domingo, 30 de março de 2008

MELHORES DE DOMINGO: O G-8 e a política do espetáculo

Republicação
Leonardo Queiroz Leite

O último encontro do G8 na Alemanha e toda a repercussão das polêmicas posições dos EUA acerca das questões de aquecimento global fizeram com que essa organização internacional do mais alto nível se tornasse ainda mais conhecida. Seleto grupo composto pelos principais países mandatários das maiores economias capitalistas da atualidade, o G8 é um fórum permanente de discussões de alcance global que concebe os interesses de um poderoso e restrito grupo: os sete países mais industrializados do mundo (EUA, Alemanha, França, Itália, Canadá, Japão e Reino Unido) e a Rússia. Esse último país foi convidado a integrar ao G7 no começo da década de 1990, em um momento histórico após o fim da Guerra Fria, por seu peso geopolítico e por razões estratégico-militares.
Embora considerado uma organização internacional, o G8 não está estruturado com base em um secretariado nem em uma sede fixa com um corpo burocrático permanente, como estão as organizações internacionais de moldes formais como a ONU e a OMC, sendo classificado, assim, como um caso sui generis de organismo internacional. Assim, mesmo com uma agenda cada vez mais ampla e complexa, o G8 conseguiu manter um caráter informal e evitar uma ampla burocratização das suas atividades.
Inicialmente focado nos debates em torno de questões econômicas internacionais, atualmente o G8 vem atribuindo progressiva importância aos temas relacionados ao desenvolvimento e às preocupações com o aquecimento global. Esse novo enfoque mais "democrático" e menos elitista é evidenciado pelo convite para participação na Cúpula de 2007 estendido às economias emergentes como Brasil, China, Índia, México e África do Sul e a alguns países da África, como Nigéria, Egito, Argélia, Senegal e Gana. O convite a esses países tem pôr objetivo estreitar as relações do G8 com o mundo em desenvolvimento, incluindo as vozes do Sul nas discussões das mais relevantes questões políticas e econômicas de abrangência internacional e intensificando a ajuda internacional ao desenvolvimento da África. Além disso, o G8 ganha uma dimensão mais universal com a participação dos países em desenvolvimento, na tentativa de agregar mais legitimidade às suas decisões marcadamente elitistas.
Entretanto, o G8 ainda é um espaço de natureza fundamentalmente política, já que são os próprios chefes de Estado e de Governo dos países mais influentes do mundo que vão às cúpulas para tomar parte nas reuniões como negociadores. A influência político-diplomática, o esmagador peso militar-tecnológico e a hegemonia econômico-financeira dos países que compõem o G8 são incontrastáveis. Desse modo, a imperiosa vontade desses países que compõem o núcleo duro do poder mundial se faz presente nas decisões finais das Cúpulas, caracterizadas por pura retórica e por um enorme receio de comprometimento com metas e objetivos mais altruístas que por ventura venham a arranhar as suas tão pujantes economias.
Enfim, as badaladas reuniões de Cúpula do G8 "glamourizam" o poder através da política do espetáculo difundida pela imprensa internacional, atingindo grande parcela da opinião pública mundial. A influência das decisões políticas mais relevantes do G8 é irresistível e de certo modo coercitiva, fato que confere a esse restrito clube de nações o cobiçado poder de alterar decisivamente a arquitetura das relações internacionais contemporâneas.


Leonardo Queiroz Leite, convidado, é graduado em Relações Internacionais pela UNESP-Franca e membro da ADESG desde 2005. Atualmente, dedica-se aos estudos para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática.