verdade que perdoar os mortos é mais fácil que perdoar os vivos. Resta saber se a história o perdoará também.

O general da reserva Michel Suleiman teve seu primeiro dia como mandatário do Líbano, e pode já, a partir de hoje, cuidar de pacificar e estabilizar seu país e suas relações com os vizinhos. Tarefa árdua e difícil, que em nada será ajudada pela vontade comum regional. Restará também saber se essa é vontade verdadeira e altruística do próprio Suleiman.

No Congo, o líder da oposição foi detido pelo Tribunal Penal Internacional no sábado último. Jean-Pierre Bemba é acusado de quatro crimes de guerra e dois contra a humanidade realizados entre 2002-2003. No último ano estava morando em Portugal, apesar de não ter asilo político, à pedido de um alto representante da ONU em Kinshasa para evitar o risco de uma nova guerra civil.

Por fim, Barak Obama acentuou suas críticas ao candidato republicano John McCain, atacando diretamente a política dos republicanos para com os veteranos. Especialistas acreditam que Hillary Clinton deve ser forçada pelos superdelegados a abandonar a campanha, e o fará em junho. Assim, Obama, virtual candidato democrata, já se lança no emaranhado da disputa política presidencial.

E isso é tudo.

J. F.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Uma Hillary de espada, escudo e elmo na ofensiva



O mundo acordou nessa quinta-feira sem muitos sobressaltos, o que em termos de política internacional é extremamente positivo. O maior destaque fica a cargo da candidata às prévias democratas para a eleição presidencial norte-americana, Hillary Clinton.

Desespero ou premeditação, ninguém saberá o que levou Hillary a se posicionar de forma tão dura no que diz respeito ao Irã. Afirmou que se o Irã fosse à guerra com Israel, “eliminaria” o mesmo. Declaração forte, direta e agressiva.

Talvez o tenha feito por algum motivo em específico, mas é mais natural que o tenha feito, na verdade, por vários motivos. E poderia imaginar alguns deles: para uma mulher, mostrou a força e a truculência que só imaginamos num homem, o que chega a ser um absurdo de nossa parte que sempre enxergamos as mulheres como o sexo frágil; assinalou, como uma americana patriótica, seu desejo em conservar os aliados que os americanos tanto prezam, mostrando assim, ao menos, uma continuidade com o espírito da América; e em último dos casos, tentou angariar votos da ala mais conservadora da sociedade, mostrando que pode assim competir com McCain em termos práticos.

Entretanto, esses motivos fariam sentido se a ação foi fruto de pura premeditação. Não o sendo, sendo apenas reação desesperada ao sucesso de Obama nas prévias, teria outras motivações e não seriam tão nobres ou eficazes assim.

O risco é que a declaração soe ao contrário. O risco é que a população, agora resistente contra a interminável incursão americana no Iraque, repudie qualquer possibilidade de um novo conflito, e com isso, repudie também qualquer possível arauto desse.

Porém, afirmar que a população americana é totalmente convertida ao credo pacifista e intelectual de Obama, é crer demais. Achamos improvável que uma população mude tanto seu espírito coletivo em tão pouco tempo, e achamos difícil que os norte-americanos comuns passem a realmente desprezar muito do que lhes caracteriza como americanos.

Assim, parece improvável acreditar que exista uma repulsa contra atitudes belicistas que revele a todos seu velho espírito de polícia do mundo. O americano padrão não deve ter tanta repulsa do padrão quanto do fato em específico. Talvez o descontentamento acumulado seja contra a guerra do Iraque, e não contra seu espírito intervencionista militar. Se assim o for, Hillary deu uma grande cartada.

Por último, ao menos uma coisa Hillary conseguiu: diferenciar-se substancialmente de seu adversário. E se minha inteligência não falhar, o povo americano em seu conjunto terá sempre uma queda maior pelo candidato com feição de xerife de interior à la Burt Reynolds, que nesse caso é McCain. Se assim o for, Hillary se habilitou mais para ser uma adversária à altura do republicano.

Ainda mantenho meu palpite: Hillary leva as prévias e McCain a eleição. Se for o contrário, se Obama ganhar as prévias, então sustento mais ainda meu segundo palpite, e McCain leva fácil a corrida presidencial. Porque seria difícil imaginar que na hora H, os norte-americanos resolvam substituir seu atacante. E já reza a máxima esportiva que em time que está ganhando não se mexe.

E isso é tudo.

J. F.


quarta-feira, 14 de maio de 2008

60s - A modernidade do Vaticano


Quando o Vaticano muda, é sinal de que a mudança não só já bateu à porta, como até já desistiu de entrar em sua casa. E ontem, o Vaticano admitiu a possibilidade de vida extra-terrestre.

Não que discutir a possibilidade da vida extra-terrestre seja importante, já que particularmente, acredito que ainda há muito para se desbravar da vida terrestre. Mas sempre haverá alguém que o julgará essencialmente necessário.

O fato mais relevante é constatar que o mundo está mudando. Porque se o Vaticano muda e as outras coisas não mudam, as outras coisas fazem papel de ridículas. Mas ainda há muita coisa pra mudar. Infelizmente.

Para falar apenas do Vaticano, seria interessante se questionar não só o ritmo, mas o rumo das mudanças aceitas pelo mesmo. No fim, chega a ser mais fácil aceitar a vida extraterrestre que o uso da camisinha ou o aborto em casos extremados de violência contra a mulher.

No fundo, respeitando a profissão de fé individual e relegando o respeito que cada crença deve ter de todos nós, o Vaticano só mostra sua inutilidade num mundo de contexto voraz e agressivo. E se dependesse desse para todas as mudanças do mundo, os dinossauros ainda andariam por aí.

E isso é tudo.

J. F.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A já consagrada sabedoria de Henry Kissinger



Um destacado nome da política norte-americana no século XX certa vez versou que: “para quem não sabe para onde está indo, todos os caminhos levam a lugar nenhum”. O autor dessa frase, nascido alemão na cidade de Fürth, fugiu das perseguições anti-semitas da Alemanha nazista e naturalizado americano se tornaria num dos maiores nomes do exercício diplomático dos EUA. Seu nome é Heinz Alfred Kissinger, ou na versão mais conhecida, Henry Kissinger.

Kissinger lutou na Segunda Guerra Mundial pela pátria que o acolheu, se doutorou em Harvard em 1954, e depois serviu como conselheiro de política externa para uma série de presidentes americanos, no período que se segue entre Eisenhower e Gerald Ford, sendo o secretário de estado e confidente pessoal do presidente Nixon.

Em 1973 foi coroado com o prêmio Nobel da paz, juntamente com Le Duc Tho, que o recusou, pelo acordo que selou a paz no Vietnã. Porém, seu conhecimento emblemático de como as estruturas da diplomacia podem e devem atuar no exercício diário da política, seja nacional ou internacional, é o que nos interessa aqui hoje. E mais destacadamente, sua percepção expressa na citação acima mencionada.

De fato, parece-nos sábio afirmar que para quem não sabe para onde está indo, todos os caminho o levarão sempre a lugar algum. Porque na vida, seja nas particularidades pessoais ou na prática do agir público, visualização se torna sempre a maior e mais significativa parcela do sucesso da meta. E destituindo nossas inteligências da enormidade de referências e escritos de auto-ajuda, podemos pensar nessa frase no sentido exato que seu formulador imaginou.

