terça-feira, 11 de março de 2008

São Gigantes ou Moinhos de Vento?!

Hélio Afonso Filho
Estivemos por muito discutindo sobre um tema importante da novíssima agenda internacional de nosso país: o conflito gerado pela invasão colombiana no território equatoriano deu o que falar e promete ainda alguns capítulos, talvez com adesão de outros atores no meio deste cenário surreal e inenarrável. Esgotamos nossos estoques de retóricas e questionamento acerca desse tema, o que na gestão de negócios seria um feito admirável, já que abriria espaço para novos e diferentes produtos. Nas Relações Internacionais esse pensamento não é diferente, a gama de acontecimentos e fenômenos a nossa disposição para analisar é enorme e as correntes de pensamento também são diversas, bem como as divergências e discussões geradas por esses grandes debates.
A fim de iniciar um novo debate é que irei abordar uma questão que passou despercebida do grande público nas últimas semanas. Uma outra crise que agride diretamente os direitos humanos e internacional; o Tratado de Roma; fere a constituição da União Européia além de abrir espaços para precedentes mais perigosos, que beiram a insanidade e a intolerância dentro dos países, gerando desgaste na boa relação entre Espanha e Brasil.
A crise diplomática veio à tona em meados do mês passado quando uma estudante brasileira não conseguiu, mesmo com seu visto e toda papelada necessária, entrar no país europeu para exercer um direito adquirido e garantido pelo poder espanhol dentro do território brasileiro. A partir deste fato foram descobrindo, sistematicamente, casos semelhantes e que culminaram com as extradições de centenas de cidadãos brasileiros e acusações de maus-tratos do setor responsável pela imigração daquele país. Esses casos vão gerando indagações que não foram explicadas e talvez só pudessem ser entendidas com uma análise profunda na história das relações interna e externa desses países em litígio diplomático.
A política interna espanhola é historicamente conturbada por graves problemas de ordem geopolítica e nacionalista. O governo central carece de legitimidade, pois seu território é completamente dividido em mini-nações que operam com uma fina e tensa relação com Madri. E foi justamente nesta corda bamba que os brasileiros se dispuseram a andar. Apesar da solidificação da economia nesses últimos anos e de experimentar crescimento a cima da média regional, os problemas sociais ainda assombram a todos e a bola da vez agora é o desemprego. Nesses últimos meses de Governo Zapatero, mais de 8% da população economicamente ativa estava fora do mercado de trabalho. Com isso ressurgiu o fantasma de um nacionalismo extremado e xenófobo. Os imigrantes ficaram com o gume mais afiado desta faca de duas faces e estão sentindo na pele o resultado de anos dessa intolerância velada. E como resposta ao “grande” problema da opinião pública espanhola, o recém-reeleito, Zapatero acha que barrando os imigrantes brasileiros em um ato totalmente hostil e inapropriado, conseguirá contornar a situação, a qual, quase lhe custou o posto de Primeiro-Ministro.
Mas a culpa não reside somente na terra de Cervantes, temos sim nossa parcela de culpa. Parece que o brasileiro herdou aos espanhóis a busca do El Dourado perdido, e muitos de nós acabou por encontrá-lo onde Colombo, Hernán Cortez, dentre outros, esqueceram quando partiram. É claro que, os “Gigantes” como a Telefônica e o banco Santander, além da forte economia européia, fantasiaram em nossas mentes “moinhos de vento” e ficamos a flutuar entre a inocência e a ignorância, assim como Quixote, sem saber o que fazer quando algo assim acontece. E muito me estranha a resposta do Itamaraty de pagar na mesma moeda, utilizando o princípio da reciprocidade. Soa-me como uma briga de criança, completamente estúpida e irracional. Em qualquer um dos casos, fica evidente a necessidade de democratizar os estudos de Relações Internacionais e melhorar, de forma geral, a educação no país, para que não precisemos mais passar por esses constrangimentos diplomáticos e aprendamos, de uma vez por todas, que o mundo é mais que carnaval e futebol.

Hélio Afonso Filho, da equipe do Mundo em Questão, graduado em Relações Internacionais pela UCG, pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV. Atualmente trabalha na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, onde desenvolve trabalhos de Marketing e Relações com Investidores. Também se dedica aos estudos sobre processos de Integralização no caso Europeu e Latino Americano e desenvolve também trabalhos na área Futebol-Relações Internacionais.