
A China e o Dalai Lama iniciaram uma rodada de diálogo para a discussão da questão do Tibet, em foco atualmente bem às vésperas das Olimpíadas de Beijing. Após um dia de negociação, ambas as partes assinalam com a possibilidade de mais encontros para a continuidade das discussões sobre o tema. Ninguém pode negar que ao menos da parte do Dalai Lama um aceno para o diálogo não é de causar estranheza, já que esse foi o pedido que repetidamente fez no mínimo nos últimos anos, para não dizer décadas. Da parte do governo central comunista da China também não é de todo assustador. Às portas do início das Olimpíadas de Beijing, um grande outdoor para exibir ao mundo o progresso, o poder e a riqueza da China, o governo de Hun Jintao já teve aborrecimentos e propaganda negativa demais. E se continuarmos focando nas negociações e diálogos levando em conta, no entanto, a qualidade desses, uma questão se faz relevante. Claramente existem objetivos distintos e interesses adversos expostos na mesa de negociação. O governo central chinês procura a realização mais tranquila o possível da olimpíada sem propaganda negativa, ou pelo menos, mais propaganda do que já teve. Do lado do Dalai Lama, uma clara tentativa de resolver a cinquentona questão do Tibet. E o mais curioso é imaginar que um questão que se arrasta desde os anos 50 só vai ser abordada numa rodada pacífica e bilateral de diálogo por uma questão temporal bem menor: os poucos menos de cem dias que restam para a realização dos jogos. A única pergunta no ar e pendente é: será que esse processo vai se arrastar no pós-jogos e ser levado a sério pelo governo comunista da China? Esperamos que sim.
Diálogos também são a palavra da moda no Oriente Médio. Ehud Olmert e Mahmoud Abbas retomam os diálogos para a paz entre seus povos. Novamente a qualidade do diálogo pode ser questionada. Essa atitude é claramente incentivada por pressões norte-americanas que vê o processo vagaroso demais, e entende sua lentidão como uma quase falta de vontade ou má-vontade mesmo em buscar um consenso pacífico entre as partes. E é importante lembrar que a meta do governo Bush é entregar a Casa Branca para seu sucessor com a paz firmada entre palestinos e israelenses. Parece ser, no entanto, a meta só da administração Bush e não das partes envolvidas. Novamente, podemos questionar a temporalidade que move as coisas. Uma questão que se arrasta desde 1948 pode ser resolvida em qeustão de poucos meses até o fim do derradeiro mandato de George W. Bush? Mais uma vez, apesar de céticos, esperamos que sim.
Pensando na Casa Branca, a semana que entra pode ser marcada por fatos intrigantes na corrida eleitoral democrática pelo posto mais desejado no mundo. Os Estados norte-americanos de Indiana e Carolina do Norte serão a prova final do favoritismo de Barak Obama nas prévias do partido, pelo menos é o que indicam especialistas da área. Obama terá que provar nesses dois Estados que as recentes polêmicas nas quais se envolveu com a candidata adversária Hillary Clinton não abalou seu prestígio junto ao eleitorado. Esse humilde escritor que vos fala ainda acredita na força de Clinton como uma prova que para a sociedade americana será mais fácil vencer um preconceito só, a dois. É mais fácil escolher uma mulher a um negro e muçulmano. Dessa vez, torço para estar errado. É verdade que só a presença dos dois já supera preconceitos enraigados na sociedade norte-americana, mas a vitória de Obama superaria mais.
Eleições também foi o destaque na vizinha Bolívia. Dessa vez, não uma corrida eleitoral, mas o referendo que disutia a autonomia do Departamento de Santa Cruz, departamento mais rico do país. E diga-se de passagem, uma vitória esmagadora, na qual 80% decidiu pelo “sim” à autonomia. Muitos dirão que isso não arranha o prestígio de Evo Morales, mas podemos indicar que ao menos destaca que um processo de reconstrução nacional não é uníssono, unânime, nem singular. Há vozes nas divergências, e a ponderação política surgirá não no bom senso de nossos líderes, mas no contra-peso da oposição e no respeito às idéias e vontades distintas. É assim, que se faz democracia. Uma lição da própria democracia para nós, nem tão democráticos assim.
E isso é tudo.
J.F.