Para quem não sabe o que quer, qualquer coisa pode parecer coisa alguma. Essa formulação pode elucidar mais o que se almeja entender da citação de Kissinger. Se você não sabe se quer ser rico ou pobre, a pobreza ou a riqueza pode não ter significado algum. Muitos dirão que é óbvio que sempre se deseja ser rico, mas creia que a imaginação humana, felizmente, pode produzir raciocínios mais complexos e fascinantes, nos quais a obviedade da vivência materialista não resulta em pensamentos e desejos homogêneos.

Em política pública, não saber onde se almeja chegar pode ser quase sempre um risco de que ao se chegar a algum lugar, receie-se não haver chegado em lugar algum. Muitos países nos oferecem exemplos laboriosamente elaborados de como a falta de identificação lógica de seus objetivos pode resultar numa desafortunada insatisfação e oscilação identitária entre a massa constituída de seu corpo e o reflexo posto no espelho. O Brasil integra esse grupo.

Desde o início de nossa curta história, não saber quais são nossos objetivos claros resultou em não enxergarmos com clareza nossos ganhos ou resultados específicos, e quase sempre abriu precedentes para distorções reais de nossas políticas, que em sua maioria, indicou e possibilitou a devassidão dos meios e das forças públicas.

Não há nada de errado em querer ser potência, querer ser líder, querer ser mártir da causa operária, salvaguarda dos louros neo-liberais da economia globalizada, ou detentor de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O pecado está na verdade em não se saber o que se quer ser, e como um adolescente que oscila ante o peso das inúmeras escolhas do vestibular e das dificuldades da vida adulta, todo dia que nascer, perceber, sonhar, e desfocar suas forças nas ilimitadas possibilidades vindas nas ondas tênues e macias do tempo.

Não há pecado em ser imperialista, mas há em ser e não assumir. Não há pecados em se identificar com a peseudo-esquerda da américa latina, mas o há em alternar sua posição ideológica a cada novo governo em exercício. Temos que aprender que nossas percepções pessoais passam longe do que deveriam ser nossas metas coletivas. Há de se ter coerência.

O Brasil é rico na arte de alternar suas posições diante das distintas situações às quais está exposto, ou em outras palavras, da famosa síndrome do falso coitadinho. O Brasil é de fato um gigante na profícua arte de ser arrogar poder e chorar misérias quando seu poder é exigido. A cidade de São Paulo, invariavelmente a maior do país, é uma casquinha dessa ferida. São Paulo é quase um PhD em alternar seus desejos megalomaníacos com sua postura de frágil donzela indefesa e injustiçada. São Paulo aspira por ser a maior cidade da América Latina, mas foge aos seus compromissos sociais e estruturais quando lhe é cobrado. Assim, seguimos arpejando nossa condição de grandiosa megalópole avançada, rica, próspera e invejada no cenário internacional. Mas nos recusamos a pensar como tal, e continuamos exercendo políticas de cidades pequenas, atrasadas e retrógradas.

Nada muito diferente do Brasil. É interessante se chamar de nação do futuro consagrando práticas fraudulentas típicas de administrações corruptas e pouco democráticas que já deveriam ter sido superadas e esquecidas nos livros de História. É mestre em se conclamar de país apto para receber turistas, mas conservar um sistema falho e porcamente constituído de aparelhagem e operação de controle aéreo.

A questão é que se não sabemos o que queremos ser, dificilmente saberemos o que somos, e comumente nos veremos como não sendo nada. E aí, poderemos colocar a culpa no tempo que foi curto desde nossa descoberta e independência aos dias de hoje. Então, haverão duas explicações paupáveis: ou quarenta anos fazem muito diferença na milenar História da humanidade e o fato do Brasil ter sido feito independente em 1822, e os EUA em 1777, faz grande diferença no estágio de desenvolvimento de ambas as nações; ou Kissinger está certo.

E isso é tudo.

J.F.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

360° - Uma semana agitada, tensa e catastrófica



Essa semana foi de fato conturbada e agitada no mundo. Começamos pelo sempre noticiado Oriente Médio.

Agora a bola da vez parece ser o Líbano que vive ainda momentos de tensão que poderiam culminar a qualquer instante numa guerra. O Hezbollah transformou o governo libanês em alvo também de sua fúria e de sua Jihad após esse ter fechado seu centro de comunicações e decidir por mantê-lo fechado. A alegação das lideranças do Hezbollah, movimento criado para resistir a Israel, diz que o Líbano se tornou um inimigo porque começou a defender os interesses daqueles que querem o fim do Hezbollah e a vitória de Israel.

A liga Árabe enviou recentemente repesentantes para tentar apaziguar os ânimos exaltados que ameaçaram colocar em xeque a paz relativa que o Líbano enfrenta, se comparado a outros países da região. O país entretanto, ainda não descarta o clima de animosidade, e pode estar à beira de uma guerra civil.

Conturbações no Oriente Médio nunca ficam por conta apenas de um país. A faixa de Gaza está sem fornecimento de luz elétrica porque o governo de Israel não permite a entrega de combustíveis para a principal usina que fornece energia para a região. O apagão já dura alguns dias. Uma atitude, acreditamos, não muito eficaz no plano da busca pelo entendimento e arrefecimento das beligerâncias. A Jihad não parece facilmente se encantar com os sonhos da paz globalizada ocidental e esquecer Israel. E Israel não parece interessado em esquecer a Jihad.

A tragédia no Mianmar parece estar se transformando em pesadelo pessoal para muitas pessoas fora do país. Dois acessores do candidato republicano à Casa Branca, John McCain, foram afastados da campanha após ter sido provada ligações desses com a junta militar que governa no país asiático. Ambos pertencentes a uma empresa de lobby denominada DCI, se envolveram, num passado próximo, com a junta militar ao serem contratados para eleborar uma campanha que melhorasse a imagem da junta nos EUA, campanha a qual incluía até mesmo acusações contra a conduta do governo Bush em relação à denúncia de violação dos Direitos Humanos no Mianmar. Um problema para McCain resolver e descascar se ainda quiser manter a vantagem contra seus possíveis adversários políticos na campanha presidencial que hoje as pesquisas simuladas de opinião indicam.

No Mianmar, problemas seguidos de problemas. A ONU já teve dificuldades de levar ajuda aos desabrigados pelo furacão Nargis e recentemente, assim como muitas autoridades internacionais, se opôs veementemente contra a realização de um referendo no sábado último para aprovação de um nova constituição proposta pela junta militar que governa o país. O governo do Mianmar não adiou e manteve o referendo, que de fato foi realizado nesse sábado que passou. Apesar do governo afirmar que o referendo é importante e urgente porque permite a volta à normalidade democrática em 2010, movimentos pelo restabelecimento da democracia no país apontam para o fato de que a nova constituição apenas solidifica mais ainda a permanência da junta militar no poder indefinidamente, assim como acusam o governo de não empenhar todos os esforços necessários no auxílio às vítimas do furacão para poupar recursos à realização do referendo de sábado. Ainda não temos, até o momento de encerramento desse artigo, o resultado do referendo.

