
Um destacado nome da política norte-americana no século XX certa vez versou que: “para quem não sabe para onde está indo, todos os caminhos levam a lugar nenhum”. O autor dessa frase, nascido alemão na cidade de Fürth, fugiu das perseguições anti-semitas da Alemanha nazista e naturalizado americano se tornaria num dos maiores nomes do exercício diplomático dos EUA. Seu nome é Heinz Alfred Kissinger, ou na versão mais conhecida, Henry Kissinger.
Kissinger lutou na Segunda Guerra Mundial pela pátria que o acolheu, se doutorou em Harvard em 1954, e depois serviu como conselheiro de política externa para uma série de presidentes americanos, no período que se segue entre Eisenhower e Gerald Ford, sendo o secretário de estado e confidente pessoal do presidente Nixon.
Em 1973 foi coroado com o prêmio Nobel da paz, juntamente com Le Duc Tho, que o recusou, pelo acordo que selou a paz no Vietnã. Porém, seu conhecimento emblemático de como as estruturas da diplomacia podem e devem atuar no exercício diário da política, seja nacional ou internacional, é o que nos interessa aqui hoje. E mais destacadamente, sua percepção expressa na citação acima mencionada.
De fato, parece-nos sábio afirmar que para quem não sabe para onde está indo, todos os caminho o levarão sempre a lugar algum. Porque na vida, seja nas particularidades pessoais ou na prática do agir público, visualização se torna sempre a maior e mais significativa parcela do sucesso da meta. E destituindo nossas inteligências da enormidade de referências e escritos de auto-ajuda, podemos pensar nessa frase no sentido exato que seu formulador imaginou.
Para quem não sabe o que quer, qualquer coisa pode parecer coisa alguma. Essa formulação pode elucidar mais o que se almeja entender da citação de Kissinger. Se você não sabe se quer ser rico ou pobre, a pobreza ou a riqueza pode não ter significado algum. Muitos dirão que é óbvio que sempre se deseja ser rico, mas creia que a imaginação humana, felizmente, pode produzir raciocínios mais complexos e fascinantes, nos quais a obviedade da vivência materialista não resulta em pensamentos e desejos homogêneos.
Em política pública, não saber onde se almeja chegar pode ser quase sempre um risco de que ao se chegar a algum lugar, receie-se não haver chegado em lugar algum. Muitos países nos oferecem exemplos laboriosamente elaborados de como a falta de identificação lógica de seus objetivos pode resultar numa desafortunada insatisfação e oscilação identitária entre a massa constituída de seu corpo e o reflexo posto no espelho. O Brasil integra esse grupo.
Desde o início de nossa curta história, não saber quais são nossos objetivos claros resultou em não enxergarmos com clareza nossos ganhos ou resultados específicos, e quase sempre abriu precedentes para distorções reais de nossas políticas, que em sua maioria, indicou e possibilitou a devassidão dos meios e das forças públicas.
Não há nada de errado em querer ser potência, querer ser líder, querer ser mártir da causa operária, salvaguarda dos louros neo-liberais da economia globalizada, ou detentor de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O pecado está na verdade em não se saber o que se quer ser, e como um adolescente que oscila ante o peso das inúmeras escolhas do vestibular e das dificuldades da vida adulta, todo dia que nascer, perceber, sonhar, e desfocar suas forças nas ilimitadas possibilidades vindas nas ondas tênues e macias do tempo.
Não há pecado em ser imperialista, mas há em ser e não assumir. Não há pecados em se identificar com a peseudo-esquerda da américa latina, mas o há em alternar sua posição ideológica a cada novo governo em exercício. Temos que aprender que nossas percepções pessoais passam longe do que deveriam ser nossas metas coletivas. Há de se ter coerência.
O Brasil é rico na arte de alternar suas posições diante das distintas situações às quais está exposto, ou em outras palavras, da famosa síndrome do falso coitadinho. O Brasil é de fato um gigante na profícua arte de ser arrogar poder e chorar misérias quando seu poder é exigido. A cidade de São Paulo, invariavelmente a maior do país, é uma casquinha dessa ferida. São Paulo é quase um PhD em alternar seus desejos megalomaníacos com sua postura de frágil donzela indefesa e injustiçada. São Paulo aspira por ser a maior cidade da América Latina, mas foge aos seus compromissos sociais e estruturais quando lhe é cobrado. Assim, seguimos arpejando nossa condição de grandiosa megalópole avançada, rica, próspera e invejada no cenário internacional. Mas nos recusamos a pensar como tal, e continuamos exercendo políticas de cidades pequenas, atrasadas e retrógradas.
Nada muito diferente do Brasil. É interessante se chamar de nação do futuro consagrando práticas fraudulentas típicas de administrações corruptas e pouco democráticas que já deveriam ter sido superadas e esquecidas nos livros de História. É mestre em se conclamar de país apto para receber turistas, mas conservar um sistema falho e porcamente constituído de aparelhagem e operação de controle aéreo.
A questão é que se não sabemos o que queremos ser, dificilmente saberemos o que somos, e comumente nos veremos como não sendo nada. E aí, poderemos colocar a culpa no tempo que foi curto desde nossa descoberta e independência aos dias de hoje. Então, haverão duas explicações paupáveis: ou quarenta anos fazem muito diferença na milenar História da humanidade e o fato do Brasil ter sido feito independente em 1822, e os EUA em 1777, faz grande diferença no estágio de desenvolvimento de ambas as nações; ou Kissinger está certo.
E isso é tudo.
J.F.
