sexta-feira, 7 de março de 2008

Pantaleão e a pantonímia da ignorância

Odair J. de Araújo Junior
As prévias eleitorais democráticas nos Estados Unidos, extremamente equilibradas, têm colocado em foco duas ou três parcelas do eleitorado que bem poderiam ser consideradas “minorias”. Os negros, as mulheres, e os latinos. Perceba as aspas em minorias, que aqui adquire mais o sentido de minoria política, do que de minoria factual, haja visto que nem os negros, nem as mulheres, e talvez nem os latinos, sejam tão minorias assim na configuração populacional norte-americana. Hillary tem a seu favor as mulheres e os latinos, esses últimos de quem ganha significativo apoio desde quando era apenas uma ativa participante na campanha de outros candidatos, ainda na década de 70. Esse apoio é incentivado pela falha mais grave no programa de Obama, que vêm a ser exatamente, a questão dos imigrantes e dos latinos. Já Barak, tem forte apoio na parcela negra, parcela discriminada toda vida da composição americana e que, apesar de culturalmente sempre presente, cita-se o jazz, por exemplo, nos últimos anos tomou de vez a cena na cultura ianque, pelo menos na musical.
Os mais jovens também são atraídos por Obama, o que num processo eleitoral de sufrágio não obrigatório, tão diferente do nosso super-democrático processo, é no mínimo fascinante, tendo em vista que nos últimos anos, essa parcela da população esteve quase sempre envolvida em gestos de protestos, como o não-voto.
Assim, para tanto, a campanha eleitoral de setembro, deve ao menos lançar base a um debate sobre uma nova América, e certamente, de forma mais enervada e frutífera do que o fora com Al Gore. A questão a se saber é se essa “América” dirá respeito só aos EUA, ou poderá se estender à toda a América. Os republicanos, nesse sentido, ao menos para nós, brasileiros, sempre assinalaram com políticas mais interessantes.
Entretanto, entender qualquer processo na América passa em muito por uma questão de entendimento histórico-social latino americano. Os países fazem suas opções políticas, e isso, como não poderia ser diferente, interfere terrivelmente na forma como a América caminha.
À despeito, por exemplo, da reunião emergencial da OEA, na qual aparentemente a questão Equador – Colômbia pareceu sanada, o encontro dos países do Grupo do Rio em Santo Domingo parece que servirá uma vez mais ainda de palco para o show pirotécnico da “salvação bolivariana”. Não contente com o clima de animosidade regional, cuja união o governo bolivariano da Venezuela tanto diz aspirar, sua diplomacia agora recorre a outras nações para angariar apoio à suas bravatas.
Veja bem: a Colômbia invadiu o território equatoriano para uma ação militar, feriu a soberania e a territorialidade desse, e na seqüência apresentou um pedido formal de desculpas, justificou a ação e o fez também ainda no fórum aberto para tal na Organização dos Estados Americanos. Não vejo onde mais essa questão possa dar. Não estou com isso justificando a ação colombiana, nem fazendo pouca monta do ocorrido. Mas civilizadamente, uma vez que toda a ação, à luz dos esclarecimentos devidos, já foi constatadamente caracterizada como uma ação contra as FARC, e não como uma intenção velada de anexação, expansão, ou agressão territorial, o pedido de desculpas, além da condenação de toda a comunidade internacional para o ocorrido, parece ser a solução possível e plausível para a questão.
Mas Chávez, e me esforço para não mencionar aqui seu nome, ameaça reduzir as importações da Colômbia, além de nacionalizar suas empresas em território Venezuelano. Bom, o primeiro ponto em discussão, e para isso está aberto o espaço para comentários, é, o que a Venezuela tem a ver com isso?
Bem, mas como essa resposta foge do limite surreal ao qual minha mente pode suportar, vamos ao que interessa. Não percamos de vista o que realmente acontece na América. Nacionalizar empresas não é de fato uma novidade no governo de Chávez, nem no seu aparente mais sensato colega, Morales, que até agora misteriosamente não se manifestou, quase me convencendo de sua sensatez. A Bolívia, assim como a Venezuela, nacionalizaram vários investimentos estrangeiros, e no caso da Bolívia, investimentos brasileiros. Bom, o Brasil não desrespeitou a soberania nem o território boliviano. Nem por isso foi poupado da ação, considerada bela e plausível, acreditem, pela intelectualidade e pelos jovens universitários entediados do Brasil.