Catástrofes naturais também são assunto na china. Bem menor que a ocorrida em Mianmar, onde a ONU especula por volta de cem mil mortos, na China o número de mortos atingidos por um terremoto pode já ter chegado a 8.500. O governo dos EUA já ofereceu ajuda.

E para terminar, duas rapidinhas. Desde o fim da guerra fria a Rússia nunca havia realizado um desfile militar com a presença de mísseis e armas potentes de destruição na comemoração do dia da vitória contra as forças nazistas na segunda guerra mundial. Voltou a fazê-lo no último dia 08. O Kremlin, assim como Medvedev, presidente russo, e Putin, primeiro-ministro recém empossado, afirmam que, no entanto, isso não se configura como uma ameaça a nenhum país ou força, mas apenas como uma demonstração que as forças armadas e a marinha russas estão se reeguendo e ficando fortes. Fontes especializadas, entretanto, assinalam para um quadro distinto de falta de verba, baixa moral e defasagem tecnológica.

E no jornal britânico The Guardian, o jornalista Tom Phillips escreveu um artigo dizendo que o Brasil é um gigante que finalmente desperta. O artigo mostra que com o aumento dos preços das commodities, como a soja, o país vive um momento de crescimento econômico, de elevadas exportações, maior valorização em relação ao dólar, e aumento incomparável no mundo de sua parcela mais rica da população. O número de milionários, de acordo com a reportagem, aumentou no Brasil de 130 para 190 mil. A reportagem ainda afirma que num futuro próximo o Brasil pode se beneficiar pelos seus investimentos em biocombustíveis, podendo também se transformar em um grande produtor mundial de petróleo, com destaque para o bom serviço da Petrobrás. Phillips também afirmou, entretanto, que uma baixa no preço das commodities pode diminuir o ritmo de crescimento nascional e dissertou com maestria sobre como o Brasil já foi entitulado como o país do futuro há muitos anos atrás e como se perdeu no caminho com as crises mundiais e 21 anos de ditadura militar. A economista de FGV, Lia Valls, citada na reportagem apontou para as dificuldades que o Brasil ainda enfrenta na área de educação, qualificação da mão-de-obra, e infra-estrutura. É, mas Tom Phillips só esqueceu de observar uma coisa, na qual os países pobres como o nosso se distingue dos ricos como o dele: o aumento do número de milionários não necessariamente é positivo, e pode, em muitos dos casos, apontar também para uma maior concentração de renda, que por último, resulta em mais pobreza, mais desigualdade social e mais violência.

E isso é tudo.

J.F.

sábado, 10 de maio de 2008

Depois de Z de Gavras, W., de Stone



O que dizer de George W. Bush como protagonista de um filme sobre a própria vida? Hilário? Irônico? Irreal?

Não, o ilustre presidente dos EUA não vai de fato ser o protagonista de uma produção cinematográfica, mas vai emprestar sua personalidade para o personagem principal de uma biografia que será rodada e lançada antes da eleição norte-americana por uma produtora independente que tem no currículo, entre outros, filmes de Michael Moore.

A produção não é inicialmente incentivada pelo presidente, ou pelo menos não oficialmente. Seu diretor Oliver Stone acredita que essa será uma boa forma de conhecermos mais sobre um homem que conhecemos bem pouco a partir de imagens controladas e divulgadas na televisão.

Poderia ser um documentário, mas seguirá a linha de produção de drama biográfico. Atores não muito conhecidos estarão nos papéis principais e o filme por si só promete mostrar um lado de Bush que desconhecemos. Nas palavras do proprio Stone, “Bush é um cara engraçado”.

De fato, conheço bem algumas dezenas de pessoas que devam achá-lo muito engraçado. O falecido Saddam, que o diabo o tenha, devia achá-lo quase um Jim Carrey.

O filme deverá ser lançado além dos EUA, na Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália. Dessa vez o soft power americano não vai ser usado em países como Iraque, Afeganistão, China. Talvez porque a personagem principal seja menos apelativa e carismática que um Jason Bourne ou qualquer um do gênero.

Em outro blog, há dois anos atrás, comentei que se a vida fosse um filme, a trajetória de George W. Bush não seria como nos filmes presidencias de Michael Douglas ou Harrison Ford, nos quais um discurso inspirado e patriótico salva o final e o mundo. Talvez, nas grandes telas, até seja. A ignorância e truculência oficial de Bush, marca registrada aliás de seu governo, parecia incapaz de reproduzir momentos de rara inteligência e elevada inspiração como esse, mas no cinema as coisas podem mudar de foco. No filme A Rainha, a rainha Elizabeth da Inglaterra virou uma quase santa, vítima do maquiavelismo de seu marido. O Último Rei da Escócia não o fez, mas poderia ter transformado Idi Amin em um patriótico herói africano. O cinema pode muitas coisas.

Interessante é entender que a produção será pequena, modesta, com poucas pretensões, e correrá praticamente no circuito independente do cinema. Mas será que teria grandes interessados em Hollywood? Vale lembrar que uma das categorias mais atuantes na oposição à política de Bush foi justamente a dos artistas em geral.

Mas alguém já pensou se um filme sobre George W. Bush ganha o Oscar? Não, isso certamente estará longe de acontecer, até pelo estilo modesto da produção. É bem verdade que um filme sobre a história de George Bush não terá destaque tão modesto quanto sua produção. E depois, temos aí o Miss Sunshine para comprovar que não é necessário grande orçamento para ganhar uma estatueta.

Gwyneth Paltrow afirmou que deverá se aposentar aos 35 anos porque não encontra mais motivação para atuar e que o Oscar não traz felicidade. Isso eu não sei, já que não vejo uma estatueta sobre minha estante, mas sei que um filme sobre Bush não traz Oscar. Será?

O certo é que o filme será lançado antes do término do mandato de Bush. Uma vez disse, e ainda digo porque assim penso, que Bush entrará para história como um dos grandes presidentes americanos. Não digo isso porque realmente ache que ele o foi, mas digo porque o tempo todo ele, Bush, comandou um show pirotécnico forte o bastante para lhe dar esse título. O filme será a cereja no topo do bolo. Proposital? Quem saberá.

O importante mesmo é responder à seguinte pergunta: o filme poderá recuperar a imagem de Bush e transformá-lo em algo mais do que um controverso presidente? E mais: esse será mesmo o objetivo do filme ou qual será o objetivo do filme?

Mas essas são perguntas que só o tempo poderá responder.

E isso é tudo.


J. F.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

American way of life?



É fato que nos últimos anos o Euro ganhou espaço no mundo, tanto em importância quanto em valor real. E esse parece ser o tópico mais significativo da semana do Itamaraty.

O Tribunal de Contas da União recomendou que o Ministério das Relações Exteriores adote a moeda na prestação de contas das representações postadas em países em que a moeda seja de uso corrente. Atualmente, o Itamaraty gasta cerca de 90% de suas contas nas embaixadas e representações no estrangeiro e costuma fazê-lo em dólar, de acordo com informação do jornal A Tarde.

O uso indiscriminado do dólar deve ser repensado, principalmente em países nos quais as contas sejam pagas em euros. Isso poderia evitar descompassos nas contas e gastos execessivos, mas em todo caso, apenas prova o óbvio: a decadência do dólar.

