A epidemia de dengue no Rio de Janeiro me faz lembrar, curiosamente, Relações Internacionais.
Quando a dengue era a bola da vez, há quase cinqüenta anos atrás, ocupando o lugar que hoje então é ocupado internacionalmente pela gripe do frango, mas que já foi igualmente ocupado pelo mal da vaca louca e pelo ebola, um plano de erradicação da doença se pôs em funcionamento. Ou pelo menos, um plano coerente de erradicação da doença na América, apostando talvez naquela altura, que o mosquitinho não viajava de avião, e tampouco tinha energias suficientes para voar sobre o oceano.
Com a participação de diversos países latino americanos, a iniciativa partida daqui do sul, conseguiu a eliminação da doença em quase toda a América Latina. Da hermana Argentina ao México. Faltou que o plano fosse aplicado nos EUA e no Canadá. Naturalmente, o plano de erradicação não fora adotado pelas respectivas nações, tão superiores para terem problemas com uma doença tropical de país subdesenvolvido. Agiram com arrogância e prepotência, como é ocasional em qualquer grande potência que se preze.
É, impossível mesmo seria imaginar uma epidemia de dengue no Canadá ou nos EUA, o que não impede que a doença existente lá, migre em alguns anos para cá novamente e irrompa aqui, onde os cuidados não são tão bem planejados e executados assim, e os mosquitos, esses ainda são abundantes.
E lá se vão os bons anos 50, de Chuck Berry, do rabo-de-peixe, da dengue. Se o mosquito possuísse claras orientações marxistas, os EUA teriam, então, lhe dado a atenção devida.
Ao longo dos anos o mosquitinho voltou, com seu parasita a tira colo, país a país, destruindo ao longo dos anos o processo de "quase" erradicação de uma década.
É verdade que faltam atitudes concretas por parte dos governos estaduais e municipais para evitar um surto de dengue. É verdade que falta consciência na população para evitar o acúmulo das condições para a proliferação do hospedeiro, apesar das campanhas heróicas e oportunas de nosso papa local, a TV Globo. É verdade, também, que falta ao mosquito da dengue um pouco de bom senso e compreensão para entender que não é bem quisto, bem-vindo, e que sua picadinha inocente nos causa mal. É, é verdade que faltam muitas coisas.
E uma delas não poderia deixar de ser um plano político sério e compromissado para a América em comum. Não nos entendemos em relação às FARC, em parte porque alguns pensam que são comunistas (e que comunistas eles são!). Não nos entendemos em relação à economia e o crescimento econômico. Não nos entendemos culturalmente. Adicione agora, apesar de caduca já essa idéia, não nos entendemos sanitariamente.
Os EUA e o seu quintalzinho, o Canadá, sempre acharam que haviam duas Américas: a sua e a nossa. Nesses países, as criancinhas de quarta série aprendem bem a geografia do continente. A diferença é que lá existe uma matéria que aqui nos falta: O Estreito do México! Sim, porque quem não sabe da existência do Estreito do México? A América possui, geograficamente dois estreitos: o de Bering, que nos separa da Rússia e o do México, que separa a banda boa da laranja da banda ruim, ou em outros termos, a banda rica da banda pobre. Por que não dizer, a banda civilizada da banda bossal? É, essa matéria é rica em noção de unidade continental.
Quando os americanos se vêem diante de um problema oriundo da parte bastarda da América, tendem a lidar com ele como se todo o problema fosse um cisma tribal. Se é político, uga-uga. Se é sanitário, uga-uga. Se é econômico, mais uga-uga. Bastaria uma clava, uma pedra, e uma tanga, do tipo Tarzã, e todos os problemas genuínos da parte diabólica da América se resolveriam.
Nossas doenças só existem porque somos atrasados, não nos cuidamos, não investimos em medidas sanitárias. Nossas disputas políticas existem quando falta alguém que ponha ordem na tribo e decida quem vai ficar com a mulher mais fértil. Nossa economia se resolveria se a teoria de Machado de Assis da Humanitas não se aplicasse e o campo de batatas desse para as duas tribos comerem.
Uga-uga total. Na verdade, a América inferior é um grande self-service no qual é só chegar e ir se servindo. As mulheres, servem é pra isso mesmo. As riquezas naturais, servem é pra isso mesmo. Nossas idéias, servem é pra isso mesmo. Temos todos os problemas do mundo, e ao mesmo tempo só um, que sintetiza nossa inferioridade: somos latinos! É claro, ser latino explica em muito nossa mediocridade, ao menos para alguns no globo, especificamente, na terra do Tio Sam.
