Odair J. de Araújo Junior
Pode um dragão se transformar numa simples lagartixa? Não. Ou ao menos é isso que a gigante China pode estar provando ao mundo com sua atuação no Tibet.
Está longe de nosso interesse pessoal promover a causa tibetana ou escrever artigos independentistas. Porém, é fato que o Tibet foi anexado à China na década de 1950, o que pode mudar em muito qualquer interpretação que façamos sobre a questão. Quando o Tibet fala em ser livre, fala em recuperar um pouco uma condição a qual já teve no passado.
Tão logo a repulsa ao governo central de Pequin aumentou nos últimos dias, tão logo o governo de Hun Jintao reagiu duramente, se utilizando da polícia anti-motim e da supressão do movimento pela via armada. A China argumenta que tem provas que indicam a participação do círculo de pessoas próximas do Dalai Lama, exilado atualmente na Índia, na premeditação e execução dos protestos recentes, os piores nas últimas duas décadas, que foram desencadeados agora que as atenções se tornam para a China devido às olimpíadas com o claro intuito de mostrar ao mundo desordem e instabilidade no país. Bom, essa é a argumentação do governo central, que também acha que todas as pessoas justas do mundo tendem a concordar consigo.
É, me considero justo e não interpreto a questão bem assim. O Tibet foi anexado há quase cinqüenta anos, e desde sempre mostrou descontentamento com a orientação política chinesa para a região, agravada desde 1989 quando foi declarada lei marcial para o Tibet pelo governo comunista central. A China, como seu vizinho russo, massacra e suprime qualquer tentativa de oposição tibetana em seu território. Mas o Tibet, diferente da Chechênia, se utiliza de expedientes bem menos coerentes com a proporção da reação. Bem, basta percebermos que a China tem uma polícia anti-motim. Motim na designação correta do termo é subversão da ordem e da hierarquia, normalmente decorrente em ambientes de estrita hierarquia e ordem, como as forças armadas, a polícia, ou a tripulação de um navio. Parece injustificável considerar uma manifestação política como motim. Daí incorre dois pontos chaves: ou traduzimos mal do chinês, ou o governo de Hun Jintao considera sua população como soldados aquartelados e sob estritas ordem e códigos hierárquicos disciplinares. Isso de modo algum combina com a imagem progressista que Pequin quer mostrar ao mundo.
Tentar parecer uma inofensiva lagartixa voltada para a economia, o progresso, e a nova era é fácil no papel, mas a China tem provado que no fundo é o mesmo dragão de sempre. O Tibet não é o único problema territorial Chinês. Taiwan é um outro bom exemplo. A China continua por chamá-lo de Formosa, e a considerar território litigante e rebelde. O mundo reconhece o direito de Taiwan em coordenar a si próprio e existir, menos o pouco democrático governo de Pequin. O mesmo ocorre com o Tibet. E agora, a China quer transformar o Dalai Lama num conspirador internacional perigoso e maquiavélico, que deve ser banido pela comunidade internacional e evitado pelas criancinhas. Logo o Dalai Lama, que ao mundo inteiro se apresenta como um líder espiritual elevado, com mensagens de paz e compreensão. Seu pedido recente sobre a questão foi que a China pare com as ações armadas e inicie um diálogo, idéia bem plausível aliás no plano cooperativo das Relações Internacionais contemporâneas nas quais a China tanto quer ser líder. Hun Jintao agora nos tentará convencer que o Budismo na verdade não é uma filosofia que tenta promover a paz de espírito e a evolução pessoal através do auto-controle, do respeito, do diálogo e da compreensão, e sim uma diabólica ceita do mal que articula globalmente a dominação total além da destruição da democrática e bem consolidada sociedade chinesa, promovendo a desigualdade social, o estritamento cultural e a anarquia política. E acreditem, encontrará platéia.
Talvez seu colega anacrônico Chávez lhe dê ouvidos. Talvez o líder das FARC. Assim como os radicais palestinos, os terroristas do antigo bloco soviético, o catatau cubano e o presidente Bush. Todos cavalheiros medievais numa era futurista.
Richard Gere sugeriu que se a situação permanecer assim, e as autoridades chinesas não conseguirem melhorar a forma como lidam com a questão, as olimpíadas deveriam ser boicotadas. Sou contra o esporte pagar por isso, mas termino concordando com a posição do ator americano, budista há 25 anos. E ainda que nem goste tanto de olimpíadas assim, devo ficar alegre, pois parece-me impossível que algo assim aconteça. A comunidade internacional fecha os olhos para os absurdos de nossa era. Polícia anti-motim, homens-bombas, uma quase guerra na América só porque o Chávez se ofendeu com a morte do amiguinho revolucionário.
Há três curiosidades peculiares nesse assunto. Primeira: fontes não identificadas da população local afirmam que dois cidadãos que protestavam foram assassinados pela polícia. A Reuters é uma das agências que noticiam isso. Segundo: Hun Jintao, atual premiê chinês, foi líder do Partido Comunista do Tibet, justamente na época da promulgação da lei marcial. Talvez isso explique um pouco a baixa empolgação tibetana com o atual chefe supremo da nação mais populosa do planeta. Terceiro: a China ficou desgostosa com o prêmio oferecido pelos EUA ao Dalai Lama, homem certamente merecedor de qualquer prêmio de assunto relevante que lhe seja ofertado, e ameaçou que situações como essas podem abalar a relação entre as duas nações. É, a China certamente está "preparada" para ser grande no cenário internacional.
Por fim, a cantora islandesa Bjork, de trabalho duvidoso, mas atuante, em show recente em Xangai, gritou ao microfone após um barulho que denomina de música entitulado "Declare independence": "Tibet! Tibet!". A China está revoltada com isso, ou melhor, o governo democrático de Jintao. Tanto que promete que a partir de agora, irá fiscalizar os artistas estrangeiros que forem se apresentar em seu país, numa atitude extremamente democrática. Milionário e José Rico, dupla sertaneja antiga e hoje quase desconhecida entre as elites brasileiras, são celebridades na China devido a uma música que tinham numa novela da década de 70 da Globo que foi transmitida recentemente na China. Será que eles merecem uma atenção especial? Imagino os dois, protestando desde já contra a violência no Tibet.
Odair J. de Araújo Junior, da equipe Mundo em Questão, é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"(UNESP), se dedica à produção e ao estudo literário.
