
No último dia 29 comemorou-se o dia do diplomata. A data festiva teve evento solene realizado no palácio do Itamaraty, com a presença do presidente Lula, e complementado pela formatura da turma 2005-2007 de diplomatas do Instituto Rio Branco.
O dia do diplomata é um dia para lembrarmos de uma opção de carreira de muito valor e muita entrega. E apesar da opinião geral de que um diplomata seja um homem de finos gestos e requintados hábitos cercado por prazeres e souvenires de elevada preciosidade, o diplomata é acima de tudo, um guerreiro cuja arma são as palavras e a busca pelo melhor termo.
É inegável a frustração à qual um diplomata está diariamente exposto no exercício de suas funções. Um diplomata é acima de tudo um sonhador que vê dia a dia a necessidade de lidar com seus sonhos sempre no plano duro e feroz da realidade. O diplomata não parece ser o tipo de pessoa que foge à uma guerra, mas claramente se mostrará desnecessário num ambiente em que a sensatez e o respeito pela humanidade se perder. Porém, sem equívocos desatenciosos, não se faz a guerra sem um diplomata, mas certamente sua missão mais solene e intrincada é construir a paz, vendo-a crescer em suas atitudes zelosas e dedicadas.
O presidente Lula talvez se pergunte se é possível a um diplomata a solidariedade e a dureza do serviço de Estado, e encontre resposta positiva para tal. De fato, é impossível imaginar o exercício de uma diplomacia autônoma e digna se esta se atém de seu compromisso com a solidariedade na busca da concretização de seus ideais. Uma diplomacia sem solidariedade não poderá, de forma alguma, ser a diplomacia de um Estado democrático que aspire sua liberdade e a liberdade de todos os povos. Uma diplomacia sem solidariedade será um diplomacia em parte manca e cega.
Enquanto as novas turmas de diplomatas se formam para o exercício altruísta e exímio da diplomacia, o chanceler Celso Amorim e o presidente Lula ainda se vêem às voltas com a questão da renegociação de preços para a energia produzida em Itaipu não utilizada pelo Paraguai e comprada pelo Brasil. Em Gana, o presidente afirmou não ter intenções de rediscutir o acordo com o país vizinho, enquanto Amorim aceita a possibilidade de renegociação do valor pago.
O Itamaraty afirma que não há contradição na declaração de ambos. O presidente Lula não aceita refazer o acordo nem rediscutir a fórmula de cálculo para o montante pago. Amorim aceita rediscutir os valores, mas não a fórmula e o acordo. Então, não falam da mesma coisa. Fernando Lugo, presidente paraguaio recém-eleito parece acenar por uma renegociação do acordo, evento que não apetece a diplomacia brasileira. Uma renegociação do acordo resultaria num repasse do valor estabelecido para o consumidor. Um aumento de valores sem a renegociação da fórmula e do acordo, não.
Curiosamente, para o diretor-geral da usina, Jorge Samek, o valor pago atualmente pelo Brasil é justo. Entretanto, acredito que seja totalmente considerável um reajuste no valor. O Brasil não prejudicaria seus interesses se rediscutisse valores atualizados para os 45% de energia excedente que compram do Paraguai, desde que a fórmula de cálculo que leva em conta inúmeros outros fatores como modernização da usina, investimentos em máquinas, contratação de pessoal, ações socioambientais, além do abatimento do financiamento da obra, que atualmente gasta 2 bilhões dos 3,2 bi que a usina gera, abatimento esse que se segue até o término da dívida em 2023.
Uma renegociação dessa fórmula é o que nos parece mais descabido nesse momento. Entretanto, é totalmente justo que o Paraguai busque um melhor aproveitamento desse seu recurso. E num mundo em que a Bolívia e a Venezuela podem sair nacionalizando tudo com base numa torta e descabida justificativa bolivariana, um aceno de interesse de rediscussão não parece ser tão agressivo ou unilateral assim.
J. F.
