
O que dizer de George W. Bush como protagonista de um filme sobre a própria vida? Hilário? Irônico? Irreal?
Não, o ilustre presidente dos EUA não vai de fato ser o protagonista de uma produção cinematográfica, mas vai emprestar sua personalidade para o personagem principal de uma biografia que será rodada e lançada antes da eleição norte-americana por uma produtora independente que tem no currículo, entre outros, filmes de Michael Moore.
A produção não é inicialmente incentivada pelo presidente, ou pelo menos não oficialmente. Seu diretor Oliver Stone acredita que essa será uma boa forma de conhecermos mais sobre um homem que conhecemos bem pouco a partir de imagens controladas e divulgadas na televisão.
Poderia ser um documentário, mas seguirá a linha de produção de drama biográfico. Atores não muito conhecidos estarão nos papéis principais e o filme por si só promete mostrar um lado de Bush que desconhecemos. Nas palavras do proprio Stone, “Bush é um cara engraçado”.
De fato, conheço bem algumas dezenas de pessoas que devam achá-lo muito engraçado. O falecido Saddam, que o diabo o tenha, devia achá-lo quase um Jim Carrey.
O filme deverá ser lançado além dos EUA, na Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália. Dessa vez o soft power americano não vai ser usado em países como Iraque, Afeganistão, China. Talvez porque a personagem principal seja menos apelativa e carismática que um Jason Bourne ou qualquer um do gênero.
Em outro blog, há dois anos atrás, comentei que se a vida fosse um filme, a trajetória de George W. Bush não seria como nos filmes presidencias de Michael Douglas ou Harrison Ford, nos quais um discurso inspirado e patriótico salva o final e o mundo. Talvez, nas grandes telas, até seja. A ignorância e truculência oficial de Bush, marca registrada aliás de seu governo, parecia incapaz de reproduzir momentos de rara inteligência e elevada inspiração como esse, mas no cinema as coisas podem mudar de foco. No filme A Rainha, a rainha Elizabeth da Inglaterra virou uma quase santa, vítima do maquiavelismo de seu marido. O Último Rei da Escócia não o fez, mas poderia ter transformado Idi Amin em um patriótico herói africano. O cinema pode muitas coisas.
Interessante é entender que a produção será pequena, modesta, com poucas pretensões, e correrá praticamente no circuito independente do cinema. Mas será que teria grandes interessados em Hollywood? Vale lembrar que uma das categorias mais atuantes na oposição à política de Bush foi justamente a dos artistas em geral.
Mas alguém já pensou se um filme sobre George W. Bush ganha o Oscar? Não, isso certamente estará longe de acontecer, até pelo estilo modesto da produção. É bem verdade que um filme sobre a história de George Bush não terá destaque tão modesto quanto sua produção. E depois, temos aí o Miss Sunshine para comprovar que não é necessário grande orçamento para ganhar uma estatueta.
Gwyneth Paltrow afirmou que deverá se aposentar aos 35 anos porque não encontra mais motivação para atuar e que o Oscar não traz felicidade. Isso eu não sei, já que não vejo uma estatueta sobre minha estante, mas sei que um filme sobre Bush não traz Oscar. Será?
O certo é que o filme será lançado antes do término do mandato de Bush. Uma vez disse, e ainda digo porque assim penso, que Bush entrará para história como um dos grandes presidentes americanos. Não digo isso porque realmente ache que ele o foi, mas digo porque o tempo todo ele, Bush, comandou um show pirotécnico forte o bastante para lhe dar esse título. O filme será a cereja no topo do bolo. Proposital? Quem saberá.
O importante mesmo é responder à seguinte pergunta: o filme poderá recuperar a imagem de Bush e transformá-lo em algo mais do que um controverso presidente? E mais: esse será mesmo o objetivo do filme ou qual será o objetivo do filme?
Mas essas são perguntas que só o tempo poderá responder.
E isso é tudo.
J. F.