Com isso, não parece que Chávez pretenda fazer represália à Colômbia, mas desestruturar através da economia o país vizinho, abertamente de direcionamento ideológico-político diferente do seu. Vejam bem: o jogo aqui, ultrapassa em muito à esfera de questões territoriais e jurídicas. Tanto que a resolução de reprimenda da OEA à Colômbia não satisfez o famigerado Chávez. Agora quer a questão no encontro do Grupo do Rio, e traz à tira-colo outro falido colega, o governo da Nicarágua, que também promete cortar importações do governo de Bogotá.
Nacionalizar ou cortar importações não fere diretamente ao presidente Uribe tanto quanto a reprimenda internacional fere, mas agride as regras de funcionamento do capitalismo, ente nem tão querido na parca compreensão política de Hugo Chávez. E agridir deliberdaamente a Colômbia não só agride ao capitalismo liberal que Uribe tenta representar, como fere também seu principal aliado, os Estados Unidos, inimigo utópico do Chávez que nem com cem anos de governo “democrático” poderia arranhar.
O que passa despercebido até agora é o interesse de Chávez e seu comparsa Corrrea em apoiar às FARC. Ninguém questiona, nem tampouco repreende por isso. Há um espírito de solidariedade e identificação na América esquerdista com os terroristas colombianos que lutam em nome de algo do qual Marx se envergonharia. O Capital, obra central de Marx, foi o primeiro livro proibido do index prohibitorium das FARC. Decência e moralidade no combate político foram o outro item.
Essa é a América esquerdista, que não se une visando o progresso, mas visando a aproximação de pseudo-democracias da pseudo-esquerdas com pseudo-líderes regionais. Dá para se entender por que a América não se desenvolve no ritmo que deveria, nem seus laços se dão da forma que deveriam se dar.
Vale o questionamento então, do posicionamento, diante da questão, de países como Brasil, Argentina e Chile, países com melhores e mais fortes economias na América Latina, junto com o México. Esses, diferente de Chávez, Dona Florinda e Quico, cuidam de seus interesses, e colaboram não no boicote às importações colombianas, mas em ações positivas em torno de algo real e concreto, que busque e leve a cooperação a índices mais elevados em assuntos realmente decisivos e significativos para seus próprios destinos e populações. Chávez perde seu tempo e desperdiça as boas chances da população venezuelana com um sonho pífio e um plano político de araque, se ocupando de tornar nebuloso o cenário e esconder na neblina os resultados de Pirro do seu governo, governo este que não se habilitaria a uma reeleição num processo democrático, acaso houvesse um ainda na Venezuela. Mas Chávez, e seu colega Morales, reescrevem a constituição, refundam seus países, e se perpetuam no poder, com um livro de Maquiavel no criado mudo e a foto de Fidel no porta-retratos.
Há explicação de por que a América não prossegue e ganha espaço. A Venezuela, como um Xamã, nos oferece todas as respostas. A complacência com as FARC e com a ditadura de Chávez, ditadura porque já suprimiu as liberdades de manifestação e de imprensa, caçando concessões de televisão e rádio, com uma perseguição sutil e segredada de seus opositores mais fortes, tal complacência vinda de países como a Nicarágua, com um passado negro de guerrilha e ditadura, não poderia nem assustar. Nem o ridículo show de Correa e Chávez, que desesperados em agredir os Estados Unidos sem ter como, acham que assim, podem e vão desestruturar a América de Obama e Hillary. Doce ilusão.
Deveríamos sempre substituir o acento e o z do Chávez venezuelano por um s, e escrever seu nome como seu homônimo mexicano, o Chaves. E que o criador do Chaves me perdoe por essa comparação desonrosa e agressiva.
Odair J. de Araújo Junior, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.