Não é de hoje que o dólar vem em baixa. Foi substituído nos negócios internacionais de todas as áreas, das importações e exportações de alguns Estados às transações bancárias e esportivas. O governo do Iraque de Saddam Hussein já havia substituído suas reservas em dólar, muito em função de motivos políticos, mas sabiamente também numa racional aposta econômica.

O Brasil não parece dar mostras de trocar suas reservas monetárias em dólar por reservas em euros. Mas a sinalização de repensar as contas de determinados órgãos é uma mostra de que mesmo assim, o dólar já não é mais a rainha do baile da primavera.

Mudando de assunto, a reforma agrária proposta pelo presidente recém-eleito do Paraguai, Fernando Lugo, parece não incomodar o Itamaraty. Para este, a reforma agrária de Lugo deve se focar mais nas áreas mais pobres do que na região do Alto Paraná, a qual é dominada por produtores brasileiros, os chamados brasiguaios, e forte produtora de soja para exportação. Para o acessor especial do Itamaraty, se Lugo levar o conceito de reforma agrária para todo o país e focar em aspectos como o dos brasiguaios, isso seria um verdadeiro “tiro no pé”

É verdade que fazer política social às custas dos eventuais sucessos que seu país encontra em qualquer área econômica não chega a ser uma proeza de planejamento e estratégia. Mas pode ser um trunfo político, já que a questão dos brasiguaios em muito incomoda a população paraguaia em geral. O importante nessa questão é perceber que para se ser líder e exercer hegemonia é preciso ter comportamento e postura de quem o deseja fazer. O Brasil do presidente Lula não faz. Assim, constantemente é questionado, vítima sempre do excesso de caridade ideológica do ex-sindicalismo de Lula. Não é bonito ser imperialista. Mas quando se é, chega a ser mais feio fingir não sê-lo.


J. F.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

As novas mudanças no Mundo em Questão e um dia especial





Olá, leitores do Mundo em Questão. Hoje resolvi comentar as novas idéias do blog, e esse será meu quadro Opinião.

Bom, primeiro devo acrescentar que as mudanças no mundoemquestao.blogspot.com são mudanças elaboradas sempre buscando melhorar sua funcionalidade e a forma como você, leitor, se relaciona com esse espaço. Os novos quadros diários apresentam um ganho na tentativa de encontrar o melhor formato para quem lê os artigos aqui postados.

Hoje, estou escrevendo no Opinião, um quadro que praticamente repete a fórmula que você se acostumou a ver por aqui, artigos livres, com temática específica e crítica arguta. Algo essencial, no qual você entra, lê, se informa, se diverte e ponto final. Porém, me chamou bastante a atenção o quadro de amanhã, o Itamaraty em Foco. A possibilidade direta de ter os principais acontecimentos do Itamaraty e da política externa brasileira comentada semanalmente num blog que se destina aos debates de Relações Internacionais é incrível. Aproximar o leitor de críticas menos esparsas e mais específicas sobre uma área que normalmente é de seu interesse é uma forma de apresentar a área em toda sua extensão.

E apesar da central de podcasting ter apresentado problemas no upload de ontem, o 60s surge como uma opção para quem gosta de praticidade e dinamismo. Em 60s uma idéia é apresentada a você, seja em texto escrito, seja em arquivo de áudio (apesar de ainda não haver os arquivos de áudio aqui). Assim, no que denomino de quase revolução nos blogs, você pode se informar e se atualizar dos artigos do blog enquanto faz outra coisa em outra aba.

A interface de opções também ficaram interessantes. Muitas novas funcionalidades, algumas curiosas, outras úteis. O mapa de notícias oferece a oportunidade de acesso de portais de notícias de todo o mundo, o que é muito útil na hora de se tentar acompanhar as notícias in loco. As atualizações da BBC Brasil também nos oferece a oportunidade de estar sempre antenado com a notícia em tempo real. E a UN News, para a área de Relações Internacionais, é simplesmente fascinante.

Muitos reclamarão que com tudo isso o blog ficou pesado para abrir. É um preço pela melhor utilização do espaço. Como alguém da área jornalística posso afirmar que muito me alegraria que todo blog na internet utilizasse seu espaço dessa forma, informando, esclarecendo e divertindo.

E, apesar de você, leitor, ter entrado aqui hoje esperando ler algo específico sobre algum acontencimento, peço desde já desculpas, e digo que é sempre um prazer colaborar com o blog. Hoje fui escalada na pressa, sem tempo de preparar algo legal, já que nosso escritor habitual comemorou ontem o aniversário e se deu folga hoje. Mas amanhã tenho certeza que tudo volta ao normal, com novos artigos intrigantes, interessantes e informativos. E espero voltar a colaborar aqui com um texto mais bem preparado.

Parabéns equipe Mundo em Questão pelas melhorias, pelas novas idéias e pela persistência em manter vivo esse espaço. E apesar de tudo isso poder ser apenas um comentário e não um artigo, que os leitores me perdoem. E mais uma vez, parabéns para você, Júnior.

E como ele mesmo diz, e isso é tudo.


Tayla de Campos Rocha é colaboradora e foi convidada especial para escrever no dia de hoje. Formada em Jornalismo, atua no terceiro setor com ONG's que discutem os direitos das mulheres e o movimento feminista.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

60 segundos


Se observarmos bem a história da civilização humana, perceberemos que esta é marcada por uma enormidade de tragédias e catástrofes. Nunca foi excepcional, anormal, ou extraordinário o relato de algum furacão, terremoto, incêndio ou coisa do gênero.

Antigas cidades foram reconstruídas e ganharam o formato que hoje conhecemos depois de catástrofes naturais ou não. Londres mesmo foi totalmente reconstruída após um incêndio no século XVII.

Mas é de se espantar o que vem acontecendo no mundo na última década. Se catástrofes naturais nunca foram anomalias no curso da história da civilização humana, o número e a frequência com a qual têm ocorrido é de se assustar. A última foi no Mianmar.

O Mianmar por natureza é um país que precisa de atenção e cuidados internacionais. Pobre, pouco evoluído, destituído de instituições modernas consolidadas e atuantes, já tem por si só problemas suficientes para justificar a própria infelicidade. Mas o furacão que assolou o país recentemente, agravou ainda mais esse quadro de penúria.

Poderíamos nos deter apenas nas questões humanitárias urgentes na questão e nas aproximadamente quatro mil vítimas. Mas prefiro seguir outra linha.

Alertas gerais emitidos por ONG's e por organismos especializados da ONU parecem ter esgotado a consciência humana para a questão climática, mas não as ações. A despeito dos protocolos, compromissos e cúpulas para o assunto, o mundo continua seguindo o mesmo rumo no mesmo ritmo de devastação e irresponsabilidade ambiental. E já começa a sentir, ao menos nos últimos 10 anos, os resultados concretos de sua irresponsabilidade.

O importante é dizer que a situação atual não é reversível. Teremos que aprender a lidar com os danos que já causamos e suas consequências. Mas e os danos que ainda causaremos. Fica uma questão para refletir.

E isso é tudo.