Se uma mulher latina quer um Green Card, e otária ela que o quer, permita-me dizer, então que ela sirva um sexo oral no fiscal da imigração. Se um latino quer enriquecer na América, bom, temos milhares de mesas para serem limpas e servidas. Quando um americano deseja conhecer o Brasil basta comprar uma passagem para Buenos Aires, no fundo, é tudo a mesma coisa.
E aí, vemos estudantes da nossa elite nacional, pagando caro para fazerem esse tal de Work'n'travel. Em palavras portuguesas mais compreensíveis e cheias de significado: indo trabalhar de garçom, babá, hostess de cassino, carregador de bagagem de hotel, etc. Os mesmos que quando estão aqui no Brasil, muitas vezes humilham e se sentem superiores a quem dignamente faz essas atividades no país canarinho, mas que aceitam humildemente, fazerem isso em terra alheia. Os mesmo que um dia serão nossos médicos, advogados, doutores pós-doutores. Nossa elite, em outras palavras.
Um hábito romano esse. As tribos dominadas enviavam sua elite, os flihos de seus reis e de seus nobres, para servirem nos palácios do César e dos nobres romanos. Não fazemos nada muito diferente. No fundo, nos amam. O Brasil é a terra do Carnaval (leia-se devassidão), mulher bonita (leia-se sexo fácil e barato) e do soccer (leia-se futebol. O mesmo que o mundo inteiro chama de futebol, mas só o americano se dá o luxo de denominar de soccer).
Assim, percebemos que falta à América duas coisas: unidade na parte dos bárbaros, e respeito na parte civilizada. Mas o que se esperar? Normalmente é difícil a unidade tribal em regiões atrasadas, não é mesmo, Hommer Simpson?
E o Canadá? O que dizer do Canadá? A terra do esquilo e do guarda florestal na verdade se comporta como o irmão mais novo, que repete tudo que o irmão mais velho faz, e ainda jura, no fim, ter personalidade. A questão é que, se os EUA enxergam o Canadá como seu quintal, e enxergam, a América Latina é aquela parte dos fundos, no qual criamos os porcos e as galinhas.
Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.
Quando a dengue era a bola da vez, há quase cinqüenta anos atrás, ocupando o lugar que hoje então é ocupado internacionalmente pela gripe do frango, mas que já foi igualmente ocupado pelo mal da vaca louca e pelo ebola, um plano de erradicação da doença se pôs em funcionamento. Ou pelo menos, um plano coerente de erradicação da doença na América, apostando talvez naquela altura, que o mosquitinho não viajava de avião, e tampouco tinha energias suficientes para voar sobre o oceano.
Com a participação de diversos países latino americanos, a iniciativa partida daqui do sul, conseguiu a eliminação da doença em quase toda a América Latina. Da hermana Argentina ao México. Faltou que o plano fosse aplicado nos EUA e no Canadá. Naturalmente, o plano de erradicação não fora adotado pelas respectivas nações, tão superiores para terem problemas com uma doença tropical de país subdesenvolvido. Agiram com arrogância e prepotência, como é ocasional em qualquer grande potência que se preze.
É, impossível mesmo seria imaginar uma epidemia de dengue no Canadá ou nos EUA, o que não impede que a doença existente lá, migre em alguns anos para cá novamente e irrompa aqui, onde os cuidados não são tão bem planejados e executados assim, e os mosquitos, esses ainda são abundantes.
E lá se vão os bons anos 50, de Chuck Berry, do rabo-de-peixe, da dengue. Se o mosquito possuísse claras orientações marxistas, os EUA teriam, então, lhe dado a atenção devida.
Ao longo dos anos o mosquitinho voltou, com seu parasita a tira colo, país a país, destruindo ao longo dos anos o processo de "quase" erradicação de uma década.
É verdade que faltam atitudes concretas por parte dos governos estaduais e municipais para evitar um surto de dengue. É verdade que falta consciência na população para evitar o acúmulo das condições para a proliferação do hospedeiro, apesar das campanhas heróicas e oportunas de nosso papa local, a TV Globo. É verdade, também, que falta ao mosquito da dengue um pouco de bom senso e compreensão para entender que não é bem quisto, bem-vindo, e que sua picadinha inocente nos causa mal. É, é verdade que faltam muitas coisas.
