quinta-feira, 10 de abril de 2008

Barrados no Baile – A mocinha que escova os dentes e esquece o desodorante

O. J. de Araújo Junior

Durante a passagem da tocha olímpica por Paris, acontecimentos bizarros se sucederam. Bom, vamos ao início, à tal da tocha.

Por que ficar correndo o mundo com um foguinho? Bom, também acho uma idiotice, mas acreditem, a idiotice é uma tradição e com tradição não se discute. Tradição foi feita pra se cumprir. Então, a gente fica esperando aquele isqueirinho passar por tudo quanto é parte do mundo. Por aqui também.

Em Paris houveram protestos contra a forma como a China trata o Tibet, e a tocha, que não é chinesa nem nada, foi que pagou o pato. Os manifestantes tentavam apagar a tocha e derrubá-la no chão. Não que apagar a tocha seja um problema. Eu mesmo, com uma caixinha de fósforos, resolveria a questão no máximo em duas tentativas. O fato é que em alguns pontos do trajeto a tocha teve de ir de ônibus. Bom, pelo menos a tocha não se cansou. Dessa forma, penso até em me candidatar para levá-la aqui no Brasil. De ônibus eu vou numa boa.

Bem, e essa é a parte bizarra? Não.

Nós, homens, que normalmente gostamos e acompanhamos excessivamente futebol, já ouvimos falar de rodízio de faltas, que basicamente é quando um time se reveza para cometer infrações sobre um mesmo jogador evitando assim uma punição direta por repetição do anti-jogo. Recentemente, um time paraguaio inventou no Morumbi o rodízio de quedas, no qual se revezavam para simular lesões e assim parar o jogo.

Todos nós nos deparamos com rodízios em quase todos os lugares. Em São Paulo temos o rodízio de carros, no qual não se circula com um determinado número de placa em dias determinados. Temos rodízio de pizzas e rodízio de churrasco. Mas e você aí, já ouviu falar de rodízio de censura?

A China inventou esse novo rodízio. Durante a transmissão dos incidentes ocorridos em Paris durante a passagem da tocha olímpica, a transmissão da BBC e da CNN para o território chinês estiveram temporariamente fora do ar, alternadamente.

O blecaute começou quando a BBC noticiava os protestos com a seguinte manchete: “A tocha olímpica quase se apaga na cidade-luz”. É verdade que uma manchete dessas merecia ser censurada, mas obviamente não parece ter sido o senso estético de algum fiscal chinês o que resultou no apagão da transmissão. Minutos depois, o sinal foi regularizado, justamente quando a notícia havia prosseguido e informava sobre a recepção da tocha no aeroporto Charles de Gaulle.

Quase que magicamente, minutos depois, a transmissão da CNN sumiu do ar enquanto noticiava a forma impactante como os manifestantes franceses favoráveis ou simpáticos ao Tibet tentavam boicotar a tocha. Reapareceu quando a emissora passou a discutir as prévias norte-americanas. Mágica pura!

Enquanto tudo isso ocorria, a estatal televisiva chinesa, em seu documentário em inglês, informava apenas quantas personalidades foram recepcionar a tocha no aeroporto que leva o nome do ex-presidente francês, o mesmo que disse em vida que o Brasil não era um país pra se levar a sério. E estava certo.

É, esse é o recém-inventado rodízio de censura. Da forma como tudo que é feito na China tem sido importado por outros países do mundo, corremos o risco de ver essa fórmula se perpetuar. Será? Chávez já se candidatou para primeiro experimentar, tiete que é de toda novidade democrática.

A China anda cada vez mais megalomaníaca. Afirmou que constrtuirá uma ponte maior que a Rio-Niterói e uma usina hidrelétrica maior que Itaipu. Obras faraônicas, bem ao estilo Médici e Geisel, são características de regimes ditatoriais. Censura também. É claro que tudo se moderniza, e a China vêm no alvorecer da modernidade. Cortar o sinal de meios de comunicação internacionais foi avant-guarde.

A China parece incomodada com opiniões dissidentes à sua. Ofende-se com o Tibet. Ofende-se com o Dalai Lama. Ofende-se com os EUA quando esses homenageiam o Dalai-Lama. Ofendem-se com a BBC e a CNN se essas mostram exatamente o que aconteceu em Paris e nada mais. É, só que controlar a opinião dos demais no sistema internacional, e não só da sua população, é também muito avant-guarde. Não?

Um bom presente para o premiê Hun Jintao é um box de Gossip Girl. Como uma mocinha que adentra o mundo badalado da popularidade escolar, o camarada Jintao descobre que toda popularidade tem seu preço. Se a mocinha tem os dentes branquinhos, cabelinhos loirinhos sedosos, e olhos azuis da cor do mar, mas sofre de um terrível e descontrolado odor nas axilas, os coleguinhas logo a estereotipam com veemência e crueldade. A China descobre que não basta escovar os dentes e ao mesmo tempo feder pra burro. A China descobre que ser pop no mundo tem suas consequências e responsabilidades.




O. J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.