sábado, 8 de março de 2008

O adeus ao McDonald's?

Stella Menegucci Nogueira de Freitas
A biologia ensina o ciclo nascer-crescer-reproduzir-morrer. Mas as Relações Internacionais também adotam tal ciclo, mas para um outro tipo de organismo vivo: a hegemonia das grandes potências. Um dia, o Brasil e parte do mundo se viram apaixonados pelo status europeu. O chic entre os nobres brasileiros era estudar na Europa; as roupas da nobreza brasileira, com camadas e mais camadas de tecidos, luvas, rendas e babados, simplesmente européia, em nada condizia ao clima tropical e ao chão de terra batida; o charme de Paris. La Ville De Lumière! A língua falada entre membros da elite era o francês, sendo que o português era usado para falar com os vassalos. Enfim, os descendentes dos colonizadores sofriam de uma infinita saudade daquilo que nunca haviam sido: urbanitas dos grandes centros culturais europeus, e buscavam adotar hábitos de uma cultura que não os pertencia.
Então, chegamos na década de 20. Era o nascimento de uma nova jornada, e a morte do paradigma europeu : o crescimento de nossos “bons” vizinhos do norte, os Estados Unidos. Em meados da IIGM, estava pronta a base aérea americana em Natal-RN. Antes de acionar os motores dos aviões, os pilotos no interior da cabine mostravam a mão fechada, com o polegar para cima, a fim de se comunicarem com os nordestinos. Nascia então, o sinal internacionalizado de positivo, concordância, amizade, bom-dia, boa-tarde, boa-noite, em substituição do aperto da pontinha do lóbulo da orelha. O Brasil estava americanizado!
Apesar da repulsa de importantes setores da sociedade brasileira, que acreditavam que havia “muito mais civilização num beco de Paris do que em toda vasta Nova York (Eça de Queirós)”, compramos os produtos das fábricas de ideologias americanas. Democracia, progresso e o eixo de nossas vidas: trabalhar, ganhar dinheiro e consumir. Nossos bons vizinhos modelaram nossos gostos e nossas fontes de entretenimento através de Hollywood, Walt Disney World, música, tv a cabo, da McDonaldização do mundo. E fizeram com que o mercado global exigisse de seus súditos a fluência do Inglês.
Mas a partir de um tal 11 de setembro de 2001, e de uma guerra declarada ao terror, grande parte daqueles que usavam camisetas da GAP, Ralph Lauren, Levi´s, passaram a usar camisetas com dizeres Bush is stupid. Pesquisas divulgadas pela CNN em abril de 2006, mostram que 32% dos 1.012 entrevistados americanos aprovam o governo Bush, enquanto 60% desaprovam a atual administração. O mundo passou agora, a temer o poder dos EUA. Seria esse o maior sinal do declínio do Império Americano?
Voltando ao ciclo biológico, quem substituirá os EUA? Chamada, no passado, de “gigante adormecido”, a China está acordando. Em 2006, anunciou um crescimento espetacular de 10,7 % de seu PIB, enquanto os EUA apresentaram pífios 3,5%. De acordo com projeções da consultoria PriceWaterHouseCoopers, a China será a maior potência econômica em 2050, seguida pela Índia e pelos EUA. Traduzindo: esse cenário representa não só uma temível ameaça à hegemonia ianque, como também está criando turbulências econômicas e afetando as indústrias de todo o mundo. Um exemplo mais próximo: a indústria calçadista francana.
Se as projeções se concretizarem, será que assistiremos a um novo imperialismo, agora oriental? Será que o frango xadrez e o rolinho primavera passarão a fazer parte de nossa mesa? O mundo do entertainment deverá então promover artistas como a pop star de Hong Kong, conhecida como a Mariah Carey da Ásia, CoCo´s Lee, e também a cantora Wei Wei, que já entrou na lista dos 150 artistas que mais venderam discos na história da música? E vale lembrar que, como disse José Flávio de Sombra Saraiva, “quem aprender mandarim estará rico em dez anos”.
Segundo o francês Jean-Baptiste Duroselle, todo império perecerá. E segundo o ciclo biológico, outro império nascerá e crescerá. E assim sucessivamente. Mas será que, se a China realmente constituir-se num império, este será tão sedutor quanto ao imperialismo ianque?
Stella Menegucci Nogueira de Freitas, convidada, é graduanda do curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista - "Júlio de Mesquita Filho", UNESP.