E uma delas não poderia deixar de ser um plano político sério e compromissado para a América em comum. Não nos entendemos em relação às FARC, em parte porque alguns pensam que são comunistas (e que comunistas eles são!). Não nos entendemos em relação à economia e o crescimento econômico. Não nos entendemos culturalmente. Adicione agora, apesar de caduca já essa idéia, não nos entendemos sanitariamente.
Os EUA e o seu quintalzinho, o Canadá, sempre acharam que haviam duas Américas: a sua e a nossa. Nesses países, as criancinhas de quarta série aprendem bem a geografia do continente. A diferença é que lá existe uma matéria que aqui nos falta: O Estreito do México! Sim, porque quem não sabe da existência do Estreito do México? A América possui, geograficamente dois estreitos: o de Bering, que nos separa da Rússia e o do México, que separa a banda boa da laranja da banda ruim, ou em outros termos, a banda rica da banda pobre. Por que não dizer, a banda civilizada da banda bossal? É, essa matéria é rica em noção de unidade continental.
Quando os americanos se vêem diante de um problema oriundo da parte bastarda da América, tendem a lidar com ele como se todo o problema fosse um cisma tribal. Se é político, uga-uga. Se é sanitário, uga-uga. Se é econômico, mais uga-uga. Bastaria uma clava, uma pedra, e uma tanga, do tipo Tarzã, e todos os problemas genuínos da parte diabólica da América se resolveriam.
Nossas doenças só existem porque somos atrasados, não nos cuidamos, não investimos em medidas sanitárias. Nossas disputas políticas existem quando falta alguém que ponha ordem na tribo e decida quem vai ficar com a mulher mais fértil. Nossa economia se resolveria se a teoria de Machado de Assis da Humanitas não se aplicasse e o campo de batatas desse para as duas tribos comerem.
Uga-uga total. Na verdade, a América inferior é um grande self-service no qual é só chegar e ir se servindo. As mulheres, servem é pra isso mesmo. As riquezas naturais, servem é pra isso mesmo. Nossas idéias, servem é pra isso mesmo. Temos todos os problemas do mundo, e ao mesmo tempo só um, que sintetiza nossa inferioridade: somos latinos! É claro, ser latino explica em muito nossa mediocridade, ao menos para alguns no globo, especificamente, na terra do Tio Sam.
Se uma mulher latina quer um Green Card, e otária ela que o quer, permita-me dizer, então que ela sirva um sexo oral no fiscal da imigração. Se um latino quer enriquecer na América, bom, temos milhares de mesas para serem limpas e servidas. Quando um americano deseja conhecer o Brasil basta comprar uma passagem para Buenos Aires, no fundo, é tudo a mesma coisa.
E aí, vemos estudantes da nossa elite nacional, pagando caro para fazerem esse tal de Work'n'travel. Em palavras portuguesas mais compreensíveis e cheias de significado: indo trabalhar de garçom, babá, hostess de cassino, carregador de bagagem de hotel, etc. Os mesmos que quando estão aqui no Brasil, muitas vezes humilham e se sentem superiores a quem dignamente faz essas atividades no país canarinho, mas que aceitam humildemente, fazerem isso em terra alheia. Os mesmo que um dia serão nossos médicos, advogados, doutores pós-doutores. Nossa elite, em outras palavras.
Um hábito romano esse. As tribos dominadas enviavam sua elite, os flihos de seus reis e de seus nobres, para servirem nos palácios do César e dos nobres romanos. Não fazemos nada muito diferente. No fundo, nos amam. O Brasil é a terra do Carnaval (leia-se devassidão), mulher bonita (leia-se sexo fácil e barato) e do soccer (leia-se futebol. O mesmo que o mundo inteiro chama de futebol, mas só o americano se dá o luxo de denominar de soccer).
Assim, percebemos que falta à América duas coisas: unidade na parte dos bárbaros, e respeito na parte civilizada. Mas o que se esperar? Normalmente é difícil a unidade tribal em regiões atrasadas, não é mesmo, Hommer Simpson?
E o Canadá? O que dizer do Canadá? A terra do esquilo e do guarda florestal na verdade se comporta como o irmão mais novo, que repete tudo que o irmão mais velho faz, e ainda jura, no fim, ter personalidade. A questão é que, se os EUA enxergam o Canadá como seu quintal, e enxergam, a América Latina é aquela parte dos fundos, no qual criamos os porcos e as galinhas.
Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.