J. F.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O Brasil e sua eterna síndrome de caixa de pandora



Como esse era o primeiro Palavra a palavra do blog, eu tinha a idéia de abordar alguma citação ou trecho de declaração de alguma personalidade destacada no mundo das Relações Internacionais. Porém, após o ciclone que assolou Santa Catarina, as chuvas que devastaram a grande Porto Alegre, os 16 pontos de alagamento em São Paulo na semana passada, e o naufrágio do barco Comandante Salles 2008 nas águas do rio Solimões no Amazonas, para não falar do caso já esgotado e totalmente alvo de sensacionalismo da Isabela Nardoni, resolvi optar por uma frase menos da área, mas muito importante para meu raciocínio.

A frase é do ex-presidente francês e líder da resistência ao nazismo, Charles de Gaulle: “O Brasil não é um país para ser levado a sério”. Muita gente ainda hoje se ofende com a declaração do sábio francês, apesar de sinceramente, não compreender bem o por que desse aborrecimento.

É verdade que ciclone assola vários países desenvolvidos no mundo causando tanta ou mais destruição. Chuva também não é um problema só nosso. Na verdade, problemas causados pelas forças da natureza não podem fazer com que os homens sejam condenados. Será?

Ninguém está sugerindo que se controle o tempo, a chuva, os ventos. Mas sempre que alguma coisa do gênero ocorre no Brasil, e tal, espetáculo televisivo nas esferas globais de comunicação, toma proporções grandiosas, se percebe o quanto se estava despreparado para uma situação de emergência. E após toda a comoção causada pela televisão, o problema segue sem solução, com declarações, sejam de homens públicos do poder, sejam de supostos especialistas consultados, de que esse imprevisível infelizmente faz parte e que essa é mais uma catástrofe para se guardar na história. O que não vemos é ninguém dizendo que espera que o acontecido sirva de lição para novos aprendizados.

Há quantos anos São Paulo sofre com as chuvas e os alagamentos. É verdade que no caso dessa cidade, percebemos investimentos na tentativa de sanar tal problema, além de uma reconhecida melhora nos últimos anos. Mas o problema continua lá. Assim como o problema do trânsito. Assim como o problema de Congonhas. Na ocasião do acidente com o avião da TAM, a comoção causada foi tão grande que só se falava nisso. Muitos supostos especialistas opinavam incessantemente sobre o assunto. Uma nova manchete toma o lugar e o problema é esquecido. E temos que lidar com o assunto como se o assunto fosse mais uma catástrofe atípica com a qual temos que aprender a lidar. Mas uma pista pequena, sem as regras técnicas adequadas, numa sobrecarga de vôos, com operadores insuficientes e com instrumentação inadequada, e bairros residenciais no entorno, não é exatamente o que costumamos denominar de “lamentável incidente”. Uma prova disso, nesse assunto, é a declaração de Tarso Genro à época que dizia que quando Congonhas foi construído não haviam residências em seu entorno. É verdade. Então por que deixaram construir, ministro?

São Paulo está velha e em alguns pontos decadente. E o alagamento vem muito em função de ninguém ainda tratar o problema como se o problema fosse algo para ser combatido e não para ser lamentado. Precisa falar da linha amarela do metrô, paralisada desde o desmoronamento de uma das estações, que agora está com a obra embargada desde então para que a perícia tenha certeza da qualidade das soldas utilizadas em toda a obra? Enquanto isso a cidade sofre com o transporte público de péssima qualidade de muito caro, para não falar do trânsito.

Em Porto Alegre, se não me engano, não faz muito tempo que choveu, como diz o gaúcho, barbaridade. No ano passado um problema muito semelhante com o de agora ocorreu na mesma grande Porto Alegre. Alguém sabe das medidas eficazes e amplas que foram tomadas para evitar que se sucedesse novamente. E ainda que consideremos que as medidas foram tomadas, obviamente não foram eficientes, ou a situação não teria se repetido e dessa vez agravada.

Quando se vê as regiões alagadas e destruídas pelas chuvas e pelo ciclone tropical, em sua grande parte se vê regiões carentes. Casas de madeira, sem reboco, obviamente construídas sem aval dos órgãos competentes e sem averiguação da competência de uso após terminadas. Muitos especialistas vão culpar a população e atribuir a isso parte do problema, mas alguém já se informou da burocracia e dos custos de legalizar um imóvel e uma construção? E o preço do cimento, da areia, dos tijolos, das tintas? Some uma coisa à outra, e logo você perceberá que no Brasil o ideal é o pobre não ter mesmo uma casa própria. É por isso que ainda hoje, em pleno século XXI, a casa própria é uma conquista.

O barco que afundou no Amazonas é outro exemplo típico. O barco não era regulamentado, mas era novinho em folha. Irresponsabilidade de quem lança às águas um barco não regulamentado e comprovadamente habilitado para navegar. Irresponsabilidade de quem adentra um barco nessas condições sem se informar. Porém, a própria Capitania dos Portos reconhece não ter estrutura técnico-operacional para fazer a fiscalização adequada e devida. Bom, vale mencionar que até bem pouco tempo atrás a fronteira entre Brasil e Argentina era patrulhada por apenas um jipe?

O caso da garota Nardoni é outro exemplo clássico para se entender o por que que só o governo não é o culpado por tudo isso. Enquanto todo mundo, que parece não ter mais com o que se preocupar, especula detalhes do suposto crime, ninguém se preocupa com o que realmente importa: uma discussão ampla e geral de como andamos criando nossos filhos, como a família tem se constituído nesses tempos, quais as formas de lidar com a constante mutação familiar, como nossos valores sobre a vida tem se dissipado, como recuperá-los, e de onde vem tanta violência gratuita numa sociedade que em tese representa a terra da paz, do futebol, do carnaval, e da tolerância. Mas as pessoas não estão nem preocupadas com o simples: o importante agora seria prestar atenção nos dois filhos do casal e na família que vai se destruir, e como apoiar as crianças para não prejudicar ainda mais sua formação. Todavia, temos um gosto crônico pela desgraça e não pela solução.

Onde entra RI nesse assunto? Se observarmos em outros países, perceberemos que um dos sinais mais perceptíveis de desenvolvimento é a capacidade coletiva de oferecer respostas efetivas nos momentos de dificuldades e nas tragédias. Muitas vezes, o preparo e a prevenção é o que lhes diminui a gravidade da repercussão. Países como o Canadá, no qual neva durante longos períodos, tem menos problema com interrupção das comunicações, dos acessos públicos, e do fornecimento de água e energia, do que o Brasil ou mais especificamente, São Paulo, que sofre com umas chuvas tropicais vez ou outra. É preciso cobrar que a seriedade exista não só diante da tragédia, mas da eminência da tragédia. E não substituir as discussões e os debates acerca das políticas públicas em mercê das manchetes jornalísticas e sensacionalistas que têm marcado a imprensa nacional nos últimos tempos. Essa eterna cobrança é nossa responsabilidade, cidadãos brasileiros. Enquanto cidadãos, temos que ficar menos mesquinhos e entender que após a solução do caso Nardoni, por exemplo, nossas vidas continuarão as mesmas, e que os problemas e as lições que podemos tirar disso é que é o mais significante. Agir em coletivo é agir consciente e democraticamente. Precisamos cobrar nossos governos para nos tratar com a seriedade necessária, mas sem esquecer que, a despeito de nossa mentalidade latina, o governo não é um monstro autônomo, mas pessoas, como cada um de nós, vocês e eu. E que aquilo que nós transparecemos, é aquilo que nosso governo transparecerá.


