quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ficar ou não ficar, eis minha questão/ O Hamlet em pele de Otelo/ Mugabe: o amiguinho da democracia

O. J. de Araújo Junior
Você sabe onde fica o Zimbábue? É, de pronto, nem eu saberia responder. Saberia que fica na África, mas não saberia quem são seus países limítrofes. E o que acontece no Zimbábue? De pronto, eu também não saberia responder.
Mas eis que acordo um dia, um dia qualquer, um dia bobo a mais nas nossas vidas e penso: gostaria de escrever algo diferente para o Mundo em Questão hoje. E como num passe de mágica, minha página inicial da Google notícias estampa a crise existencial do ditador do Zimbábue, pequeno país entre Moçambique, África do Sul, Botsuana e Zâmbia. Olha que legal, um acontecimento na África!
É, mas será que não acontecem coisas na África todos os dias, pergunta a razão inquieta desse humilde escritor. Parece que sim, tanto quanto parece mais interessante discutir a Alemanha, a Inglaterra, os EUA, o Japão, o Brasil. É mais interessante olhar para o lado rico do mundo a se lembrar se quer que o lado pobre existe.
Porém, cansado dessa redundância geográfica, resolvi me aventurar pelo Zimbábue, e pela crise existencial de seu ditador. Robert Mugabe, no poder há 28 anos, um momento apenas se comparado a nosso tio Fidel, reflete, em termos shakesperianos, ficar ou não ficar, eis a questão.
Vamos por partes, ou o pobre leitor pode não compreender bem o problema do interessante Zimbábue. Atualmente, o país da África enfrenta eleições democráticas que irão decidir a continuidade ou não de Robert Mugabe, no poder, como disse, há 28 anos. Seus concorrentes são Morgan Tsvangirai e o candidato independente Simba Makoni. O primeiro turno já teve o pleito, o que se espera agora é o resultado.
Mas apesar de um ditador promover uma eleição democrática e ter dois candidatos rivais, o que já demonstra um certo apetite pelo poder geral, existe pressões da própria ala governista para que Mugabe abandone em definitivo o poder, antes mesmo do resultado, fato que é desmentido pelo vice-ministro da informação Bright Matonga.
Bom, mas então, parece-nos que diferente de muitos países africanos, o Zimbábue caminha bem, não? Um ditador que convoca eleições democráticas e afirma, no momento de seu voto que, se for derrotado, aceitará a derrota porque entenderá que a população não mais apóia seu projeto; candidatos de oposição e até um candidato independente; primeiro turno organizado sem violência ou milícias tomando as ruas e estampando manchetes nos jornais; o que mais pode se querer do Zimbábue?
Talvez uma solução para os 80% de desempregados, os 100.000% de inflação e a epidemia de Aids que diminui ainda mais a expectativa de vida da população. Ah, e sendo África, adicione, só para variar, escassez de alimentos, suprimentos básicos, remédios e afins.
Ocorre-me uma pergunta: Se a população no Zimbábue tem uma expectativa de vida diminuída, logo, um governo de 28 anos, mais que conquistar uma geração, conquistou um país, não? Sim, porque as pessoas vão morrendo, de fome, de Aids, mas o governo continua lá. Podemos dizer então que de longe, o governo de Mugabe é o maior exemplo de longevidade na breve nação africana.
Mas, ditador há 28 anos, Mugabe deve ter uma explicação para a inflação, para a escassez de produtos, para o desemprego. Sim, culpa das nações brancas ocidentais e do colonialismo britânico. Vejam, há preconceito invertido, branquelos preconceituosos.
É, Mugabe me parece uma variação mais longínqua, por enquanto, do colega Chávez. Mesmo discurso, mesma postura confiante no povo que não lhe falhará nesse momento crucial, mesma política. Mesma política? É, pasmem pseudo-esquerda acadêmica nacional, Mugabe realizou, no início da década, uma reforma agrária na qual expropriou mais de 3000 fazendas de brancos e redistribuiu na parcela negra da população. O problema é que, a reforma agrária foi tão caótica que pode ser indicada como grande responsável pela crise atual.
No parlamento, o partido da oposição estima que tenha ganhado em número de cadeiras, enquanto o partido independente tenha ganhado uma, e o governista ficado com o restante. Mas ninguém saberá informar se haverá uma definição no primeiro turno para a corrida presidencial. O mais provável seria um segundo turno, com os dois partidos não-governistas se unindo e fortalecendo a oposição. Como podemos ver, não é só os EUA que têm sua corrida presidencial, o Zimbábue também. E a despeito da norte-americana interessar ao mundo todo, a do colega africano interessa particularmente à África do Sul, exaurida com imigrantes ilegais oriundos do país vizinho. É, o Zimbábue é o México da África do Sul.
Considerações à parte, pode ser mais uma ditadura que cai no mundo, apesar do novo governo democrático não dispor de tão boas condições assim para se firmar definitivamente. Mas o que deve nos preocupar não são as ditaduras ao redor do mundo que caem, mas as que podem subir. Uma pesquisa recente indicou que cerca de 30% da população jovem no Brasil pensa que um regime autoritário seria a melhor solução para os problemas enfrentados aqui. É, nossa situação não é tão ruim quanto a do Zimbábue, mas se o governo não tratar com seriedade nossos problemas, oferecendo soluções práticas e eficazes, logo, logo, esse número de simpatizantes do autoritarismo pode aumentar. Situações como a nossa não geram o caos, mas geram ditaduras. E ditaduras, resultam em situações como a do Zimbábue.



O. J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.