Hélio Afonso Filho
O Brasil é um país de muitos ídolos e pouca memória. Quantas pessoas extraordinárias nosso país já produziu e continua produzindo? Nem precisamos pensar muito para enumerar listas e mais listas de heróis que fazem parte da nossa rica história, mas apesar disso não fazemos justiça a esses grandes homens e mulheres. Por uma falha de memória ou de cultura, só lembramos dos nossos ícones quando da morte e Oxalá de um ressurgimento e isso acontece pelo simples fato de ser como somos, de ter essa alma latina que sempre tende ao espetáculo trágico (vide o caso da menina Isabella, jogada do alto de seu edifício).
Não quero cometer esse pecado no dia de hoje. Gostaria mesmo é de celebrar a ascensão de um herói ao Monte Olimpo da história brasileira. Em um país que a política só nos deixa vilões hediondos, o maior celeiro de ídolos concentra seus esforços nas artes e esportes. Nem preciso falar de um Antônio Carlos Jobim ou de Vinícius de Morais, só para também pagar minha gratidão por esse ano estarmos completando 50 anos da Bossa Nova. Mas temos Portinari, Tarsila do Amaral, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, dentre milhões de outros que merecem todo o nosso apreço pelas obras que nos deixaram. Porém, tenho de reconhecer que o esporte produziu neste último século os mais marcantes personagens mitológicos da nossa história. A começar por Pelé, talvez o maior de todos, conhecido mundo a fora como o Rei do Futebol e que levou a loucura multidões de torcedores enlouquecidos com sua habilidade e gols que marcaram toda uma geração. Puxando mais para meu tempo, o maior ídolo foi Ayrton Senna. Apesar de o automobilismo ser um tanto quanto sui generis, o carisma daquele piloto era algo extraordinário e a habilidade com que ultrapassava seus adversários refletia um bocado na realidade de cada brasileiro que tinha de desviar de muitos obstáculos numa corrida sem fim pela sobrevivência.
Alguém poderá agora perguntar o que isso tem a ver com Relações Internacionais? Talvez seja uma árdua tarefa fazer um paralelo entre essas coisas, porém com um pouco mais de visão, chegaremos a uma forma de uni-los nas entrelinhas do tempo. Ainda não cheguei a quem quero homenagear, mas um pouco de suspense é sempre uma grande arma de qualquer escritor que tenta fisgar a atenção do leitor. Neste primeiro momento vamos criar um plano de fundo para que a história se sustente.
Se pensarmos no que consiste as Relações Internacionais e o que elas podem produzir para a sociedade, logo pensamos em duas coisas fundamentais: a área diplomática e a área industrial, centrado na internacionalização das empresas, cada vez mais importante na dinâmica global. Ser um diplomata ou divulgar uma marca para o mundo não é papel somente de um internacionalista, podemos encontrar essa vocação em alguns indivíduos dotados de certos poderes maquiavélicos, que somente confirmam a tese sobre a importância do “carisma” e da “virtú”.
Foi em razão de todos esses fatores que Gustavo Kuerten conseguiu o seu lugar no pedestal dos heróis brasileiros. Podemos afirmar categoricamente, que este conseguiu reunir em si e em seu jogo, todas as habilidades necessárias para ser um internacionalista. Se pensarmos assim, conseguiremos facilmente traçar uma comparação entre as coisas. Com seu grande feito em 1997, conquistando pela primeira vez um título de Grand Slam( um dos quatro grandes torneios de tênis), conseguiu internacionalizar seu estilo de jogo e popularizar em seu país a marca de um esporte taxado de “burguês”, de “jogo de elite”. Ele se tornou um grande embaixador deste esporte externamente, que outrora era severamente rígido, com regras claras e entediante, transformando em algo prazeroso de se ver, jogando sempre com um grande sorriso e gemidos frenéticos. Era o que tênis precisava para entrar nas grandes transmissões de televisão, alguém diferente, chamativo e carismático; com suas roupas coloridas e um jogo vistoso que misturava potência e talento. Conseguiu com tudo isso, uma grande notabilidade, internacionalizando o seu nome, sua marca e o mundo do tênis que era voltado apenas ao público europeu e americano E se voltarmos o olhar para uma perspectiva nacional, com uma habilidade de Rio Branco, ele conseguiu inserir no vocabulário popular algo como “drop shot” ou “largadinha”, além de colocar raquetes nas mãos de meninos sem ter o que comer. Esse sim um verdadeiro trabalho hercúleo, passando por cima de políticas e políticos ineficientes que nem de longe conseguiu fazer o que esse rapaz fez por sua nação e pelo mundo esportivo em geral.
Um modelo de embaixador e internacionalista é assim que eu vejo um dos meus grandes ídolos que ontem se despediu do público brasileiro. Apesar de seu legado ter sido estragado pela incapacidade das políticas públicas de avançar com seu trabalho, devemos todos cultivar por esse herói, orgulho e respeito. Como a nossa cultura é voltada para a tragédia, poderíamos notabilizar este final de sua carreira, o qual foi marcada por derrotas e problemas físicos, contudo é preciso salientar as glórias e todo o trabalho que ele realizou, talvez mesmo sem perceber, mudou, com a velocidade de qualquer fenômeno, a cara do país do futebol.
Hélio Afonso Filho, da equipe do Mundo em Questão, graduado em Relações Internacionais pela UCG, pós-graduando em Administração de Empresas pela FGV. Atualmente trabalha na ONG Associação dos Amigos da Anapolina, onde desenvolve trabalhos de Marketing e Relações com Investidores. Também se dedica aos estudos sobre processos de Integração no caso Europeu e Latino Americano e desenvolve também trabalhos na área Futebol-Relações Internacionais.