J. F.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Mundo em Questão 360°


Essa semana poderia bem ser apresentada como uma semana voltada para o diálogo, o que em Relações Internacionais não chega a ser um fenômeno extraordinário, ao menos se não nos detemos no conteúdo das conversações e negociações.

A China e o Dalai Lama iniciaram uma rodada de diálogo para a discussão da questão do Tibet, em foco atualmente bem às vésperas das Olimpíadas de Beijing. Após um dia de negociação, ambas as partes assinalam com a possibilidade de mais encontros para a continuidade das discussões sobre o tema. Ninguém pode negar que ao menos da parte do Dalai Lama um aceno para o diálogo não é de causar estranheza, já que esse foi o pedido que repetidamente fez no mínimo nos últimos anos, para não dizer décadas. Da parte do governo central comunista da China também não é de todo assustador. Às portas do início das Olimpíadas de Beijing, um grande outdoor para exibir ao mundo o progresso, o poder e a riqueza da China, o governo de Hun Jintao já teve aborrecimentos e propaganda negativa demais. E se continuarmos focando nas negociações e diálogos levando em conta, no entanto, a qualidade desses, uma questão se faz relevante. Claramente existem objetivos distintos e interesses adversos expostos na mesa de negociação. O governo central chinês procura a realização mais tranquila o possível da olimpíada sem propaganda negativa, ou pelo menos, mais propaganda do que já teve. Do lado do Dalai Lama, uma clara tentativa de resolver a cinquentona questão do Tibet. E o mais curioso é imaginar que um questão que se arrasta desde os anos 50 só vai ser abordada numa rodada pacífica e bilateral de diálogo por uma questão temporal bem menor: os poucos menos de cem dias que restam para a realização dos jogos. A única pergunta no ar e pendente é: será que esse processo vai se arrastar no pós-jogos e ser levado a sério pelo governo comunista da China? Esperamos que sim.

Diálogos também são a palavra da moda no Oriente Médio. Ehud Olmert e Mahmoud Abbas retomam os diálogos para a paz entre seus povos. Novamente a qualidade do diálogo pode ser questionada. Essa atitude é claramente incentivada por pressões norte-americanas que vê o processo vagaroso demais, e entende sua lentidão como uma quase falta de vontade ou má-vontade mesmo em buscar um consenso pacífico entre as partes. E é importante lembrar que a meta do governo Bush é entregar a Casa Branca para seu sucessor com a paz firmada entre palestinos e israelenses. Parece ser, no entanto, a meta só da administração Bush e não das partes envolvidas. Novamente, podemos questionar a temporalidade que move as coisas. Uma questão que se arrasta desde 1948 pode ser resolvida em qeustão de poucos meses até o fim do derradeiro mandato de George W. Bush? Mais uma vez, apesar de céticos, esperamos que sim.

Pensando na Casa Branca, a semana que entra pode ser marcada por fatos intrigantes na corrida eleitoral democrática pelo posto mais desejado no mundo. Os Estados norte-americanos de Indiana e Carolina do Norte serão a prova final do favoritismo de Barak Obama nas prévias do partido, pelo menos é o que indicam especialistas da área. Obama terá que provar nesses dois Estados que as recentes polêmicas nas quais se envolveu com a candidata adversária Hillary Clinton não abalou seu prestígio junto ao eleitorado. Esse humilde escritor que vos fala ainda acredita na força de Clinton como uma prova que para a sociedade americana será mais fácil vencer um preconceito só, a dois. É mais fácil escolher uma mulher a um negro e muçulmano. Dessa vez, torço para estar errado. É verdade que só a presença dos dois já supera preconceitos enraigados na sociedade norte-americana, mas a vitória de Obama superaria mais.

Eleições também foi o destaque na vizinha Bolívia. Dessa vez, não uma corrida eleitoral, mas o referendo que disutia a autonomia do Departamento de Santa Cruz, departamento mais rico do país. E diga-se de passagem, uma vitória esmagadora, na qual 80% decidiu pelo “sim” à autonomia. Muitos dirão que isso não arranha o prestígio de Evo Morales, mas podemos indicar que ao menos destaca que um processo de reconstrução nacional não é uníssono, unânime, nem singular. Há vozes nas divergências, e a ponderação política surgirá não no bom senso de nossos líderes, mas no contra-peso da oposição e no respeito às idéias e vontades distintas. É assim, que se faz democracia. Uma lição da própria democracia para nós, nem tão democráticos assim.

E isso é tudo.


J.F.

domingo, 4 de maio de 2008

A opção clássica do bacharel em Relações Internacionais: a carreira diplomática



A opção pela carreira diplomática figura como o caminho mais tradicional para o bacharel em Relações Internacionais. É impossível passar quatro anos estudando o funcionamento do sistema internacional sem em algum momento se colocar na pele de um dos atores mais importantes da vida internacional: o diplomata.

O curso de graduação em Relações Internacionais, por sua vocação multidisciplinar e generalista, é, inegavelmente, o mais indicado para aqueles que pretendem se debruçar sobre os estudos para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD). Ao tomar contato com temas de História, Diplomacia, Direito, Política Internacional, Economia e Teoria das Relações Internacionais ao longo do curso, o estudante de RI passa a construir uma sólida base conceitual e teórica, e ao mesmo tempo em que cursa a graduação já está automaticamente se preparando para o concurso. Atualmente, essa tendência tornou-se evidente visto que os egressos dos cursos de Relações Internacionais são o segundo grupo mais numeroso nas listas de aprovados para o Instituto Rio Branco, ficando somente atrás da tradicionalíssima formação em Direito

O diplomata é um servidor público federal que possui três funções essenciais: representar, negociar e informar. Esse profissional pode trabalhar tanto no Ministério das Relações Exteriores em Brasília, como em embaixadas e organismos internacionais em vários países nos quais o Brasil está diplomaticamente presente. Sinteticamente, pode-se dizer que o diplomata trabalha para elaborar posições negociadoras e propor linhas de ação que o seu país deve executar para dar concretude às diretrizes gerais de política externa formuladas pela Presidência da República e pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Para atingir seu objetivo, o diplomata processa informações e coloca em prática seu conhecimento para elaborar posturas políticas que favoreçam o interesse nacional do país que defende.

O Brasil, com sua fortíssima tradição diplomática, com uma academia diplomática de enorme prestígio internacional (o Instituto Rio Branco) e com a centralização absoluta da política externa nas mãos do Itamaraty, exige dos aspirantes a diplomata uma imensa carga de estudos e uma formidável bagagem cultural acumulada, uma vez que o exame de admissão por via de concurso público é a única e exclusiva forma de entrada na carreira. É um caminho penoso, e passar por essa porta estreita exige anos de dedicação aos estudos preparatórios, além de profundos conhecimentos em Línguas, sendo cobrados o Português com status eliminatório e o inglês e uma terceira língua como classificatórias.

