
Como esse era o primeiro Palavra a palavra do blog, eu tinha a idéia de abordar alguma citação ou trecho de declaração de alguma personalidade destacada no mundo das Relações Internacionais. Porém, após o ciclone que assolou Santa Catarina, as chuvas que devastaram a grande Porto Alegre, os 16 pontos de alagamento em São Paulo na semana passada, e o naufrágio do barco Comandante Salles 2008 nas águas do rio Solimões no Amazonas, para não falar do caso já esgotado e totalmente alvo de sensacionalismo da Isabela Nardoni, resolvi optar por uma frase menos da área, mas muito importante para meu raciocínio.
A frase é do ex-presidente francês e líder da resistência ao nazismo, Charles de Gaulle: “O Brasil não é um país para ser levado a sério”. Muita gente ainda hoje se ofende com a declaração do sábio francês, apesar de sinceramente, não compreender bem o por que desse aborrecimento.
É verdade que ciclone assola vários países desenvolvidos no mundo causando tanta ou mais destruição. Chuva também não é um problema só nosso. Na verdade, problemas causados pelas forças da natureza não podem fazer com que os homens sejam condenados. Será?
Ninguém está sugerindo que se controle o tempo, a chuva, os ventos. Mas sempre que alguma coisa do gênero ocorre no Brasil, e tal, espetáculo televisivo nas esferas globais de comunicação, toma proporções grandiosas, se percebe o quanto se estava despreparado para uma situação de emergência. E após toda a comoção causada pela televisão, o problema segue sem solução, com declarações, sejam de homens públicos do poder, sejam de supostos especialistas consultados, de que esse imprevisível infelizmente faz parte e que essa é mais uma catástrofe para se guardar na história. O que não vemos é ninguém dizendo que espera que o acontecido sirva de lição para novos aprendizados.
Há quantos anos São Paulo sofre com as chuvas e os alagamentos. É verdade que no caso dessa cidade, percebemos investimentos na tentativa de sanar tal problema, além de uma reconhecida melhora nos últimos anos. Mas o problema continua lá. Assim como o problema do trânsito. Assim como o problema de Congonhas. Na ocasião do acidente com o avião da TAM, a comoção causada foi tão grande que só se falava nisso. Muitos supostos especialistas opinavam incessantemente sobre o assunto. Uma nova manchete toma o lugar e o problema é esquecido. E temos que lidar com o assunto como se o assunto fosse mais uma catástrofe atípica com a qual temos que aprender a lidar. Mas uma pista pequena, sem as regras técnicas adequadas, numa sobrecarga de vôos, com operadores insuficientes e com instrumentação inadequada, e bairros residenciais no entorno, não é exatamente o que costumamos denominar de “lamentável incidente”. Uma prova disso, nesse assunto, é a declaração de Tarso Genro à época que dizia que quando Congonhas foi construído não haviam residências em seu entorno. É verdade. Então por que deixaram construir, ministro?
São Paulo está velha e em alguns pontos decadente. E o alagamento vem muito em função de ninguém ainda tratar o problema como se o problema fosse algo para ser combatido e não para ser lamentado. Precisa falar da linha amarela do metrô, paralisada desde o desmoronamento de uma das estações, que agora está com a obra embargada desde então para que a perícia tenha certeza da qualidade das soldas utilizadas em toda a obra? Enquanto isso a cidade sofre com o transporte público de péssima qualidade de muito caro, para não falar do trânsito.
Em Porto Alegre, se não me engano, não faz muito tempo que choveu, como diz o gaúcho, barbaridade. No ano passado um problema muito semelhante com o de agora ocorreu na mesma grande Porto Alegre. Alguém sabe das medidas eficazes e amplas que foram tomadas para evitar que se sucedesse novamente. E ainda que consideremos que as medidas foram tomadas, obviamente não foram eficientes, ou a situação não teria se repetido e dessa vez agravada.
Quando se vê as regiões alagadas e destruídas pelas chuvas e pelo ciclone tropical, em sua grande parte se vê regiões carentes. Casas de madeira, sem reboco, obviamente construídas sem aval dos órgãos competentes e sem averiguação da competência de uso após terminadas. Muitos especialistas vão culpar a população e atribuir a isso parte do problema, mas alguém já se informou da burocracia e dos custos de legalizar um imóvel e uma construção? E o preço do cimento, da areia, dos tijolos, das tintas? Some uma coisa à outra, e logo você perceberá que no Brasil o ideal é o pobre não ter mesmo uma casa própria. É por isso que ainda hoje, em pleno século XXI, a casa própria é uma conquista.
O barco que afundou no Amazonas é outro exemplo típico. O barco não era regulamentado, mas era novinho em folha. Irresponsabilidade de quem lança às águas um barco não regulamentado e comprovadamente habilitado para navegar. Irresponsabilidade de quem adentra um barco nessas condições sem se informar. Porém, a própria Capitania dos Portos reconhece não ter estrutura técnico-operacional para fazer a fiscalização adequada e devida. Bom, vale mencionar que até bem pouco tempo atrás a fronteira entre Brasil e Argentina era patrulhada por apenas um jipe?
O caso da garota Nardoni é outro exemplo clássico para se entender o por que que só o governo não é o culpado por tudo isso. Enquanto todo mundo, que parece não ter mais com o que se preocupar, especula detalhes do suposto crime, ninguém se preocupa com o que realmente importa: uma discussão ampla e geral de como andamos criando nossos filhos, como a família tem se constituído nesses tempos, quais as formas de lidar com a constante mutação familiar, como nossos valores sobre a vida tem se dissipado, como recuperá-los, e de onde vem tanta violência gratuita numa sociedade que em tese representa a terra da paz, do futebol, do carnaval, e da tolerância. Mas as pessoas não estão nem preocupadas com o simples: o importante agora seria prestar atenção nos dois filhos do casal e na família que vai se destruir, e como apoiar as crianças para não prejudicar ainda mais sua formação. Todavia, temos um gosto crônico pela desgraça e não pela solução.
Onde entra RI nesse assunto? Se observarmos em outros países, perceberemos que um dos sinais mais perceptíveis de desenvolvimento é a capacidade coletiva de oferecer respostas efetivas nos momentos de dificuldades e nas tragédias. Muitas vezes, o preparo e a prevenção é o que lhes diminui a gravidade da repercussão. Países como o Canadá, no qual neva durante longos períodos, tem menos problema com interrupção das comunicações, dos acessos públicos, e do fornecimento de água e energia, do que o Brasil ou mais especificamente, São Paulo, que sofre com umas chuvas tropicais vez ou outra. É preciso cobrar que a seriedade exista não só diante da tragédia, mas da eminência da tragédia. E não substituir as discussões e os debates acerca das políticas públicas em mercê das manchetes jornalísticas e sensacionalistas que têm marcado a imprensa nacional nos últimos tempos. Essa eterna cobrança é nossa responsabilidade, cidadãos brasileiros. Enquanto cidadãos, temos que ficar menos mesquinhos e entender que após a solução do caso Nardoni, por exemplo, nossas vidas continuarão as mesmas, e que os problemas e as lições que podemos tirar disso é que é o mais significante. Agir em coletivo é agir consciente e democraticamente. Precisamos cobrar nossos governos para nos tratar com a seriedade necessária, mas sem esquecer que, a despeito de nossa mentalidade latina, o governo não é um monstro autônomo, mas pessoas, como cada um de nós, vocês e eu. E que aquilo que nós transparecemos, é aquilo que nosso governo transparecerá.
J. F.