quinta-feira, 1 de maio de 2008

O dia primeiro de maio no Circo Máximo



Sempre que chega o primeiro de maio, chegam junto algumas questões e confusões. Primeiramente, é dia do trabalho ou dia do trabalhador?

O correto é dia do trabalhador, mas no Brasil, com nossa inconveniente jocosidade sempre de plantão e à flor-da-pele, transformou-se a data em dia do trabalho, e assim, não perder a piada e a ironia de que no dia do trabalho não se trabalha. Ironias à parte, à simples aceitação de que o correto seja dia do trabalhador, detalhes sutis precisam ser melhor esmiuçados.

No Brasil, o dia do trabalhador é comemorado desde o início do século XX. Diferente de países irmãos como Portugal, a celebração da data nunca foi interrompida, mesmo durante o período do Estado Novo. Mas, peculiaridades brasileiras como sempre, a data apresentou evolução singular e descobriu os acidentes das esquinas da História de nosso país, sendo facilmente apropriada e assimilada pelas estruturas de poder e transformada em mais um instrumento de dominação e controle das massas e dos movimentos legitimamente constituídos pelas classes trabalhadoras.

Quando Getúlio Vargas subiu ao poder, a data que até então era marcada por piquetes, passeatas e manifestações, foi lentamente elaborada como o dia do trabalhador, um dia de festa e comemoração, com grandes eventos públicos e serviços de utilidade dispostos no mesmo lugar. Assim, o caráter de protesto e reinvidicação do dia do trabalhador se perdeu, e no lugar o que surgiu foi uma data de festa e frivolidade comumente confundida com dia do trabalho como se a data fosse um momento para festejar as virtudes de se ter um emprego, colocando-se em segundo plano as reinvidicações da classe e o passado de luta pelos próprios direitos. De Getúlio a Paulinho da Força sindical, não verificamos tantas mudanças assim, e o dia do trabalhador permanece sendo um palanque e uma plataforma de lançamento e auto-promoção de políticos pouco ou nada comprometidos com as causas trabalhistas.

Mas você sabe quando e por que surgiu o dia do trabalhador? A data celebra uma manifestação de trabalhadores em Chicago, nos EUA, no ano de 1886 que culminou numa greve geral. No esquecido dia 3 de maio, a polícia dispersou um levantamento de trabalhadores com violência e culminou por matar alguns manifestantes. A reinvidicação principal do movimento de 1886 era a redução da jornada de trabalho para 8 horas por dia. Nos anos seguintes a data de primeiro de maio foi escolhida na segunda internacional comunista para marcar o dia pela luta para a redução da jornada de trabalho para as oito horas diárias. Em 1891, na França, as reinvidicações de primeiro de maio novamente resultaram em violência e morte. Em países como a França, apenas em 1919 se conseguiu a redução. Nos EUA, o feito foi alcançado em 1890.

Quando vemos as celebrações organizadas por centrais trabalhistas e sindicais no Brasil, com grandes shows e apresentações pirotécnicas de populismo disfarçado em trabalhismo, devemos sempre nos lembrar dos acontecimentos de 1886 e 1891. E entender, que esse circo quase sempre regado à pão nos novos Coliseus e Circos Máximos da era moderna, oculta, sob a face mais amigável do patriarcalismo estatal, a grandiosa trajetória em busca de dignidade e direitos reais e concretos que as lutas laborais passou. E que o trabalhador, muitas vezes em busca de alguns minutos de diversão e satisfação na presença de seus artistas prediletos, desconhece totalmente.

E isso é tudo.


J. F.