Portanto, a aprovação na carreira diplomática é um projeto plurianual, que demanda essencialmente tempo, conhecimento acadêmico sólido, atualização constante e acompanhamento da realidade internacional, domínio completo de três idiomas, leitura mínima da densa bibliografia exigida e, principalmente, um arcabouço cultural bem acima da média.

Levando em consideração a dificuldade inerente à opção pela diplomacia, é crucial ponderar que a carreira diplomática implica em uma série de fatores que a diferenciam substancialmente das demais profissões. Para o senso comum, a carrière é sempre cercada por uma aura de glamour e de infindáveis prazeres sociais regados a caviar e champagne. Todavia, na realidade, o que se verifica é muito trabalho duro devido ao reduzido número de diplomatas, necessidade de adaptação a diferentes países e culturas e de um forte espírito de renúncia pessoal.

Em compensação, de acordo com o diplomata francês do século XVIII, François de Callières, “a decepção nos aguarda em todos os caminhos da vida, mas em profissão alguma os desapontamentos são tão amplamente superados por ricas oportunidades como na prática da diplomacia”. Portanto, a força de sedução da carreira diplomática e todo o fascínio que ela inspira decorrem das oportunidades douradas que o diplomata tem, no seu dia-a-dia, de conviver com pessoas interessantes, de poder conhecer o mundo e de ter contato direto com os bastidores da política internacional.

Encerro o artigo com a magistral definição da carreira diplomática proposta pelo Embaixador Mário Gibson Barbosa: "Confesso que não sei, até hoje, em que consiste uma vocação diplomática. Se por tal se entende o gosto fútil pelos prazeres mundanos, pelas festas de sociedade, então o equívoco é grave e pode ser funesto. Pois ser diplomata é, antes de tudo, aceitar a condição de estrangeiro, na maior parte existência. É conformar-se em viver num país que não é o nosso e que nunca nos aceitará totalmente, por mais que nele possamos criar um círculo, sempre provisório, de relações, num meio que devemos cuidadosamente respeitar para não ferir suscetibilidades, pois a crítica não é tolerada quando provém de um estrangeiro. É resignar-se a viver longe da família e dos amigos, a ponto de, por causa das prolongadas ausências, faltarem assuntos quando nos reencontramos. É ficar fisicamente afastado do povo a que pertencemos e que forma o nosso substrato psicológico e social. É ter equilíbrio emocional para, muitas vezes, suportar a solidão. É possuir ou adquirir a qualidade de saber adaptar-se. É ter gosto pela negociação e pela conciliação, resistindo ou cedendo conforme o caso, para chegar a um fim que nunca será inteiramente satisfatório. É ter a humildade de se converter num especialista em generalidades, em saber pouco de muito em vez de muito de pouco, ao contrário, portanto, do que caracteriza o técnico."

PS: Duas leituras podem ser muito valiosas para aqueles que se inclinam para a opção da carreira diplomática e querem conhecer mais sobre a vida do diplomata e sua atividade profissional:


  1. Os bastidores da diplomacia: O Bife de Zinco e outras histórias, do diplomata e ex-embaixador brasileiro no Chile, Guilherme Luiz Leite Ribeiro. Publicado pela editora Nova Fronteira, 2007.

  2. O Instituto Rio Branco e a diplomacia brasileira: um estudo de carreira e socialização, da antropóloga Cristina Patriota de Moura. Publicado pela Editora FGV, 2007.


Leonardo Queiroz Leite, graduado em Relações Internacionais pela UNESP-Franca e membro da ADESG desde 2005, é nosso convidado especial para compor a seção Especial Carreira.

sábado, 3 de maio de 2008

As lésbicas e o povo de Lesbos



Essa seção é comumente destinada à discussão da cultura no âmbito internacional. Mas o que vou discutir hoje não deixa de ser exatamente um aspecto cultural.

Há muito tempo a rudeza e o machismo exasperado deixou de reinar no que tange às discussões sobre a homossexualidade feminina e o termo “sapatão”, ainda utilizado reconhecidamente pelo menos no dia a dia, cedeu espaço a denominações menos agressivas e mais sutis, como lésbica. Até porque aquele estereótipo da mulher homossexual como uma réplica de um homem grosseirão e pouco refinado caiu por terra com o desabrochar menos reprimido da sexualidade feminina e a descoberta da sensualidade e sutileza que o sexo homossexual feminino revelou.

Assim, homens e mulheres modernas passaram a denominar de lésbica e lésbico o ato sexual que envolvesse duas mulheres apenas. Porém, agora essa denominação pode estar arriscada de ficar ultrapassada e indevida também. Três habitantes de uma pequena ilha da Grécia movem uma ação na justiça que talvez possa mudar em muito a forma como nos pronunciamos e denominamos a questão novamente.

Você sabe de onde vem a palavra “lésbica”? É grega. É utilizada com essa denominação devido à poetisa grega Safo, que viveu no século 7 A. C., e que possivelmente teria relações sexuais com suas aprendizes do sexo feminino. Safo era de uma pequena ilha grega chamada Lesbos, a mesma dos nossos três contenciosos.

Dessa forma, lésbica passou a ser a mulher que contrai relações com outra. A questão é que daí podem incorrer uma série de mal-entendidos. O primeiro é que qualquer mulher nascida em Lesbos é lésbica impreterivelmente. Não, não estou afirmando que todas são homossexuais, mas informando que qualquer coisa que venha de Lesbos é lésbica ou lésbico em alguns idiomas, inclusive na Grécia.

Outro mal-entendido incorre da própria Safo. A História parece apontar para outras versões de sua vida pessoal, como a de que teve família e se suicidou pelo amor de um homem. Mas, ainda assim, não há mais como mudar a semântica já definida. Mal para Safo.

A ação corre na justiça grega contra uma associação de sigla Alke (sigla em grego), que basicamente é algo como associação de gays e lésbicas da Grécia. Bom, apesar da associação julgas descabida a ação, realmente deve ser bem desconfortável para o povo de Lesbos ser confundido o tempo todo. Imaginem uma mulher de lesbos que sai para estudar em Atenas, por exemplo. “De onde você é?” “Sou lésbica. Sou de Lesbos”.

Não vejo, sinceramente, problema para abandonarmos os termos, pejorativos ou não, e adotarmos apenas a denominação correta de homossexual para qualquer humano que assim prefira ser denominado. Mas parece improvável que a ação vá resultar na alteração da sigla da associação, e quase impossível que vá alterar a forma como nos referimos aos homossexuais do sexo feminino.

Duas curiosidades vêm a calhar. A primeira, é importante observar quantas vezes o termo “feminino” foi utilizado nesse artigo. A homossexualidade não tira a feminilidade de ninguém. Portanto, não há motivos para denominações excludentes ou preconceituosas. Outro ponto é a própria semântica do termo “lésbica”. Como disse, ele coincide com o adjetivo utilizado para os habitantes da ilha em algumas línguas ao redor do mundo, inclusive em grego. No entanto, podem ficar tranquilos. No português, quem vem de Lesbos é lésbia.

E isso é tudo.


J. F.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O dia do diplomata e a questão de Itaipu



No último dia 29 comemorou-se o dia do diplomata. A data festiva teve evento solene realizado no palácio do Itamaraty, com a presença do presidente Lula, e complementado pela formatura da turma 2005-2007 de diplomatas do Instituto Rio Branco.

