terça-feira, 4 de março de 2008

Bobbio, você já sabia!

Hélio Afonso Filho
Para aqueles que não conseguem enxergar a profundidade que as Relações Internacionais e seus estudos podem alcançar, espero que após esse artigo possam repensar a importância devida e a magnitude de seus esforços, que não só sobrevivem da diplomacia estatal ou do saber lhe dar com pessoas de outros países. Há mais coisas entre um paradigma e uma teoria que o vão Henry Kissinger pode explicar.
A complexa rede de informações que formam as Relações Internacionais abre imensos espaços os quais podemos seguir e nos perder nessas “infinitas highways”. Foi numa dessas que percorri um longo caminho de estudos e devaneios até chegar ao ponto de escrever sobre o futebol e seu universo extra-campo. Descobri que dentro deste mundo havia um oceano azul para quem desejasse explorá-lo. E assim fui desenvolvendo comparações e interligações entre o tal esporte e a minha área de estudos, até que alguns dias atrás encontrei o meu camafeu.
Dei-me de olhos numa declaração do soberano presidente da FIFA, entidade máxima que rege o futebol no mundo, Josseph Blatter, o qual afirma categoricamente que o seu micro-universo acarpetado, localizado na pacata Suíça, é mais “popular e importante que a ONU”. Não sei se essa comparação é saudável, já que a finalidade e a razão de ambas são diferentes, apesar de a FIFA fazer vez de ONU e se saindo com resultados talvez muito mais interessantes que o “monstro” idealista que rege a ordem caótica internacional. Entretanto, o que me chamou mais atenção nisso tudo foi o motivo pelo qual essa frase fora expelida com tamanha presunção e ousadia. O direito ou não de intervenção do governo espanhol na federação de futebol do país, ferindo assim além dos direitos de autonomia e soberania de decisões daquela instituição, bem como o ego do pequeno príncipe da entidade máxima do futebol.
Que me perdoe Saint-Exupery, mas para explicar as ações deste príncipe só Norberto Bobbio pode nos dar. Chegamos então em um tema tão controverso quanto quem é melhor Pelé ou Maradona. Apesar de sabermos que Pelé fora muito melhor que o argentino, encontramos pessoas que pensam o contrário, assim acontece também com o conceito e a aplicação da soberania no cenário internacional. Para entender melhor sobre esse assunto, só lendo a obra de Robert Louis Stevenson “O Médico e o Monstro”, que acaba sendo uma perfeita analogia para o binômio Guerra/Paz, o qual é a fonte de explicação de Bobbio para tal fenômeno internacional.
Outro agravante nesse imbróglio é a situação do Estado espanhol. Com certeza, para expelir uma frase tão contundente e a manter uma postura ousada e rígida, a qual prometia excluir a melhor e segunda mais rentável liga do mundo caso prosseguisse com a intervenção governamental, para isso o presidente Blatter levou muito em conta a política interna daquele Estado, que vaga entre o “ser” e o “dever ser”. Como ser soberano em um país que sofre com um território completamente dividido por nações diferentes e com um poder central que carece em muito de legitimidade?
Ao mesmo tempo, com uma estratégia ofensiva/defensiva extremamente bem elaborada, o Bismarck das terras helvéticas consegue evitar uma ação sem precedentes em um de seus braços mais bem desenvolvidos e rentáveis, o que certamente abriria passagem direta aos porões da Casa FIFA onde encontrariam muitos traços que abalariam o maior esporte do mundo. O ataque ainda é a melhor defesa e assim o pequeno príncipe parte para cima dos Estados e de sua representação maior tentando evitar que seu trono avaliado em mais de US$ 200 bilhões pegue uma cauda de cometa e se perca entre os vários mundos galáxia a fora.
Portanto, a questão da soberania estatal ainda nos dá margem a diferentes abordagens e ações e com isso seu princípio de utilidade no meio internacional vai sendo minado. A própria ONU é fruto da abstenção de parte desta soberania de cada Estado-membro em prol de um “ser” maior, mas que acaba em pleno século XXI tendo a sua legitimidade contestada e desprezada por uma organização internacional que resolveu agir por conta própria para garantir seus direitos e sua ordem. Eu ainda fico com o Bobbio, um dos últimos profetas das Relações Internacionais, que já analisava a soberania como um dos fatores que gerava esse caos entre os Estados e enquanto não substituísse esse princípio ou encontrasse algo melhor para substituí-lo acabaríamos sempre em guerras e disputas, já que ninguém se enxerga menos soberano que outro. Acabamos que dentro da comparação FIFA e ONU, a primeira instituição serve de modelo de organização e de regras bem definidas, bem como de legitimidade e de soberania internacional mais efetiva. Será que devemos ver mesmo a floresta e não só a árvore?!

Hélio Afonso Filho, da equipe Mundo em Questão, internacionalista graduado pela Universidade Católica de Goiás; pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV; Trabalha atualmente na Associação Atlética Anapolina e na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, desenvolvendo trabalhos de Marketing e Relações com Investidores.