quinta-feira, 20 de março de 2008

A guerra nos tempos do cólera

Odair j. de Araújo Junior
Fazem cinco anos que a guerra no Iraque teve seu início. Cinco longos anos, que atravessaram dois mandatos de Geroge W. Bush e provavelmente vão irromper sem reservas pelo mandato do próximo presidente, seja McCain, Obama ou Clinton.
Em dados oficiais, 90 mil civis iraquianos foram vitimados e 4 mil soldados americanos também. Em termos analíticos, a guerra do Iraque é apenas uma extensão à oeste do plano anti-terrorismo do governo da Casa Branca, ou em suas próprias palavras, a desestruturação do eixo do mal. O Iraque não seria o último, e o Irã pareceu por diversas vezes estar na fila de ação norte-americana. O que pode ter salvado Ahmadinejad além da ousadia de uma intervenção também em solo iraniano, certamente é a ainda funcional democracia americana. Bush filho não teria apoio, tempo, nem dinheiro para fazê-lo antes do fim de seu mandato. Mas o que dizer de seus possíveis sucessores? Obama atacou um pastor e discursou favorável à união de gays. Clinton e McCain são bolhas de mistérios suspensas em suas próprias considerações.
Essa guerra contra o terror já teve suas melhores fases. Um Rambo televisionado e real, com impresionantes brinquedinhos de matar em ação. Um show espetacular de como se construir, e o principal, impor unilateralmente uma democracia. Vimos embates no Conselho de Segurança da ONU, vimos mísseis acertarem o alvo como num jogo de PlayStation. Vimos o príncipe da Inglaterra mostrar valor e servir à Rainha, sua avó, por sinal, como um cavaleiro medieval cheio de boas intenções. Quase um príncipe encantado. Faltou-lhe o cavalo branco, a espada na cintura, e um dragão à tira-colo. Seria por sinal, acaso tivesse isso tudo, ótimo partido para Mia Termópolis, e seria protagonista de O Diário de uma Princesa III. Mas os sábios conhecedores de RI não veriam este filme, claro.
Mas em matéria de Oscar, o que dizer da pena de Saddam Hussein. Não chegou nem à beira de Coração Valente, de Mel Gibson e sua atuação como William Wallace, mas deu para o gasto. O próprio Saddam, que Deus o tenha, ou o diabo, não tinha muito em comum com Wallace. O importante é que, nessa guerra contra o terror, ou contra o mal, nem sempre há vencedores, nem sempre há mocinhos, e quase sempre há lados e perspectivas para contar. Pensando assim, me lembro de uma aula na faculdade e da inquietação de uma sagaz e observadora colega. E o que é o Mal? Um bicho que vive nas profundezas do Castelo Rátimbum? George W. Bush deve ter se perguntado disso algumas vezes. Os afegãos e iraquianos, muitas.
Diferente de guerras como a II Guerra Mundial, dessa vez, o "mal" tem quem conte sua versão dos fatos: os próprios americanos. Claro, a parte não alienada que ainda se utiliza de seu cérebro para fazer seus próprios julgamentos. Talvez, nesse caso, ou esses americanos sofram da Síndrome de Estocolmo, ou o mal não seja tão mal assim.
Na era da guerra televisionada, os números ganham unidade e as estatísticas ganham em emoção. Os 94 mil mortos aproximados do conflito no Iraque, sem contar os envolvidos no Afeganistão, pareceram bem mais nas nossas telas de LCD ao redor do mundo. Bem mais do que foram os milhões de mortos em outros tempos.
Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.