O dia do diplomata é um dia para lembrarmos de uma opção de carreira de muito valor e muita entrega. E apesar da opinião geral de que um diplomata seja um homem de finos gestos e requintados hábitos cercado por prazeres e souvenires de elevada preciosidade, o diplomata é acima de tudo, um guerreiro cuja arma são as palavras e a busca pelo melhor termo.

É inegável a frustração à qual um diplomata está diariamente exposto no exercício de suas funções. Um diplomata é acima de tudo um sonhador que vê dia a dia a necessidade de lidar com seus sonhos sempre no plano duro e feroz da realidade. O diplomata não parece ser o tipo de pessoa que foge à uma guerra, mas claramente se mostrará desnecessário num ambiente em que a sensatez e o respeito pela humanidade se perder. Porém, sem equívocos desatenciosos, não se faz a guerra sem um diplomata, mas certamente sua missão mais solene e intrincada é construir a paz, vendo-a crescer em suas atitudes zelosas e dedicadas.

O presidente Lula talvez se pergunte se é possível a um diplomata a solidariedade e a dureza do serviço de Estado, e encontre resposta positiva para tal. De fato, é impossível imaginar o exercício de uma diplomacia autônoma e digna se esta se atém de seu compromisso com a solidariedade na busca da concretização de seus ideais. Uma diplomacia sem solidariedade não poderá, de forma alguma, ser a diplomacia de um Estado democrático que aspire sua liberdade e a liberdade de todos os povos. Uma diplomacia sem solidariedade será um diplomacia em parte manca e cega.

Enquanto as novas turmas de diplomatas se formam para o exercício altruísta e exímio da diplomacia, o chanceler Celso Amorim e o presidente Lula ainda se vêem às voltas com a questão da renegociação de preços para a energia produzida em Itaipu não utilizada pelo Paraguai e comprada pelo Brasil. Em Gana, o presidente afirmou não ter intenções de rediscutir o acordo com o país vizinho, enquanto Amorim aceita a possibilidade de renegociação do valor pago.

O Itamaraty afirma que não há contradição na declaração de ambos. O presidente Lula não aceita refazer o acordo nem rediscutir a fórmula de cálculo para o montante pago. Amorim aceita rediscutir os valores, mas não a fórmula e o acordo. Então, não falam da mesma coisa. Fernando Lugo, presidente paraguaio recém-eleito parece acenar por uma renegociação do acordo, evento que não apetece a diplomacia brasileira. Uma renegociação do acordo resultaria num repasse do valor estabelecido para o consumidor. Um aumento de valores sem a renegociação da fórmula e do acordo, não.

Curiosamente, para o diretor-geral da usina, Jorge Samek, o valor pago atualmente pelo Brasil é justo. Entretanto, acredito que seja totalmente considerável um reajuste no valor. O Brasil não prejudicaria seus interesses se rediscutisse valores atualizados para os 45% de energia excedente que compram do Paraguai, desde que a fórmula de cálculo que leva em conta inúmeros outros fatores como modernização da usina, investimentos em máquinas, contratação de pessoal, ações socioambientais, além do abatimento do financiamento da obra, que atualmente gasta 2 bilhões dos 3,2 bi que a usina gera, abatimento esse que se segue até o término da dívida em 2023.

Uma renegociação dessa fórmula é o que nos parece mais descabido nesse momento. Entretanto, é totalmente justo que o Paraguai busque um melhor aproveitamento desse seu recurso. E num mundo em que a Bolívia e a Venezuela podem sair nacionalizando tudo com base numa torta e descabida justificativa bolivariana, um aceno de interesse de rediscussão não parece ser tão agressivo ou unilateral assim.


J. F.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O dia primeiro de maio no Circo Máximo



Sempre que chega o primeiro de maio, chegam junto algumas questões e confusões. Primeiramente, é dia do trabalho ou dia do trabalhador?

O correto é dia do trabalhador, mas no Brasil, com nossa inconveniente jocosidade sempre de plantão e à flor-da-pele, transformou-se a data em dia do trabalho, e assim, não perder a piada e a ironia de que no dia do trabalho não se trabalha. Ironias à parte, à simples aceitação de que o correto seja dia do trabalhador, detalhes sutis precisam ser melhor esmiuçados.

No Brasil, o dia do trabalhador é comemorado desde o início do século XX. Diferente de países irmãos como Portugal, a celebração da data nunca foi interrompida, mesmo durante o período do Estado Novo. Mas, peculiaridades brasileiras como sempre, a data apresentou evolução singular e descobriu os acidentes das esquinas da História de nosso país, sendo facilmente apropriada e assimilada pelas estruturas de poder e transformada em mais um instrumento de dominação e controle das massas e dos movimentos legitimamente constituídos pelas classes trabalhadoras.

Quando Getúlio Vargas subiu ao poder, a data que até então era marcada por piquetes, passeatas e manifestações, foi lentamente elaborada como o dia do trabalhador, um dia de festa e comemoração, com grandes eventos públicos e serviços de utilidade dispostos no mesmo lugar. Assim, o caráter de protesto e reinvidicação do dia do trabalhador se perdeu, e no lugar o que surgiu foi uma data de festa e frivolidade comumente confundida com dia do trabalho como se a data fosse um momento para festejar as virtudes de se ter um emprego, colocando-se em segundo plano as reinvidicações da classe e o passado de luta pelos próprios direitos. De Getúlio a Paulinho da Força sindical, não verificamos tantas mudanças assim, e o dia do trabalhador permanece sendo um palanque e uma plataforma de lançamento e auto-promoção de políticos pouco ou nada comprometidos com as causas trabalhistas.

Mas você sabe quando e por que surgiu o dia do trabalhador? A data celebra uma manifestação de trabalhadores em Chicago, nos EUA, no ano de 1886 que culminou numa greve geral. No esquecido dia 3 de maio, a polícia dispersou um levantamento de trabalhadores com violência e culminou por matar alguns manifestantes. A reinvidicação principal do movimento de 1886 era a redução da jornada de trabalho para 8 horas por dia. Nos anos seguintes a data de primeiro de maio foi escolhida na segunda internacional comunista para marcar o dia pela luta para a redução da jornada de trabalho para as oito horas diárias. Em 1891, na França, as reinvidicações de primeiro de maio novamente resultaram em violência e morte. Em países como a França, apenas em 1919 se conseguiu a redução. Nos EUA, o feito foi alcançado em 1890.

Quando vemos as celebrações organizadas por centrais trabalhistas e sindicais no Brasil, com grandes shows e apresentações pirotécnicas de populismo disfarçado em trabalhismo, devemos sempre nos lembrar dos acontecimentos de 1886 e 1891. E entender, que esse circo quase sempre regado à pão nos novos Coliseus e Circos Máximos da era moderna, oculta, sob a face mais amigável do patriarcalismo estatal, a grandiosa trajetória em busca de dignidade e direitos reais e concretos que as lutas laborais passou. E que o trabalhador, muitas vezes em busca de alguns minutos de diversão e satisfação na presença de seus artistas prediletos, desconhece totalmente.

E isso é tudo.


J. F.